FINANÇAS
Nº edição: 255 | 24.JUL.02 - 10:00 | Atualizado em 07.01 - 09:39
FUSÃO: O MELHOR REMÉDIO
Compra da Pharmacia pela Pfizer revela que união de empresas é única saída para um setor que exige investimentos bilionários
Por Juliana Simão
Uma megafusão agitou as bolsas de todo o mundo na última semana. Na segunda-feira 15, o laboratório norte-americano Pfizer anunciou a compra de sua concorrente Pharmacia, por US$ 60 bilhões. Pelo contrato, os acionistas da empresa comprada receberão 1,4 ação da Pfizer de cada ação que possuírem. A medida foi uma injeção de ânimo nos investidores abatidos pela seqüência de escândalos contábeis – em apenas um dia, as ações da Pharmacia subiram 38%. A operação ainda não foi referendada pelos acionistas e está sujeita aos órgãos regulatórios americanos. Mas dela surgirá uma superpotência do mundo dos negócios, o
maior fabricante de medicamentos do planeta, um conglomerado
com US$ 49 bilhões de faturamento anual.
O mais impressionante, contudo, é que a fusão não é um fato isolado. “O setor farmacêutico está em processo de concentração”, avalia Fabio Kenji Ota, consultor da Ernst&Young. “Todas as últimas aquisições foram de companhias com problemas de caixa e poucas inovações na linha de produtos.” Há uma espécie de epidemia devastando o setor farmacêutico. As multinacionais estão convalescendo com o fim das patentes de medicamentos tradicionais, a invasão dos genéricos e a falta de blockbusters – drogas que revolucionam o mercado e vendem mais de US$ 1 bilhão por ano. O diagnóstico: as empresas não conseguem mais crescer a um ritmo vertiginoso de dois dígitos com os quais os investidores já estavam acostumados. O remédio: uma onda de fusões e aquisições vai transformar a indústria nesta década. O primeiro passo nessa direção foi dado pela Pfizer. O próximo poderá ocorrer em breve. Há alguns meses, a maior companhia farmacêutica européia e a segunda no mundo, a GlaxoSmithKline, vem namorando firme a Bristol-Myers Squib. O casamento é tido como certo. Os próximos alvos para aquisições podem ser a Novartis, Roche e Schering-Plough.
Analgésico de US$ 3 bi. A cada contrato de compra e
venda assinado, novas fusões se tornam inevitáveis. Afinal, como enfrentar gigantes como a Pfizer-Pharmacia? Juntas, elas somam US$ 49 bilhões de faturamento, US$ 9,3 bilhões de lucro líquido e US$ 7,1 bilhões de investimento em pesquisa. Seu portfólio de produtos possui 12 blockbusters. A participação no mercado
mundial de medicamentos, estimado em US$ 300 bilhões, atinge 11%, graças à venda de drogas poderosas como Lipitor (colesterol), Viagra (impotência sexual) e Zoloft (depressão). “A fusão combina duas das empresas que apresentaram maior crescimento na indústria farmacêutica”, anunciou o presidente da Pfizer, Hank McKinnell,
logo após selar o acordo com a Pharmacia, presidida por Fred Hassan. “Nossa capacidade de descobrir e desenvolver novos medicamentos foi multiplicada.”
O principal atrativo da Pharmacia – uma empresa constituída em 2000, pelo braço farmacêutico da Monsanto (Searle) com a Pharmacia & Upjohn – pode ser resumido em duas palavras: Celebra e Bextra, a linha de analgésicos e antiinflamatórios de última geração mais prescrita no mundo. Juntos, eles contribuíram com mais de US$ 6 bilhões em 2001 – ou cerca de 50% do faturamento total da Pharmacia. Para a Pfizer, a compra significa uma profunda mudança de perfil. Ela deixa de ser um tradicional laboratório farmacêutico, de origem química, e entra na nova geração de empresas do setor, que desenvolverão suas drogas com o auxílio da bioquímica e da genética. “As grandes inovações do setor estão surgindo de empresas com pesquisas em biotecnologia, como a Pharmacia”, explica Marcos Macedo, da AT Kearney.
É uma tendência que a Pfizer descobriu há alguns anos. Hoje, sua rede de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos engloba mais de 100 pequenos e médios laboratórios. Mas o papel da Pfizer é essencial: ela conseguiu tirar essas descobertas de tubos de ensaio e transformá-los em recordes de vendas nas farmácias. Para os pequenos laboratórios, a parceria também é uma questão de sobrevivência. O custo de lançamento de um novo medicamento é assustador – não menos de US$ 800 milhões. Com a mais recente fusão, com a Pharmacia, a Pfizer ganhou proporções olímpicas. Nove de seus produtos são líderes de vendas em suas categorias. Há mais 120 drogas sendo estudadas e mais 20 lançamentos previstos para os próximos cinco anos. Só isso explica como a empresa conseguiu saltar de uma pífia 14ª colocação no ranking mundial em 1990 para chegar ao topo do pódio. Ao que tudo indica, diferentemente das pílulas que fabrica, a fórmula secreta da Pfizer para fazer dinheiro não tem data de validade.
A próxima vítima?
O laboratório Bristol-Myers Squib colecionou uma série de problemas nos últimos anos. Sua linha de produtos era considerada pouco inovadora. Uma droga promissora contra o câncer foi barrada pela FDA, órgão que regula medicamentos nos EUA. E a patente do medicamento Capoten, responsável por grande parte de seu faturamento, caducou. Como se não bastasse, a empresa está agora encrencada com a SEC, a CVM americana. A investigação remonta a abril, quando a própria companhia informou à Justiça que havia vendido muito. O problema? Não havia demanda e o estoque ficou parado nos distribuidores. A dúvida é se a Bristol, de alguma forma, forçou a compra. Esse movimento inflou o faturamento em US$ 1 bilhão. “Foi um erro estratégico, e não má-fé. As distribuidoras foram otimistas demais”, explica Mario Grieco, presidente da Bristol no Brasil. Após o escândalo, o vice-presidente da companhia e o diretor financeiro foram demitidos. E a Bristol perdeu um terço do seu valor de mercado. Alguém duvida que ela esteja a um passo da venda?





















