Investidores

A mística do câmbio

Conheça os gestores que diversificam sua estratégia, apostando em moedas que não têm nenhuma relação com o real

Crédito: Claudio Gatti

Domiciano, da SmartQuant: sofisticados modelos matemáticos e meditação para lucrar com dólares australianos e liras turcas (Crédito: Claudio Gatti)

Em 2016, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil foi de US$ 1,8 trilhão. É muito dinheiro, sob qualquer métrica. No entanto, essa cifra equivale a pouco mais de um terço do movimento diário no mercado internacional de câmbio. Conhecido como Forex, o negócio de comprar e vender moedas de diferentes países movimentou, em média, US$ 5,1 trilhões por dia no ano passado, segundo o Banco de Compensações Internacionais, o BIS. Maior, mais líquido e mais sofisticado dos mercados, o Forex tem sido, até agora, algo desconhecido para a grande maioria dos investidores brasileiros.

No entanto, isso está mudando. Antes restritos a tesourarias de bancos de investimento e a gestores muito sofisticados, investimentos em moedas além do dólar estão se popularizando. Empresas como a seguradora Sul América, ou a administradora de recursos independente SmartQuant, já operam fundos acessíveis aos investidores individuais. A pouca representatividade desses fundos explica-se porque a economia brasileira é fechada, o que reduz os negócios com moedas mais exóticas, e inibe o surgimento de produtos financeiros relacionados a elas.

Operador de câmbio: mercado de moedas gira US$ 5,1 trilhões por dia, e vem tornando-se acessível ao pequeno investidor brasileiro (Crédito:AFP PHOTO / JUNG Yeon-Je)

“No Brasil, os negócios com câmbio se concentram, principalmente, nas transações envolvendo reais e dólares, devido à pouca internacionalização da economia”, diz o professor de finanças William Eid Júnior, da Fundação Getulio Vargas. “Mesmo negócios com o euro e o renminbi, a moeda chinesa, são restritos, apesar de Europa e China serem parceiros comerciais importantes do Brasil.” Porém, apesar de a economia continuar fechada, alguns gestores já se arriscam a especular com outras moedas. “É uma boa maneira de investir em ativos que não estão vinculados aos altos e baixos do mercado brasileiro, diversificando o risco”, diz o gestor Antonio Domiciano, sócio fundador da gestora SmartQuant.

Ainda concentrada em um só fundo, o SmartQuant Hiprob, a gestora de Domiciano usa complexos modelos matemáticos para especular com ativos ao redor do mundo, entre eles, o dólar australiano. Neste ano, até a quinta-feira 10, o Hiprob acumula uma rentabilidade de 12,84%, ante 6,76% dos juros de mercado medidos pelo CDI. O fundo não se limita a moedas – também especula com ações americanas e com commodities como petróleo e ouro – mas o câmbio concentra a maior parte das apostas. Domiciano tem mais de duas décadas de mercado financeiro, e construiu sua carreira nos bancos Garantia e, posteriormente, Credit Suisse.

Há mais de dez anos, ele começou a desenvolver um sofisticado modelo matemático que consegue encontrar padrões de comportamento dos preços dos ativos. Muitos cálculos, e duas horas de meditação diária, uma antes do início dos negócios e outra no fim do expediente, garantem ao budista praticante a serenidade para operar diversos mercados ao mesmo tempo. “Monto minhas estratégias principalmente com base em opções de compra e venda de moedas”, diz ele. O fundo é aberto a todos os investidores, com uma aplicação mínima de R$ 30 mil (observe o quadro ao final da reportagem). A divisão de administração de ativos da seguradora Sul América também oferece aos investidores um produto com exposição aos mercados de câmbio, mas com base em uma estratégia que reduz o risco.

Marcelo Mello, da SulAmérica Investimentos: “Aproveitamos o conhecimento da casa para oferecer operações cambiais aos clientes” (Crédito:Solange Macedo)

Conhecida pelo termo long-short, essa tática consiste em apostar, simultaneamente, na compra de uma moeda que deverá se valorizar e na venda de outra que tem boa probabilidade de perde valor. Ao alinhar esses dois contratos, o gestor consegue uma rentabilidade bastante previsível e de baixo risco. “Nosso fundo tem montado posições em moedas como a lira turca e o rand sul-africano”, diz Marcelo Mello, vice-presidente da SulAmérica Investimentos. “A lira está depreciada, devido à crise na Turquia, e o rand se apreciou bastante nos últimos meses devido ao crescimento econômico na África do Sul”, diz Mello. “Assim, faz sentido apostar na alta da lira e na queda do rand.”

Essa é a principal posição do SulAmérica Endurance atualmente, mas a equipe de Mello já obteve bons resultados emparelhando os dólares da Austrália e da Nova Zelândia. As duas moedas da Oceania costumam caminhar lado a lado, mas volta e meia adotam trajetórias díspares, e o fundo se aproveita desses movimentos. “Aproveitamos o conhecimento da casa para oferecer aplicações cambiais aos clientes”, diz ele. Os gestores já especularam com o mercado de pesos mexicanos em relação ao dólar, mas os resultados não foram tão bons. O pioneiro em especular com moedas além do dólar é o gestor Luis Stuhlberger, responsável pela família de fundos Verde.

Sua aposta mais recente é na desvalorização do renminbi. No acumulado do ano, a moeda chinesa valorizou-se 2,9%, caindo de de 6,9 para 6,7 por dólar. Com isso, analistas estimam que essa posição cambial do Verde foi responsável pelo desempenho ruim. No acumulado do ano, segundo a empresa de informações financeiras Economatica, a rentabilidade foi 4,76%, cerca de 70,6% dos juros de mercado. Procurado, Stuhlberger respondeu, por meio da assessoria, que a posição vendida na moeda chinesa é a única aposta cambial atualmente, sem comentar sua estratégia. Apesar de eventuais retrocessos, a convicção dos gestores é que, em um cenário de baixa de juros no Brasil, fará cada vez mais sentido mergulhar no mar global do câmbio – com cuidado, claro.