NEGÓCIOS
Nº edição: 538 | 23.JAN.08 - 10:00 | Atualizado em 03.03 - 22:00
Um desfile de negócios
A chegada dos fundos de investimento ao setor de moda provoca uma revolução num dos mais dinâmicos mercados do País
Por Por Márcia Vaisman



Como ocorre todos os anos, a 24ª edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), o maior evento de moda do País, começou na semana passada com os holofotes voltados para os desfiles das modelos e as criações dos mais renomados estilistas brasileiros. Mas, desta vez, as luzes também estavam direcionadas para um intenso movimento que está ocorrendo no mundo fashion e promete mudar radicalmente a feição desse mercado no País. Sem alarde num primeiro momento e com mais intensidade nas últimas semanas, grupos empresariais e fundos de investimentos estão arrematando algumas das mais badaladas grifes do setor de vestuário. A própria feira é palco dessa movimentação. No domingo 20, a holding InBrands, fruto de uma parceria entre Ellus e o banco UBS Pactual, apresenta, durante um desfile, exclusivamente para moda. Mas, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil, Abit, o faturamento no setor têxtil em 2007 atingiu US$ 34,6 bilhões, o que representa 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB). As exportações somaram US$ 2,4 bilhões. O Brasil aparece como o sexto maior produtor têxtil do mundo A consolidação de marcas no Brasil é um processo semelhante ao que ocorreu na Europa na década de 80, quando surgiram conglomerados como o LVMH (Louis Vuitton, Moët e Hennessy) e, posteriormente, a PPR (Pinault- Printemps-Redoute).
Por aqui, Paulo Borges, o criador da SPFW, identifica uma nova era para a moda brasileira com a profissionalização dos negócios e conseqüente atração de novos investidores. “O próximo passo será a internacionalização dessas marcas, o que já vinha sendo planejado pelos empreendedores”, diz ele. Até agora, as empresas do setor tinham em seu comando estilistas talentosos, mas pouco afeitos à gestão dos negócios. O desembarque dos fundos de investimento suprirá essa lacuna. O desafio será conciliar o mundo do pano e da tesoura com o universo das planilhas e dos relatórios. “Nossos estilistas são ótimos criadores, mas não se posicionam direito no mercado”, afirma Luciane Robic, diretora de marketing do Instituto Brasileiro de Moda (IBModa). Para ela, os grupos de investimento pagam menos pelas grifes, pois a ineficácia da gestão as desvaloriza.
Mas Vicente Mello, CEO da I’M, garante que essa desvalorização não ocorreu. “Nós agregamos valor a esses negócios”, afirma ele. Seus planos são ambiciosos. “Vamos aumentar o número de lojas e lançar e adquirir novas marcas até chegar, no mínimo, a 12 grifes, que consideramos um número razoável para gerir”, revela ele. A I’M também negocia a Siberian e a Crawford e há rumores no mercado que poderá ganhar um fundo estrangeiro como sócio.
“Os fundos de private equity desempenham papel importante na consolidação das marcas nacionais perante a concorrência.” Prova disso, afirma ele, é o crescimento de 38% registrado pela Zoomp desde a compra em 2006. A montagem do portfólio da I’M dá uma idéia do modelo de negócios dos fundos de investimentos. “As grifes apresentam sinergia entre si e são complementares. Além disso, o respeito ao estilo e à individualidade de cada marca será o fio condutor de todas as nossas ações”, resume Mello. Foi essa regra que norteou a empresa para a nova grife que levará a assinatura de Renato Kherlakian, o criador da Zoomp.

Ainda sem nome definido, ela atenderá o público masculino de alto poder aquisitivo. Sua primeira loja exclusiva, na capital paulista, abrirá as portas às vésperas do Dia dos Pais. Ao mesmo tempo, cerca de 50 pontos-de-venda multimarcas em todo o País receberão peças dessa coleção. “Em cinco anos, planejamos inaugurar 175 novas unidades, se a demanda justificar”, afirma Kherlakian. Só neste ano, a I’M desembolsará R$ 36 milhões para investir em todas as marcas. Desse total, R$ 14 milhões serão destinados à abertura de novas lojas e R$ 22 milhões, aplicados em marketing. Entre as inaugurações está prevista uma para Nova York, que ostentará uma placa com o nome Herchcovitch. “Com esses recursos financeiros, poderemos realizar muito mais em menos tempo”, ressalta Herchcovitch, que, além de diretor de criação de suas grifes e da Zoomp, atua como curador das marcas da I’M. A busca pela internacionalização é uma das marcas registradas que os fundos de investimentos vão imprimir às grifes sob sua gestão. A Fause Haten, outra das estrelas da constelação da I’M, também fincará sua bandeira no Exterior. No curto prazo, duas unidades serão inauguradas em shopping centers nacionais. “A aquisição permitirá que eu me dedique mais ainda à criação, pois eles cuidarão da gestão de minha marca”, diz Haten

