DINHEIRO EM NÚMEROS
Nº edição: 537 | 16.JAN.08 - 10:00 | Atualizado em 22.05 - 03:26
Batom na bolsa
Ninguém as segura mais. Quase 25% das pessoas físicas que investem em ações são mulheres. Saiba por que esse número continuará a crescer
Por Por Ana Clara Costa

Laura Ferreira tem 73 anos. Nutricionista aposentada, ela divide seu tempo livre entre cuidar da casa no bairro da Tijuca, no Rio, cursar especialização em geriatria, na UERJ, e freqüentar aulas de natação. Assiste a muitos filmes e ainda é contadora de histórias para a terceira Idade. Mas sua movimentada agenda não pára por aí. Nos intervalos, acompanha atenta as cotações da bolsa de valores e manipula com desenvoltura as operações de compra e venda de ações no home broker. “É tudo muito instigante”, diz ela, encantada com a rapidez das operações via internet. Vida corrida e vontade de aprender são alguns dos pontos em comum entre Dona Laura e a maioria das 112,3 mil mulheres que investiram na Bolsa em 2007. Esse número, 134% maior que em 2006, representa hoje nada menos que 24,6% dos investidores pessoa física da Bovespa. Em 2002, não passavam de 15 mil CPFs. Enquanto a participação masculina cresce a ritmo mais lento, elas invadem sem medo os pregões. Não importa a idade, Estado ou profissão, elas provam a cada dia que bolsa de valores também é coisa de mulher. E você, está preparada para arriscar?
Se hoje a presença feminina no mercado financeiro é tímida se comparada à dos homens, em 1971, quando Dona Laura começou a investir, não era melhor. “Eu administrava as finanças em casa e comprei ações pouco antes da crise de 1973. Com o crash, parei, e só voltei a investir em 1996”, relembra. De lá pra cá, foi tirando todo o seu patrimônio da renda fixa e transferindo para a variável. Hoje, 50% ela investe na Bolsa e o restante em fundos mais arrojados. Fundos de ações, nem pensar. “Se for para correr risco, eu corro sozinha. Sei a hora de entrar e a hora de sair”, diz. A maioria de seus investimentos são em empresas blue-chips e a longo prazo. Há alguns meses, começou a fazer cursos de investimentos a curto prazo. E apesar das incertezas econômicas que rondam 2008, ela quer tentar. “Para quem já passou por cinco crises, essa é só mais uma. Não tenho medo. Sempre mantive minha posição mesmo na crise, e sempre recuperei tudo”, conta.

O perfil de Dona Laura, cauteloso mas também arrojado, alinha-se ao comportamento geral das mulheres que investem. É o que diz Ângela Barros, coordenadora do Mulheres em Ação, programa de incentivo à participação feminina na Bolsa desenvolvido pela Bovespa. “Elas querem rentabilidade. Demoram para decidir entrar, mas quando entram, são firmes e deixam boa parte rendendo a longo prazo”, explica Ângela. Outra característica é a maneira gradual de migrar seus recursos da renda fixa para a Bolsa. “Investem aos poucos e, conforme o resultado, vão concentrando os investimentos”, afirma Fábio Mariano, diretor da InSearch Tendências e Estudos de Mercado, que desenvolveu em 2007 a pesquisa A Mulher e os Produtos Financeiros.
Mas apesar de possuírem um cuidado maior, elas estão sujeitas aos mesmos erros que os homens. A empresária Kenia Toledo, de 38 anos, de Itapetininga (SP), que o diga. Há um ano e meio investindo, ela resolveu logo de cara aplicar no mercado de opções, a operação de maior risco da Bovespa. “Apesar de meu corretor ter me proibido, resolvi arriscar”, conta. Kenia chegou a vender um imóvel para começar a investir, e parte desse capital foi para opções. Em uma das apostas, perdeu boa fatia de seu dinheiro. “Fiquei deslumbrada com os ganhos que poderia alcançar”, relembra. Como não foi o caso, a empresária engoliu a perda, mas aprendeu a lição. “Opções, nunca mais. Agora só sigo os gráficos”, diz. Ao relembrar o melhor conselho de investimento que já recebeu, lamenta não tê-lo seguido. “Meu professor me disse: ‘Sempre opere mercado à vista. Com opções, você vai falir’.”
A dica não serviu para Kenia, mas pode ajudar investidoras novatas a não caírem no mesmo engano. Ao contrário do que se imagina, o número de investidoras com seus vinte e poucos anos não pára de crescer. Só na corretora Ágora, elas somam 1,2 mil atuando no home broker e representam 3,2% da base total de clientes. “São universitárias e recém-formadas que estão despertando para a Bolsa”, aponta Helio Pio, diretor comercial da Ágora. Essa onda jovem quebra o paradigma de que é necessário dispor de grandes quantias para começar a investir. Claudia de Lima, de 23 anos, começou a aplicar na Bolsa logo após se formar em nutrição. Incentivada por um de seus pacientes, comprou seu primeiro papel em janeiro de 2007. Escolheu Vale, mas conforme o mercado oscilava, passou a comprar e vender outros papéis. E de tanto negociar, acabou perdendo a rentabilidade de 90,8% alcançada pelas ações da mineradora em 2007. “Você aprende com os erros. Se eu não errar, nunca vou fazer direito”, conclui.

Para evitar micos no mercado, uma alternativa são os clubes de investimento exclusivos para investidoras. O Mulherinvest, criado pela consultora financeira Sandra Blanco, foi o primeiro. Com 105 investidoras, ele existe desde 2004, e até agora, sua rentabilidade acumulada é nada menos que 305%. As participantes, que no início investiam de R$ 100 a R$ 200, hoje alçam vôos mais altos. “As aplicações são mais robustas e muitas delas já abriram conta própria nas corretoras”, conta Sandra, que escreveu a história do clube no livro A Bolsa para Mulheres (Editora Campus Elsevier, R$ 39, 176 páginas).
Perfil da acionista
Veja como são as
mulheres que
invadiram a Bolsa*
FAIXA ETÁRIA
2% 15 a
18 anos de idade
6% 20 a 30 anos
17% 31 a 40 anos
31% 41 a 50 anos
44% + 50 anos
ESTADO CIVIL
48% casadas
32% divorciadas/
separadas
12% solteiras
8% viúvas/vivendo
com companheiro
PERFIL DO INVESTIMENTO
82% conservador
18% risco/arrojado
PRINCIPAIS RAZÕES PARA INVESTIR
52% garantir o futuro
27% aumentar
patrimônio pessoal
13% independência
do marido
6% poder administrar
as aplicações
3% outros motivos
*Amostra da pesquisa: 300 entrevistas com mulheres que investem na Bovespa.
Praças pesquisadas: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Brasília
Fonte: InSearch
Tendências e Estudos de Mercado




















