Negócios

A mística por trás do lucro

Ao perder a fortuna, o empresário Jota Moreira deixou de ser presunçoso e abriu um novo negócio. Hoje, promove a espiritualidade da equipe

Crédito: Edson Ruiz

Iluminação: o dono do grupo CBBS mudou a sua relação com o dinheiro e os negócios depois de falir (Crédito: Edson Ruiz)

No começo de março, os 35 funcionários do grupo CBBS, que atua no mercado de cartões de benefícios, como tíquetes de alimentação do trabalhador e vale transporte, tiveram os olhos vendados na sede da empresa em Salvador, para serem conduzidos a um lugar surpresa. Quando perceberam, estavam numa reserva indígena. Mais precisamente na Thá-Fene, que congrega diversas tribos nos arredores da capital baiana. Durante todo o dia, praticaram arco e flecha, sobrevivência na selva, meditação e música indígena, e adquiram conhecimentos do pajé da reserva. O dia especial não é tão surpreendente dentro do CBBC, montado há cinco anos pelo economista e engenheiro químico Josival Moreira, que costuma ser chamado de Jota Moreira.

Desde o início deste ano, mensalmente, todo dia 7, a empresa fecha as portas e todos partem para alguma experiência ligada a espiritualidade e autoconhecimento. Já conversaram com o padre reitor da Igreja Nosso Senhor do Bonfim, que falou sobre as lições do cristianismo. Receberam uma palestra de um psicanalista, que explicou um pouco sobre os segredos da mente, como o que são os transes e a hipnose. Tiveram uma experiência no candomblé, para entender toda a estrutura e a operação diária de um terreiro da religião de origem africana. Tudo isso é fruto da filosofia de Moreira, que pretende dar um propósito maior a sua empresa. “O empresário é visto como o grande vilão, um explorador, que busca tirar o máximo, compra políticos e corrompe a sociedade”, diz. “Queria ganhar dinheiro, melhorando a qualidade de vida das pessoas.” O objetivo final é contribuir, aos poucos, para um mundo melhor.

No CBBS, cada funcionário assume o compromisso de envolver 12 pessoas a fazer o bem. Para garantir a adesão, percebeu que deveria começar tratando bem os seus empregados. Inspirado no Butão, o país no Himalaia que gosta de alardear que mede o seu sucesso como país pela alegria de sua população, a empresa instituiu um índice de felicidade de clientes e funcionários como a meta principal. O primeiro passo para isso foi remunerar bem a equipe interna. “Decidimos pagar entre 20% e 30% da média do mercado”, diz. A estratégia tem funcionado. Segundo ele, o faturamento tem dobrado a cada ano. Em 2015, foi de R$ 12 milhões. No ano seguinte, chegou a R$ 26 milhões. E, até junho deste ano, bateu nos R$ 22 milhões.

Todo o conceito só nasceu por conta do fracasso da empresa anterior de Moreira, a Express Vales Serviços & Benefícios. “A vida empresarial não é fácil, com sucessos e insucessos. Fui presunçoso e me tornei uma pessoa pernóstica. Achava ser um novo Rei Midas, e acabei indo para o fundo do poço”, diz. “Passei de um quase bilionário, para não ter nada. De cinco carros na garagem para andar de ônibus.” O fracasso causou uma transformação em sua vida. “Em certo momento, fomos muito ousados, e quebramos feio, perdendo todo o patrimônio”, afirma. “Mas falir foi a melhor coisa que me aconteceu. Sou uma pessoa muito melhor hoje.” Foi quando começou a se aproximar das diferentes formas de espiritualidade. Até o fim do ano, novas experiências serão sendo preparadas para os funcionários da CBBS. Mas Moreira não revela quais serão porque precisa manter o mistério. Uma palavra que, de fato, entrou para o vocabulário de sua companhia.