NEGÓCIOS
Nº edição: 648 | Negócios | 05.MAR.10 - 16:00 | Atualizado em 20.05 - 15:11
A pequena grande aposta da Audi
O novo compacto A1 pode pôr a montadora no caminho da liderança do mercado premium tanto no exterior como no Brasil
Por Henrique Flávio Neves, de Genebra
O nome é pequeno: tem apenas uma letra e um número. Suas dimensões idem: 3,95 m de comprimento, 1,74 m de largura e 1,42 m de altura. A motorização não passa de 1.4 litro. Pois é com esses números, quase todos no diminutivo, que a Audi quer ficar grande e se tornar líder mundial no segmento premium.

A apresentação do a1 em Genebra: a montadora destinou 100 milhões de euros à fabricação do modelo
O segredo apresentado na terça-feira 2, no Salão de Genebra, na Suíça, atende pelo nome de A1 e foi revelado, em grande estilo, com a presença do ator e cantor americano Justin Timberlake, um ícone pop entre os jovens. O carro será fabricado em Bruxelas, na Bélgica, onde a Audi investiu mais de 100 milhões de euros na modernização e adaptação de sua linha de produção.
“Nenhum outro carro de entrada, dentre todas as outras montadoras, possui tantos itens de sofisticação, conforto e qualidade quanto o A1”, disse o presidente mundial da marca alemã, Ruper Stadler, já indicando que o carro é pequeno, mas está longe de ser um popular. E é com essas credenciais que a Audi do Brasil quer fazer do modelo o seu grande produto no País. Previsto para desembarcar em solo nacional no primeiro trimestre de 2011, o A1 custará a partir de R$ 90 mil e já é visto como o novo divisor de águas na história da montadora alemã. “Apostamos muito nesse carro”, disse à DINHEIRO Paulo Sergio Kakinoff, presidente da Audi no Brasil.

