Economia

Lula condenado, risco afastado?

O mercado financeiro comemorou a decisão de Sérgio Moro de sentenciar o ex-presidente a nove anos e meio de prisão. A festa pode acabar?

Crédito: Mateus Bonomi / AGIF

A decisão do juiz Sérgio Moro, de condenar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e meio de prisão por corrupção, deixou o mercado financeiro eufórico na quarta-feira 12. Lula foi condenado por ter recebido um apartamento triplex no Guarujá da empreiteira OAS em troca de promover os interesses da empresa junto à Petrobras. “Prevalece, enfim, o ditado de que não importa o quão alto você esteja, a lei ainda está acima de você”, escreveu Moro em sua sentença, para alegria do mercado. Nos dois dias seguintes, o dólar cairia 1,3% para R$ 3,2108, menor patamar desde 17 de maio, quando a divulgação das gravações do presidente Michel Temer por Joesley Batista, CEO do grupo J&F, lançaram uma sombra de incerteza sobre o mercado.


Juiz Sérgio Moro, na sentença que condenou o Ex-presidente Lula: “Prevalece,
enfim, o ditado de que não importa o quão alto você esteja, a lei ainda está acima de você” (Crédito:AFP Photo / Patricia de Melo Moreira)

A bolsa também se animou. O índice Bovespa subiu 2,1% até a quinta-feira 13. Viciado em pensar a curto prazo, o mercado financeiro já comprou a ideia de que Lula está fora da corrida presidencial de 2018, sem querer esperar a confirmação da sentença pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Segundo o juiz Carlos Eduardo Thompson, presidente do Tribunal, o julgamento está previsto para daqui a um ano. “A apreciação do caso está prevista para agosto ou setembro do ano que vem, antes da eleição”, disse ele em uma entrevista à rádio Band News na quinta-feira 13.

Sem descanso: a decisão de Moro ainda deve passar por apreciação em segunda instância, o que deve ocorrer só em um ano (Crédito:AFP Photo / Miguel Schincariol)

A razão para a alegria nas mesas de operação é uma só. A campanha eleitoral está longe de começar, mas o ex-presidente já aparece como favorito. Na mais recente pesquisa do instituto DataFolha, divulgada dia 28 de junho, as intenções de voto em Lula oscilam ao redor de 30%. Seus oponentes mais próximos, Marina Silva (Rede) e Jair Bolsonaro (PSC), têm 15% cada, a metade disso. Os partidos da base de apoio ao governo, também envolvidos nas delações da Lava Jato, ainda não apresentaram um candidato politicamente viável capaz de galvanizar o eleitorado. Tudo isso leva água para o moinho do petista.

Interditado: o apartamento tríplex no Guarujá (SP), que teria sido doado pela OAS em troca de contratos com a Petrobras, foi o motivo da condenação da quarta-feira 12 (Crédito:Marco Ambrosio/Estadão Conteúdo)

“Mesmo com todas as acusações, Lula não perdeu seus eleitores tradicionais, que são um contingente importante”, diz Fernando Bergallo, diretor de câmbio da FB Capital. “Se estiver no páreo, ele tem boas chances de ganhar e traz um temor de ruptura com as políticas pró-mercado.” Se já temiam o candidato do PT em 2002, quando sua liderança nas pesquisas fez o dólar disparar para R$ 4,10, os investidores temem, mais ainda, o Lula 2018. “Em sua primeira eleição, Lula era um mito”, diz Adeodatto Volpi Neto, estrategista-chefe de mercado de capitais da Eleven Financial. “Hoje, ele é um semimorto em termos políticos, e só terá viabilidade eleitoral com um discurso muito populista.”

Lula não dá sinais de que vai entregar os pontos. “Quem acha que é o fim do Lula vai quebrar a cara porque quem tem direito de decretar meu fim é a população brasileira”, disse ele ao comentar a condenação. Se participar da campanha, Lula subirá aos palanques trazendo no bolso um discurso sob medida. Vai falar ao enorme contingente de eleitores que se beneficiou de programas socialmente necessários, como o Bolsa Família, o Fies, e o Minha Casa, Minha Vida, e que se ressente do apertar de cintos promovido a partir de 2014.

O discurso populista assusta os investidores nacionais e estrangeiros. “Todas as políticas populistas se apóiam no aumento dos gastos públicos, que foi o que provocou a crise em 2015 e 2016”, diz Volpi Neto. Se retornarem, práticas como liberação de crédito, concessão de incentivos fiscais e ampliação de subsídios poderão quebrar o País. A reação será a de costume, uma fuga de recursos do País. Lula deixou o Palácio do Planalto em 2010 com 83% de popularidade, mas, depois disso, o noticiário envolvendo o tríplex no Guarujá e outros quatro casos de corrupção, obstrução da Justiça e lavagem de dinheiro, que estão tramitando no Judiciário, desencantaram os eleitores.

Mito impopular: O ex-líder metarlúgico Lula assusta de novo o mercado com a sua liderança nas pesquisas de intenções de votos para 2018 (Crédito:Folhapress)

Quem lida com investimentos, especialmente em dólares e em euros, porém, havia se desencantado bem antes. “Muitos investidores queriam trazer dinheiro para o Brasil e não o faziam porque suas empresas têm políticas de compliance mais fortes”, diz o advogado Rodrigo Valverde, sócio do Schroeder & Valverde e especialista em fusões e aquisições. “Os estrangeiros entendiam que o ambiente de negócios, as regras do jogo, eram diferentes no Brasil.” Para o advogado, essa percepção mudou. “O Brasil passou a ser um país em que Judiciário funciona e as denúncias não são mais arquivadas quando atingem empresas e políticos, independentemente dos partidos.”

Viabilidade eleitoral: abatido pelas denúncias, Lula precisaria adotar discurso populista em 2018 e reforçar programas sociais como o Minha Casa, Minha Vida (Crédito:Ricardo Stuckert/PR)

A leitura dos especialistas é que a condenação de Lula é um sinal positivo. Mas não é o único fator que vai definir o cenário nos próximos meses. Sem o ex-presidente na disputa, o tempo joga a favor dos partidos governistas. Os prognósticos do mercado são de crescimento econômico neste ano, ainda que mínimo, e de uma expansão de 2% no Produto Interno Bruto no ano que vem. Tudo isso gera um estado de ânimo mais positivo.

Embora intangível, esse é um dos elementos que muda as eleições. E, mesmo com tantos desfechos possíveis no horizonte, o mercado está se desvinculando de toda a crise política, e buscando onde estão as oportunidades. “O empresário brasileiro está trabalhando para ganhar dinheiro”, diz Fernando Marcondes, planejador patrimonial do grupo GGR. “E tem muito investidor olhando com atenção as empresas de boa qualidade cujas ações ficaram baratas por conta da crise e da desvalorização do câmbio.”