ECONOMIA

Nº edição: 648 | Economia | 05.MAR.10 - 16:00 | Atualizado em 14.03 - 11:16

Ela fala, ele não escuta. E vice-versa

Hillary Clinton veio ao Brasil buscando apoio do chanceler Celso Amorim para sanções econômicas contra o Irã. Perdeu seu tempo

Por Denize Bacoccina


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Hillary e a sombra de Celso Amorim: nela avalia que o Brasil está sendo iludido pelo Irã,
mas o mais provável é que os EUA sejam iludidos pelo Brasil

Foi uma conversa de surdos. Ao final, os dois interlocutores concordaram que querem chegar ao mesmo destino. Mas discordam sobre o caminho, o que impede que viajem juntos. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, não conseguiu convencer o chanceler Celso Amorim de que o Brasil deve apoiar as sanções econômicas contra o Irã enquanto o país não parar com seu programa nuclear, que tem como objetivo – não declarado, é óbvio – a produção de armas atômicas.

A naturalidade com que a pressão exercida por Hillary foi desprezada pelo Brasil revela duas coisas. A primeira é que, no mundo multipolar que emerge da crise global, é evidente o enfraquecimento da diplomacia americana. A segunda é o desejo do Brasil de reafirmar sua soberania sobre seu próprio programa nuclear. “Não é prudente encostar o Irã na parede”, cutucou o presidente Lula. Amorim disse ainda que o Irã não se curvaria a pressões.

O mesmo discurso poderia ser usado em benefício próprio. Hillary insinuou que o Brasil é ingênuo na questão iraniana. Mas, como no mundo diplomático não existe ingenuidade, o mais plausível é que o Brasil esteja se aproximando de Teerã para justificar suas próprias ambições atômicas – não custa lembrar que, recentemente, o País fechou um acordo de R$ 20 bilhões com a França para produzir submarinos nucleares.

E uma parcela significativa do governo lamenta a proibição expressa na Constituição de 1988 de produção da bomba. “A arma nuclear, como instrumento dissuatório, é de grande importância”, disse o vice-presidente José de Alencar. O centro deste pensamento está na Secretaria de Assuntos Estratégicos, que hoje tem como titular o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães, ex-secretário-geral do Itamaraty. Ele defende que o Brasil domine todo o ciclo tecnológico de enriquecimento de urânio e conta com a simpatia de boa parte dos militares, do Itamaraty e do assessor para Assuntos Internacionais do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia.

Outro sinal da resistência do Itamaraty às pressões americanas é a recusa do Brasil em assinar o protocolo adicional do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) – o governo considera o documento restritivo à sua soberania. Lula concordou em participar da reunião de cúpula sobre segurança nuclear convocada pelo presidente americano Barack Obama, em maio, para discutir a revisão do TNP.

Mas a posição brasileira não deve mudar. O governo argumenta que o TNP não cumpriu seu objetivo, de desativação dos arsenais nucleares existentes, nem desencorajou novos países a seguir este caminho – como mostra o exemplo da Coreia do Norte, da Índia e do Paquistão.  O próximo da fila é o Irã. E o custo estimado de uma bomba é de US$ 5 bilhões.
 

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Rumo à bomba: o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, vistoria planta de enriquecimento
de urânio, que pode tornar seu país apto a produzir armas atômicas


Ao lado de Hillary Clinton, Amorim reafirmou a independência brasileira ao ser questionado porque não seguia “o consenso” internacional sobre a necessidade de isolar o Irã. “Cada um tem que pensar com sua própria cabeça”, afirmou o ministro das Relações Exteriores. No discurso oficial, as duas cabeças, a brasileira e a americana, concordam que é preciso garantir que o Irã não transforme o programa nuclear para geração de energia, como afirma, numa nova bomba atômica.

A discordância é que o Brasil acha que é preciso continuar negociando, enquanto os EUA defendem punições comerciais. “Só depois que aprovarmos sanções no Conselho de Segurança da ONU é que o Irã negociará de boa-fé”, afirmou Hillary, em Brasília. Amorim deixou a porta aberta para uma mudança, ao afirmar que o Brasil, que ocupa um assento temporário no Conselho, ainda não declarou seu voto.

No mesmo dia da declaração de Amorim, já circulava na ONU um esboço de uma resolução condenando e impondo sanções ao Irã. O novo documento proíbe a venda de armas, envio de algumas mercadorias e as transações bancárias, mas não inclui o setor de petróleo. Entre os integrantes do Conselho, a Rússia já mudou de lado e já apoia os americanos. A posição contrária só é adotada pela China, Brasil, Turquia e Líbano.
 
Na avaliação do Itamaraty, isolar o Irã é o pior caminho para a solução do problema, já que o presidente Mahmoud Ahmadinejad pode ganhar um argumento contra o “inimigo externo”. “As sanções servem para aglutinação dos radicais”, disse à DINHEIRO o subsecretário-geral do Itamaraty para Assuntos Políticos, Roberto Jaguaribe.

Para reafirmar uma postura independente, Lula confirmou que irá ao Irã em maio, depois de visitar Israel e os territórios palestinos ainda este mês. Para Andrés Oppenheimer, mais importante especialista em América Latina da imprensa americana, a ligação do Brasil com o Irã está sabotando os esforços da comunidade internacional em pressionar o país a abandonar seu programa nuclear. “O Brasil está agindo como um novato, buscando atenção do mundo a qualquer custo”, escreveu Oppenheimer. “E talvez tenha ambições nucleares secretas.”

Além do Irã, a visita de Hillary foi pontuada por outras divergências com o Brasil, como as retaliações comerciais que serão divulgadas na segunda-feira 8. Os dois países também “concordaram em discordar” sobre Honduras. O Brasil manteve sua posição de não normalizar as relações com o país, apesar das eleições já realizadas. “A posição do Itamaraty durante a visita de Hillary foi coerente com a atual política externa”, disse o ex-embaixador nos Estados Unidos, Rubens Barbosa. “Não que eu concorde com ela.”

 


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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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  • Diomar Franco da Rocha

    em 14/03/2010 11:16:05

    Ínsuficiente: Trezentos caracteres é muito pouco para que o povo leitor, opina sobre o que pensa e digita o que escreve, para justificar perguntas e dúvidas a ser analisadas e classificadas pela impremssa. Com mais espaço, o ambiente se torna ainda mais qualificado, aperfeiçoado e complementado.

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