NEGÓCIOS
Nº edição: 303 | 18.JUN.03 - 10:00 | Atualizado em 13.06 - 15:18
O NOVO BARÃO DO CAFÉ
A trajetória de Cleber Paiva, o empresário que devia US$ 60 milhões há sete anos e hoje é o maior exportador de café do País. No caixa, ele tem R$ 32 milhões para investimentos, que vão de condomínios industriais a uma escola de pilotagem de aviões
Por Por Joaquim Castanheira
Antes de começar a ler, volte rapidamente para a página anterior e observe o sujeito da foto. Seu nome é Cleber Marques de Paiva, e ele já pesou mais de cem quilos, 103 para ser mais preciso. Pois é, nada a ver com o homem de silhueta saudável e disposta, sentado descontraidamente em frente a seu jato particular, um Citation II de US$ 4 milhões. Sessões diárias de musculação e uma cuidadosa reeducação alimentar queimaram as gorduras e o levaram aos atuais 74 quilos. Mas houve outro fator decisivo para a redução do peso. Paiva era uma pessoa ansiosa, e a quantidade de comida em seu prato se avolumava na mesma medida em que os problemas profissionais cresciam. E há sete anos, problemas não faltavam para ele. Paiva e seu irmão mais velho, Otávio, estavam pendurados em bancos com uma dívida de US$ 60 milhões. Para sair do enrosco, contavam apenas com uma exportadora de café, desativada há um ano. “Precisávamos gerar receita para pagar a dívida, mas tínhamos que começar do zero”, recorda Paiva.
Desde então, a vida tornou-se mais leve para Paiva. As dívidas foram pagas e caíram para cerca de R$ 10 milhões. As vendas externas de café explodiram, e hoje a trading dos irmãos, a Exprinsul, é responsável por 12% de todo o café exportado pelo Brasil. Os Paiva aproveitaram a maré favorável e partiram para a expansão de seus negócios. Compraram duas fazendas, onde plantam dois milhões de pés de café. Também criaram a primeira estação alfandegada do País – uma espécie de zona franca, onde as empresas guardam suas mercadorias até que possam importá-las ou exportá-las. A cada ano, circulam por ali cerca de US$ 2 bilhões em produtos. Com isso, o faturamento do grupo atingiu US$ 150 milhões em 2002. Assim, Cleber recuperou o título de barão do café. “Temos excesso de liquidez”, comemora Cleber.
No caixa do Unecom, a holding dos Paiva, estão guardados em dinheiro vivo R$ 32 milhões para investimentos. A maior parte do dinheiro será direcionada para dois projetos. Um deles atende pelo nome pomposo de condomínio industrial alfandegado. Traduzindo: em uma área de 1,3 milhão de metros quadrados, colada ao aeroporto de Varginha, indústrias de diversos setores instalarão linhas de montagem. Elas poderão importar componentes e deixá-los guardados até o momento de utilizá-los. Enquanto isso, não precisam pagar o imposto de importação – caso a produção tenha como destino o mercado externo, estarão isentas de arcar com esse tributo. Mais de 100 companhias devem erguer seus galpões no local. Somados, os investimentos devem atingir R$ 500 milhões.
