NEGÓCIOS
Nº edição: 537 | 16.JAN.08 - 10:00 | Atualizado em 23.03 - 09:10
O último show de Bill Gates
Depois de 33 anos, o fundador da Microsoft despede-se da empresa. E deixa de herança uma corporação de US$ 50 bilhões cercada de desafios por todos os lados
Por Por Adriana Nicacio, de Las Vegas

No domingo 6, Bill Gates subiu ao palco da Consumer Electronics Show (CES), em Las Vegas, e tocou uma Guitar Hero com o roqueiro Slash. Em vez de rock, o fundador da Microsoft poderia arriscar um blues clássico, daqueles que lamentam o lar deixado para trás e falam da estrada que vêem pela frente. Sim, porque o momento era de despedida. Na maior feira de eletrônica do mundo, Gates, 50 anos, anunciou que deixará a presidência do conselho de administração da empresa em seis meses. A partir desse momento, se dedicará integralmente à filantrópica Bill and Melinda Foundation e a investimentos na pesquisa de novos medicamentos. Nos últimos dois anos, Bill já anunciara sua intenção e preparou a companhia, os investidores, os parceiros e o mercado para isso. Mas a oficialização da aposentadoria tornou-se um momento emblemático do encerramento de uma jornada épica do mundo dos negócios. E isso só aumentou a expectativa por sua participação na CES. A fila para a sua palestra, marcada para as 18h30, começou a se formar antes das 15h. O cansaço desapareceu quando o nerd, de óculos retangulares, postura desengonçada e cabelo escovinha, começou a falar, com pouco atraso, no quinto andar do The Venetian Hotel. “Será no meio deste ano, em julho, que vou deixar de ser empregado em tempo integral da Microsoft para trabalhar em tempo integral na fundação”, anunciou Gates para um público emudecido pela expectativa. “Será a primeira vez, desde meus 17 anos, que não vou ter trabalho na Microsoft. Eu não tenho certeza de como será esse último dia. Pode ser estranho, vocês sabem.”

Por uma hora, Gates brincou com a sua situação de “desempregado”, falou sobre o início de uma segunda década digital, mas não fez nenhum balanço de gestão. Nem precisava. Gates revolucionou a indústria de software, mudou a forma de viver e de interagir das pessoas, das empresas e dos governos. Ele é indiscutivelmente um dos grandes empresários da história do capitalismo. Sua obra e a influência de sua atuação ombreiam (ou até superam) figuras lendárias como Henry Ford e John Rockefeller. O impacto não é apenas no setor onde cada um reinou absoluto – informática, automóvel e petróleo –, mas na vida como um todo. Ele desenhou a trajetória típica dos grandes empreendedores americanos. Começou como um jovem arrojado e visionário, criou um império empresarial e, em diversos momentos, utilizou a força econômica adquirida para sufocar concorrentes. Por fim, mais uma vez à semelhança de seus pares históricos, deixa o dia-a-dia dos negócios para se dedicar à filantropia. Em 33 anos, o homem sem diploma universitário construiu uma corporação com receitas superiores a US$ 50 bilhões e amealhou uma fortuna pessoal do mesmo tamanho, o que o colocou na posição de homem mais rico do planeta.