Essa é uma preocupação permanente dos investidores. Eles não querem se livrar dos criadores, mas sim mantê-los dentro do grupo e aproveitar o profundo conhecimento que detêm. Foi um dos motivos que seduziram Nelson Alvarenga quando o UBS Pactual apareceu com uma proposta de compra de sua famosa grife, a Ellus. “Eu estava pensando em me aposentar, estava com duas propostas de venda, mas acabei me rendendo à oferta desses investidores”, conta ele. Alvarenga entrou com 100% dos ativos da Ellus, incluindo sua marca mais jovem, a 2nd Floor, e todas as lojas, que foram abrigadas na holding InBrands. Em contrapartida, o banco entrou com 50% do valor da marca, que não foi revelado. Hoje, Alvarenga detém 50% do capital da holding. Com 64 lojas exclusivas e venda para mais de 800 pontos multimarcas, o faturamento anual da InBrands bate em R$ 500 milhões. Seu projeto de expansão, porém, ainda não chegou ao final. Além da recém-adquirida Isabela Capeto, há negociações com outros estilistas. A previsão de investimento é de US$ 200 milhões. Ele não revela detalhes, embora tenha na ponta da língua os argumentos para convencê-los a fechar negócio. “Quem não se adequar à nova tendência corre o risco de não conseguir sobreviver.”
Enfim, é um mercado em ebulição – há gente querendo comprar e há gente disposta a vender. O que pode atrapalhar é a pouca profissionalização dessas grifes. “O mercado ainda é muito heterodoxo e há sonegação de impostos”, diz Glauco Abdalla, sócio da Galeazzi Associados, consultoria na área de gestão. “Mas, aos poucos, com a profissionalização, as empresas entenderão que a transparência é o primeiro passo para abrir seu capital, o que no fundo é o objetivo de todos os fundos de investimento.” De olho nessa agitação, a Galeazzi pretende até intermediar alguns negócios no setor e, depois, oferecer seus serviços de consultoria. “Estamos vislumbrando algumas possibilidades, mas ainda não podemos falar sobre elas”, diz Abdalla.
A abertura de capital foi o caminho escolhido pela Marisol para financiar a montagem de um dos maiores guardachuvas de marcas do País. Com ações em bolsa e gestão profissional há mais de 20 anos, a empresa adquiriu a Rosa Chá, em 2006. Seu foco? O mercado internacional, sempre disposto a consumir a chamada moda praia brasileira. Para isso, aproveitou uma das maiores vantagens de uma gestora de marcas, a sinergia. “Nossa linha infantil, composta por Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre, começou a dar passos internacionais, e percebemos que outras marcas poderiam aproveitar essa estrutura. Por isso, adquirimos a Rosa Chá”, explica o diretor de marketing da Marisol, Giuliano Donini. A empresa foi uma das pioneiras na adoção do conceito de gestão de marcas. O caso da Pakalolo é exemplar do que uma empresa especializada em moda pode fazer. A marca teve seu momento de glória entre os adolescentes na década de 80. Depois caiu no esquecimento. Adquirida pela Marisol em 2005 com números inexpressivos, ela faturou, em 2007, R$ 40 milhões. A perspectiva de crescimento encontra-se na casa dos 20%.
Há alguns mandamentos que devem ser respeitados para garantir o bom desempenho de uma gestora de marcas. Um deles é não atirar para todos os lados. Por exemplo, manter, sob o mesmo teto, marcas de apelo popular e grifes requintadas. Outro mandamento é otimizar os recursos. “Temos a preocupação de preservar a identidade de cada marca e usar a mesma estrutura logística e organizacional, o que reduz custos”, diz Alexandre Brett, presidente do grupo BR Labels, que abriga as marcas VRMenswear, Mandi, Calvin Klein e Calvin Klein Jeans. Vamos aos resultados dessa filosofia. A Mandi ampliou de três para nove o número de lojas. O faturamento apresentou crescimento de 80%. E a CK, em dois anos, abriu 20 lojas exclusivas em sete Estados, além de estar exposta em outros 400 pontos-de-venda.
Em meio a tantos gigantes do mercado financeiro, há espaço para grupos menores, como o P&S, com origem em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Fundado pelo pai, Antonino, o filho Rariton Pasquini e Hector Santos, em 1993, o grupo acaba de contratar a ex-estilista da Colcci Lila Colzani para lançar sua nova marca, a Stereo, voltada para um público ligado em moda. Até 2012, a marca quer estar presente em 300 pontos-de-venda. O P&S já é dono da Act, Vicinal e Zil. Responsáveis por uma produção anual de 1,2 milhão de peças, os empresários pretendem, até 2012, confeccionar três milhões de peças por ano e abastecer 3,3 mil lojas, contra as atuais 1,8 mil. “Queremos também gerir oito marcas Capa no futuro”, diz Hector Santos.
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A economia na PASSARELA "Os encontros nos ajudam a olhar além do que estamos vendo no momento", afirma Altair Assumpção (foto), superintendente do Banco Real. "Para uma instituição financeira, por exemplo, é difícil avaliar algo tão intangível quanto a criatividade de um estilista", completa, citando Bill Gates no início de carreira. Segundo ele, as discussões trazem bases sólidas até mesmo para traduzir em números um novo criador ou marca. Só assim, com a linguagem equalizada, será possível pensar em novos investimentos no uniFause Haten, verso fashion. |
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