ECONOMIA

Nº edição: 640 | 13.JAN.10 - 10:00 | Atualizado em 17.06 - 12:42

A ponte que falta

As enchentes e os deslizamentos do final do ano expõem de forma trágica o nó para o crescimento do País: a fragilidade de sua logística

Por Hugo Cilo e Guilherme Queiroz

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Destruição e mortes: ponte em Agudo (RS) foi engolida pelo rio, matou cinco pessoas e deixou várias cidades isoladas

Nas últimas semanas, as regiões mais populosas e industrializadas do País pararam. Não por férias coletivas ou festas de Natal e Ano- Novo. Dezenas de cidades em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul foram castigadas pelas chuvas. Houve deslizamentos, queda de pontes, alagamentos e desmoronamentos. Estradas foram fechadas, portos operaram em ritmo lento, milhares de toneladas de mercadorias ficaram paradas em carretas pelas rodovias do Sudeste. Os prejuízos já superam R$ 1 bilhão.

As vias Dutra e Rio-Santos, que ligam São Paulo ao Rio de Janeiro - os dois principais polos econômicos do Brasil - tiveram parte das pistas engolidas pela erosão. O cenário de tragédia nas rodovias e em metrópoles como São Paulo só não superou as mais de 100 mortes em lugares como Angra dos Reis, no Rio, e Agudo, pequeno município gaúcho. No campo das empresas, os buracos abertos pela força do tempo e pela fragilidade da infraestrutura também causaram rombos ainda incalculáveis. "Nossa infraestrutura é frágil demais. Um país que pensa em crescer acima de 5% não pode ser refém das chuvas", diz o vice-presidente da Associação dos Exportadores do Brasil, José Augusto Castro.

Não poderia ser refém, mas é. Nos primeiros dias de 2010, uma longa fila de caminhões carregados de soja de Mato Grosso se formou próximo a Sorocaba, interior paulista, à espera de um sinal verde da transportadora para descarregar nos portos de Santos e São Sebastião. A ordem era aguardar o desbloqueio da Rodovia dos Tamoios, que liga a região de São José dos Campos ao litoral Norte, ou até que o sistema Anchieta-Imigrantes estivesse em condições de tráfego.

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A estrada virou rio: caminhões enfrentaram alagamento em Goytacazes (RJ). A BR-101 foi uma das dezenas de estradas que foram bloqueadas

A sobrecarga de veículos nas duas rodovias fez com que o trajeto entre São Paulo e Santos - que geralmente dura 45 minutos - levasse mais de quatro horas. "O atraso na entrega nos causou um prejuízo de R$ 320 mil. Não começamos bem o ano", reclamou Eloir Creutzberger, diretor da Jetlog Logística, de Cuiabá. Problema semelhante viveu a FRZ Autopeças, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Um contêiner carregado de componentes para automóveis, que embarcaria pelo Porto de São Sebastião para a Europa, ficou preso na via Dutra. "Entre locação de contêiner, custo do frete e do navio, perdemos mais de R$ 100 mil", contou o presidente da empresa, Gerson Ferrazini.

Os números mostram que o caos da infraestrutura rodoviária era uma tragédia anunciada. Em 1999, o País exportou 229 milhões de toneladas, principalmente commodities como minério de ferro e grãos. Em 2008, o volume subiu para 468 milhões de toneladas. Essa prosperidade do campo, no entanto, não foi acompanhada na mesma proporção pelos investimentos públicos e privados em manutenção de rodovias. Um estudo da Confederação Nacional do Transporte constatou que o ano que mais se investiu nesse segmento foi 1977, quando o governo desembolsou o equivalente a 1,82% do PIB no sistema viário.

O segundo período de maior investimento foi registrado em 2008, quando as rodovias receberam 0,22% do PIB. "Os recursos no modal rodoviário, que representam 60% de todo o transporte nacional, são irrisórios", garante o presidente da Seção de Transporte de Carga da CNT, Flávio Benatti. Para agravar o cenário, do 1,6 milhão de quilômetros de rodovias em todo o País, apenas cerca de 200 mil são pavimentadas - 12,5% do total. Um estudo da confederação percorreu 89,5 mil quilômetros e concluiu que 69% são classificadas como ruins ou péssimas. Pistas nessas condições aumentam o custo em 28%.

O caos não se explica apenas pela falta de dinheiro. Em 2009, dos quase R$ 7,7 bilhões disponíveis para obras viárias, em razão da burocracia apenas R$ 1,9 bilhão foi efetivamente aplicado. No entanto, a deterioração da infraestrutura viária brasileira vai muito além da falta ou da má utilização de recursos para manutenção.

A maior parte das rodovias está em encostas e áreas próximas a rios, fatores que aumentam os riscos de problemas em períodos de chuvas fortes. "As estradas foram construídas de forma errada. Cortaram a serra, moveram rochas e agrediram as encostas. Agora, os problemas tornaram-se inevitáveis", diz Benatti. Os inevitáveis problemas têm gerado cada vez mais perdas ao setor de logística. A diária de navio parado no porto custa, em média, US$ 100 mil, segundo levantamento da AEB. Nas estradas, o custo da diária de um caminhão estacionado é de R$ 350, afirma a CNT. O valor pode chegar a R$ 605 no caso de caminhões grandes.

O pagamento do prejuízo, ao que tudo indica, continuará mesmo após o fim das chuvas. Queda de pontes, arrastadas por enxurradas, e deslizamentos em acessos a grandes portos fazem com que caminhões recorram a desvios quilométricos para chegar ao destino. O Porto de São Sebastião, encravado no litoral norte, ilustra bem como a deterioração de rodovias pode levar um terminal ao isolamento. As rodovias dos Tamoios, Mogi-Bertioga e Rio- Santos, três principais acessos ao porto, sofreram danos com a chuva e interrupção no tráfego.

O diretor da Companhia Docas de São Sebastião, Sérgio Rodrigues, diz que não houve problemas até agora, mas afirma que a ampliação da capacidade do porto trará a necessidade de expansão da malha viária. "A movimentação de hoje pode ser duplicada sem sustos. Mas para multiplicar por quatro, de acordo com o plano de expansão, será preciso investir na ampliação da malha rodoviária", diz. Ou seja, para crescer, é preciso ter certeza de que as mercadorias podem chegar ao destino, mesmo quando chove.

 


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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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