Kakinoff, da Audi do Brasil: "Crescemos 60% nos dois primeiros meses de 2010. Estamos vendendo tanto que não tenho estoque"
A lista de itens de série e opcionais mostra que a marca buscou o que há de mais exclusivo quando resolveu desenvolver o A1. São dois tipos de acabamento: um mais luxuoso e outro mais esportivo. Os faróis são em led, há airbags para todo lado, tela de LCD de 6,5 polegadas, GPS e som com 14 alto-falantes.
Apesar de todos esses equipamentos, a Audi não pode se dar o luxo de comemorar antes do produto entrar, de fato, no mercado. A montadora mostra o A1 ainda rodeada pela assombração do fracassado A2, que teve apenas seis anos de vida útil. O design não agradou ao consumidor e o alto custo de manutenção teria inviabilizado o projeto.
O que todos se perguntam no mercado é se essa nova tentativa dará certo. “Claro que sim”, diz à DINHEIRO o vice-presidente mundial da Audi AG, Peter Schwarzenbauer, num tom firme. Ele nem pode pensar o contrário. A Audi precisa de um modelo para disputar o mercado já ocupado pelo Mini Cooper, da BMW, e pelo Smart, da Mercedes.
Se conseguir emplacar esse modelo, a montadora dará um passo decisivo para se tornar a maior do segmento premium no mundo, ultrapassando Mercedes-Benz e BMW. Na Europa, pela primeira vez em 100 anos, a empresa já conseguiu desbancar as rivais no número de vendas em 2009. Mas, quando se computam as vendas mundiais, ela cai para o terceiro lugar.
No Brasil, a situação é a mesma. A diferença é que, por aqui, a Audi chegou a liderar e perdeu muito mercado desde que a família Senna vendeu a operação, em fevereiro de 2005, e a subsidiária passou a ser administrada pela matriz. Isso aconteceu devido a uma série de erros estratégicos e de gestão.
Previsto para chegar ao brasil no primeiro trimestre de 2011, o a1 deverá custar a partir de R$ 90 mil
Primeiro, a produção do A3 nacional, na fábrica da Volkswagen, no Paraná, foi encerrada abruptamente – o que desencadeou processos de concessionários que reclamavam da perda da lucratividade. Em pouco tempo, a empresa perdeu mais da metade da sua rede, que ficou sem cobertura territorial adequada. Os executivos escolhidos para pilotar a companhia também careciam de qualidades cruciais para o cargo: um não entendia de luxo e o outro não conhecia o mercado brasileiro. Com isso, casos de trapalhadas entraram para o histórico interno da marca.
Carros foram importados sem a configuração adequada e encalharam nas lojas. Depois, um lote de A6 foi simplesmente esquecido no porto de Paranaguá. Quando alguém se lembrou deles, já estavam defasados, em ano e modelo e os veículos tiveram de ser oferecidos a preço de banana para os concessionários. Mas nada disso superou a decisão da Audi de não participar do Salão do Automóvel de São Paulo de 2008 e fazer a sua própria mostra um mês antes do acontecimento da indústria automobilística. Foi um desastre total. Enquanto o Salão do Automóvel de São Paulo levou mais de meio milhão de pessoas para o Pavilhão do Anhembi, alguns poucos convidados apareceram para ver a mostra de 15 anos da marca, instalada no subsolo do prédio da Bienal do Ibirapuera, em São Paulo.
Nessa ocasião, a Audi ficou sem presidente por um período de seis meses e alguns executivos do board defendiam a saída da marca do País. Em 2009, entretanto, os alemães optaram por uma solução caseira e nomearam Paulo Sergio Kakinoff, que fez carreira na área de vendas e marketing da Volkswagen do Brasil, como presidente da marca no País.
Na época, Kakinoff cuidava do marketing do grupo Volkswagen na América Latina. Para prestigiar o novo presidente e mostrar que a marca investiria no Brasil, ele foi apresentado em São Paulo pelo vice-presidente mundial de vendas e marketing da matriz, Peter Schwarzenbauer.
Começava aí uma nova era para a Audi no País. Kakinoff deu um choque de gestão na empresa. Todos os dias, ele chega cedo ao escritório e só sai depois de dez horas de trabalho. Não raro, ele desembarca de manhã para uma reunião na Alemanha e à noite já pega o voo de volta ao Brasil. “O Kakinoff é um rolo compressor. Quem não o acompanha é atropelado”, diz um ex-funcionário da Audi que não suportou a pressão.
Há alguns meses, em uma reunião com seus subordinados diretos foi questionado por não saber priorizar os problemas da empresa. A resposta dele foi direta: “A Audi está como um paciente que acaba de chegar ao hospital depois de um atropelamento. Tem traumatismo craniano, os rins estão perfurados e o coração está falhando.
Se o médico decidir priorizar alguma parte, o paciente morre”, disse Kakinoff, segundo relato de uma das pessoas presentes na sala. E, assim, a Audi voltou a ter um norte. Depois de crescer 42% em 2009, a empresa já marca um crescimento de 60% nos dois primeiros meses de 2010. Para se ter uma ideia, o estoque de carros, que geralmente fica na casa das 300 unidades, conta com apenas três. “Não foi falta de planejamento”, diz Kakinoff.

"2015: será o ano da Audi"
ENTREVISTA
“Vendemos muito e, se tivéssemos mais estoque, venderíamos tudo.” Agora, o maior desafio de Kakinoff é fazer o A1 se transformar no sonho de consumo da classe média alta brasileira. O paciente já saiu da UTI e já voltou a competir. Só o tempo dirá se os curativos foram benfeitos.
Quem diz isso é Peter Schwarzenbauer, vice-presidente mundial de vendas e marketing da Audi. Nesta entrevista exclusiva concedida à DINHEIRO, ele fala de A1, de mercado mundial e do Brasil. Acompanhe:
DINHEIRO – Como o sr. vê o A1?
Era o carro que faltava em nosso portfólio. Tenho certeza de que será um grande sucesso.
DINHEIRO – A Audi fechou o ano na liderança do mercado premium na Europa. Como fazer para se tornar líder global?
A resposta está bem atrás de nós (aponta para o A1). Esse carro vai marcar um crescimento ainda maior nas vendas em todo o mundo.
DINHEIRO – E quando seria isso?
Em 2015.
DINHEIRO – E quanto ao Brasil?
Em alguns mercados, nós alcançaremos essa liderança antes. Mas no Brasil, segundo nossas projeções e os nossos esforços, é para que sejamos líderes já em 2015, junto com a estratégia global.
DINHEIRO – No próximo mês, o presidente da Audi completa um ano no cargo. Qual a avaliação que o sr. faz do trabalho de Paulo Kakinoff?
Excelente. Ele vem desempenhando um papel fundamental na nossa operação brasileira. Tenho certeza de que vai alcançar os objetivos traçados para o Brasil.
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