O segundo projeto acaba de sair do forno. Junto com outros 17 produtores da região, os Paiva criaram o Consórcio Agrícola de Fazendas Especializadas (Cafe). O objetivo do grupo é exportar o melhor café do sul de Minas para os mais exigentes mercados consumidores do mundo, os EUA, a Europa Ocidental e o Japão. O preço desse produto pode atingir três vezes a cotação média, hoje na casa dos US$ 50 a saca. Para se ter uma idéia do potencial: recentemente, a Exprinsul fechou um contrato com a rede americana Dunkin Donuts para a venda de 640 sacas. Cada uma rendeu mais de US$ 150. “Esses consumidores estão nas mãos dos produtores da Colômbia e da República Dominicana”, diz Vanúsia Nogueira, superintendente da Cafe. A montagem do Cafe consumiu dois anos de trabalho de Paiva. “Cada detalhe foi discutido exaustivamente”, conta ele. O receio de precipitação é uma herança do período de dificuldades que marcou a história dos Paiva em anos recentes. Até o final de 1994, o clã vivia confortavelmente instalado no mundo do café – trajetória iniciada pelo avô de Cleber, um trabalhador rural que comprou seu primeiro pedaço de terra ainda nos anos 50. Com o tempo, novos negócios foram sendo incorporados pela família, além das fazendas em Varginha e arredores: uma torrefação de café, Café Bom Dia, e uma exportadora. As coisas caminhavam tão bem que o pai de Cleber, Adauto, deixou tudo nas mãos dos filhos e foi viver em sua ilha no litoral do Rio de Janeiro. Cerveja demais. Veio o Plano Real e, com ele, uma tremenda oportunidade. As alíquotas de importação de cerveja caíram para 2%. Melhor, faltava produto nos bares e supermercados. A família importou 2,2 mil contêineres de cerveja dinamarquesa Fax. Antes de colocar uma lata sequer dentro do País, o governo mudou de idéia, e a alíquota foi elevada para 70%. Nos galpões e pátios de suas empresas, os Paiva estocaram o equivalente a US$ 70 milhões de louras. “Não dava para beber tudo”, brinca Otávio. “Fomos obrigados a vender por preços baixíssimos.” Sem dinheiro, foram buscar socorro nos bancos. Fim da linha: em um ano, o grupo entrou em concordata, sufocado por dívidas de US$ 100 milhões. Adauto, o pai, interrompeu o retiro na ilha e retornou. Enquanto tentavam superar as dificuldades, a família decidiu dividir o grupo. Cleber e um dos irmãos, Otávio, ficaram com a exportadora e o maior pedaço da dívida, Mesmo assim, faltava dinheiro. Foi quando apareceu José Geraldo Gurgel. Veterano executivo da área financeira, Gurgel, hoje com 56 anos, trabalhara durante 25 anos no BFB, o braço brasileiro do francês Crédit Lyonnais. Depois de quatro anos em Paris, ele chegou à presidência da filial brasileira, onde estava quando o banco foi vendido ao Itaú. Com essa experiência debaixo do braço, Gurgel sentou-se com cada banco credor da Unecom e renegociou prazos e valores da dívida. De um deles, o Unibanco, arrancou US$ 10 milhões para capital de giro. A situação estava quase sob controle, mas os irmãos Paiva contaram com uma ajuda com a qual não esperavam – uma ajuda e tanto. O preço da saca de café no mercado internacional bateu em inacreditáveis US$ 300. A desvalorização do real, em 1999, terminou o trabalho de recuperação do grupo. Hoje, as dívidas somam R$ 10 milhões. Gurgel foi bem recompensado. No redesenho dos negócios, levou 15% de participação acionária. O restante é dividido entre Otávio e Cleber. Gurgel também foi responsável pela mudança no estilo de vida dos dois irmãos. No primeiro dia de trabalho, ao meio-dia, ele levantou-se e disse: “Vamos almoçar”. Cleber sugeriu que eles pedissem sanduíches e continuassem trabalhando. “Esses dias na empresa acabaram”, disse Gurgel. Desde então, o ambiente na empresa se transformou. As luzes nos escritórios da Unecom apagam-se às 18 horas, religiosamente. Uma sala de ginástica, pequena mas bem aparelhada, foi instalada ao lado das salas de Cleber e Otávio. Todos os dias, antes de dar início à jornada, os dois malham durante uma hora. Os funcionários não podem vender suas férias, devem aproveitá-las. O exemplo, nesse caso, vem de cima. Todos os anos, em julho, Cleber, a mulher e o trio de filhos embarcam no Citation II e vão esquiar no Chile. Cleber aproveita essas ocasiões para praticar seu passatempo predileto: pilotar aviões. Além do Citation, ele possui mais duas aeronaves. Empresário, vai transformar a pequena frota no embrião de uma escola de pilotagem. Otávio é mais pé no chão – chão selvagem, diga-se. Campeão brasileiro de enduro eqüestre, mantém uma fazenda onde cria
US$ 60 milhões. Começou, então, a operação salvamento. Uma transportadora, com 243 veículos, foi passada adiante. O mesmo destino estava reservado a cinco fazendas de gado. Um dos aviões de Cleber também foi vendido.
cavalos próprios para essa competição. “Em certas provas, já conquistei os três prêmios possíveis: melhor cavaleiro, melhor
criador e proprietário do cavalo campeão”, gaba-se ele. Mesmo
assim, os dois irmãos não gostam de falar em boa fase. “Com o café a US$ 50?”, queixa-se Cleber, só para confirmar a origem mineira e reafirmar o título de barão do café.
Multimídia
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