Talvez devido a essa busca por uma imagem mais simpática, Gates tenha preferido rir e fazer os outros rirem em seu show na CES. Apresentou um vídeo simulando a busca por um novo rumo. Camisa branca, faixa na cabeça, começa a malhar sob a supervisão do mais que malhado ator Matthew McConaughey. Minutos depois, quer saber: “Estou pronto para tirar a camisa?” Matthew sentencia: “Não”. Persistente, Gates liga para Bono Vox, vocalista do U2, pedindo uma vaga de guitarrista da banda – afinal já tinha acumulado bastante experiência jogando o Guitar Hero, no Xbox 360. Sem jeito, diante de uma apresentação de Gates, Bono diz que a banda está completa e, portanto, não há vagas. É rejeitado por Steven Spielberg. Liga para o âncora do The Daily Show, Jon Stewart, propondo parceria, mas não consegue. Lembra-se que este é um ano eleitoral nos EUA. Liga para os candidatos democratas à Presidência, Hillary Clinton – que, rindo sem parar, não quer lhe dar emprego – e Barack Obama – que não reconhece a voz de Gates. Desanimado, cabeça baixa, Gates arruma suas coisas dentro de uma caixa de papelão e a coloca no teto de um Ford Focus. Entra no carro e vai embora, esquecendo a caixa do teto. Tudo cai. O vídeo termina com o jornalista da NBC Brian William dando a notícia da saída de Gates. Ele se despede do homem que não gasta “mais de US$ 7 em um corte de cabelo”.
Gates deixa a Microsoft num momento em que a empresa se vê ameaçada por diversos concorrentes – uma situação recorrente em sua trajetória. No passado, Gates tentou e não conseguiu se firmar na área de softwares corporativos, dominada por gigantes como Oracle e Sun. Em games, não superou a Sony, dona do PlayStation, e a Nintendo. Hoje, as ameaças vêm do Google e da Apple, que recuperou o antigo glamour com o iPod e o iPhone. Há ainda a crescente adesão ao software livre. E a Microsoft se tornou um império porque sempre cobrou por seus softwares. Para enfrentar esses desafios, foram escolhidos Ray Ozzie e Craig Mundie, ambos na faixa dos 50 anos e com profundo conhecimento da empresa. Ozzie é atualmente arquiteto-chefe de software, na peculiar nomenclatura adotada pela empresa. Em 1994, fundou a Groove Networks, comprada em 2005 pela Microsoft. Um ano depois, Gates anunciou a intenção de se aposentar e passar o chapéu do desenvolvimento de software para Ozzie. A área de pesquisa e estratégia está hoje com Mundie. Braço direito de Gates, Mundie está na Microsoft desde 1992, quando começou como um operário na divisão de desenvolvimento de plataformas. Embora tenha preparado cuidadosamente sua aposentadoria, Gates deixará um vazio na empresa. “Ele representa o DNA da companhia, sabe identificar concorrentes e o que é preciso fazer para ser cada vez melhor”, diz Luiz Marcelo Moncau, diretor de marketing da Microsoft no Brasil.
O homem sem curso universitário se tornou o mais rico do mundo, com fortuna de US$ 50 bilhões
Mundie e Ozzie, ao lado de Steve Balmer, o todo-poderoso manda-chuva da área administrativa, herdarão uma empresa com uma longa lista de sucessos retumbantes e fracassos bissextos. Mesmo quando parece ter errado a mão, a Microsoft se sai bem. Poucas vezes um produto recebeu tantas críticas como o sistema operacional Windows Vista, lançado há cerca de um ano. Pois o software que “não roda direito”, na opinião dos internautas, vendeu mais de 100 milhões de cópias até agora – o fracasso mais bem-sucedido da história. No discurso na CES, Gates defendeu o Vista e afirmou que, como todos os produtos da Microsoft, este também será atualizado a partir das reclamações dos usuários. Para ele, a próxima década caminha para a sinergia total. “Não há nada que possa nos fazer voltar. Há mais de um bilhão de computadores no mundo e mais de 40% da população do planeta tem telefone celular”, avalia. E será justamente a conectividade que comandará a estratégia de competição. A indústria correrá atrás de inovações tecnológicas nas áreas de projeção e display de imagens, da união de multimídia e serviços, interfaces de toque, voz, movimentos e reconhecimento visual. Por fim, Roobie Bach, outro colaborador de confiança, anunciou uma série de parcerias, para mostrar que a Microsoft tem fôlego para manter sua trajetória competitiva. Entre elas, uma associações com pesos pesados como a NBC Universal, a British Telecom, a Disney e a Ford. Todo esse esforço não responde a uma dúvida: Gates realmente ficará longe da Microsoft ou, em algum momento, trilhará o caminho de volta, como fizeram outros empreendedores, a exemplo de Steve Jobs, Michael Dell e, esta semana, Howard Schultz, da Starbucks?
Multimídia
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lACACkVufWSkuA
em 03/01/2012 14:13:20
Good to see real expetirse on display. Your contribution is most welcome.
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