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Foi-se o último dos grandes editores

Domingo Alzugaray, o criador da Editora Três, partiu. Foi para a aruanda das almas boas, onde ocupará seu merecido lugar no setor reservado aos grandes jornalistas

Foi-se o último dos grandes editores

Conhecer Domingo Alzugaray e poder privar da sua amizade foi para mim uma sorte e um privilégio. Esse contato, e tudo que veio dele, mudou literalmente o rumo da minha vida, e comprovou, sem sombra de dúvida, que o bom êxito na existência depende da arte do encontro. Eu tinha 29 anos em 1974, quando o conheci, levado ao seu escritório na Avenida Paulista pelas mãos amigas de Ignácio de Loyola Brandão. Domingo selou o meu destino quando decidiu entregar-me as rédeas da Revista Planeta, a primogênita da Editora Três, até hoje chegando às bancas, graças a Deus.

Para alguém como eu que, naqueles tempos, vivia às turras com a vida, com o mundo e comigo mesmo, foi uma reviravolta de 180 graus. Dirigir Planeta, uma publicação sem preconceitos, voltada à ciência de ponta e ao mesmo tempo ao conhecimento mais tradicional, aos ocultismos e esoterismos, obrigou-me a abrir os olhos e perceber que, na vida, no mundo e na presença do ser humano sobre a Terra existem muito mais mistérios do que supõe a nossa vã filosofia, como disse William Shakespeare. Mas o relato dos aprendizados, dos risos e dos inevitáveis prantos da minha ligação de muitas décadas com Planeta e o mundo de Planeta ficarão para uma outra ocasião, talvez quando eu decidir que mereço uma autobiografia.

O que quero, agora, é apenas deixar aqui um preito de amizade e eterna gratidão a esse basco-argentino-brasileiro, cidadão do mundo, amigo dos amigos, que tanto me ajudou. Pois Domingo Alzugaray era um ser essencialmente generoso. Testemunhei seus rasgos de generosidade mais de uma vez, desde quando, nos primórdios da Três, ele cultivava o sábio e agradável hábito de conviver com seus funcionários mais próximos.

Naqueles tempos, um ritual semanal que ele criara selava e confirmava um pacto indissolúvel com seus companheiros de trabalho: todas as sextas-feiras, lá pelas cinco horas da tarde, ele chamava a todos para a sua sala. Lá, sobre a mesa, uma ou duas garrafas de uísque dos bons, mais uma bandeja de salgadinhos nos esperavam, elementos indispensáveis para a sagração. E durante umas duas horas, dá-lhe conversa, troca de confidências, sugestões, projetos, críticas benévolas – cimentos de uma relação profissional e pessoal que perdura até hoje.

Domingo participava ativamente da vida dos amigos. Quando, em 1978, decidi abrir a Zipak Livraria, especializada nos mesmos assuntos da Planeta, fui vê-lo e lhe pedi um desconto no valor do pequeno anúncio que pretendia por na revista para impulsionar o marketing da livraria. “Anunciozinho? Ora, Luis. Ninguém vai muito longe com um anunciozinho. Pegue logo a quarta capa da revista, capriche no layout do anúncio, e fique lá até que a livraria esteja consolidada. É um presente meu para você”. E assim foi. Durante um ano, talvez um pouco mais, a Zipak ocupou, de graça, a quarta capa da Planeta. Este foi, certamente, um dos fatores que mais colaboraram para o êxito da livraria. Obrigado, Domingo!

No grande portão da aruanda dos jornalistas de alma grande, Domingo certamente terá sido recebido por uma multidão de amigos, entre eles Dona Elsie Dubugras. Logo no início da minha gestão como diretor de Planeta eu a contratei como minha secretária, quando ela tinha já 74 anos (embora escondesse dizendo que tinha 60). Elsie tornou-se amiga e conselheira espiritual de Domingo Alzugaray, e ele a manteve no cargo até a morte dela, aos 102 anos de idade. Domingo era fiel em suas amizades, e nenhuma briga ou desavença passageira conseguia abalar a sua fidelidade.

Com sua partida, vai-se também, em nosso país, toda uma era de jornalismo romântico, aventuroso, dramático, divertido, audaz, verdadeiro, um tanto doido. Jornalismo de verdade. Uma pena que a roda da vida gire também para personagens como Domingo… Mas ele permanecerá eterno no coração e na memória daqueles que, como eu, tiveram o privilégio de privar da sua presença e amizade. A sua esposa Cátia Alzugaray, a seus filhos Paula e Caco, e a toda a família, a minha solidariedade na perda. Ao Domingão, a minha gratidão.