Entrevistas

Nº edição: 748 | 03.FEV.12 - 21:00 | Atualizado em 05.02 - 12:51

Janus Friis, fundador do Skype e do Rdio

"O Brasil é essencial para qualquer negócio online com pretensões globais"

O dinamarquês Janus Friis tinha 25 anos quando fundou, em 2001, com seu amigo Niklas Zennström, o Kazaa, um site de compartilhamento de música e vídeo que despertou a ira das gravadoras.

Por Bruno GALO


Com 29, ele ficou bilionário ao vender a empresa para o eBay,  por US$ 2,6 bilhões. E, aos 30, foi eleito pela revista americana Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Hoje, aos 35 anos, Friis continua a criar companhias na área de tecnologia e internet, além de ser um dos sócios do fundo Atomico, que tem investido em empresas iniciantes com foco no mercado brasileiro e latino-americano. “Tenho ouvido falar muito bem do momento das startups no Brasil”, disse Friis, durante passagem pelo Rio de Janeiro em dezembro para lançar o Rdio, serviço de streaming de música. Criado em parceria com a Oi, o serviço  permite ouvir canções em qualquer dispositivo com acesso à internet sem a necessidade de baixar arquivos. 


DINHEIRO – Por que o sr. escolheu o Brasil como primeira escala da expansão internacional do Rdio?

JANUS FRIIS  – Com o Skype e o Kazaa, aprendi que os brasileiros são bastante abertos às novas tecnologias e serviços, além de serem apaixonados por música. Queremos tornar o Rdio um serviço global, a melhor plataforma para ouvir música no mundo, mas temos de dar um passo por vez e o Brasil me parece ser o lugar ideal para começarmos.
 
DINHEIRO – Com o Kazaa, o sr. comprou briga com gravadoras. Foram anos de muita pressão?
FRIIS – Quando o lançamos, em 2001,  o site estava à frente do que as gravadoras e os estúdios de cinema estavam dispostos a fazer em termos de distribuição de conteúdo digital. Era o futuro, mas eles não estavam prontos ou não quiseram se adaptar ao momento. Foi um período muito controverso e também de aprendizado para mim.
 
DINHEIRO – Como o Rdio se posiciona no mercado de música digital?
FRIIS – O Rdio torna a música realmente móvel, porque podemos ouvir canções a partir de qualquer dispositivo com acesso à internet, do smartphone a um som de carro conectado. Além disso, é algo bastante econômico, uma vez que, pelo preço de um CD, é possível ouvir todas as músicas que quiser. A pirataria é, sobretudo, uma questão de falta de opções. Para mim, as pessoas parariam de baixar músicas ilegalmente se houvesse alternativas atraentes. Por até R$ 14,90 ao mês, os clientes do Rdio têm acesso a um portfólio de 12 milhões de canções.
 
DINHEIRO – Recentemente, o Facebook anunciou a integração com sites como o Rdio. Qual a importância dessa parceria para vocês?
FRIIS – As pessoas compartilham o que fazem e gostam o tempo todo. De certa forma, é um hábito off-line que levamos para o mundo online. E compartilhar o que ouvem é algo fabuloso para nós. As pessoas querem saber o que os amigos estão ouvindo e isso tem um poder de difusão muito grande. Mas tem que ser feito no equilíbrio certo. Não necessariamente os usuários querem saber tudo o que todos os seus amigos estão ouvindo. Por isso, dentro do Rdio, permitimos às pessoas filtrar os tipos que mais lhes interessam e buscar perfis públicos de pessoas famosas ou músicos, por exemplo. A ideia por trás disso tudo é que, assim, podemos descobrir novas músicas que de outra forma não encontraríamos.
 
DINHEIRO – Quanto tempo o sr. acredita que vai levar para o streaming, a transmissão em tempo real pela internet, se tornar o formato dominante no segmento musical na rede?
FRIIS – O streaming é uma tecnologia relativamente nova. Muita gente ainda não está familiarizada com ela. Mas, se você quiser saber como vai ser o futuro, olhe para os jovens e crianças de hoje. Eles consomem tudo via streaming, de música e vídeos no YouTube à programação da tevê em sites na internet. É apenas questão de tempo para que ele seja o modelo dominante no mercado cultural como um todo.
 
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Steve Ballmer, CEO da Microsoft.
 
DINHEIRO – Mas ainda há resistência das gravadoras, não?
FRIIS – Fazer as pessoas voltar a pagar por música é algo incrível. É um dinheiro que não existiria sem esse tipo de serviço. Um grande número de pessoas não pagou para ouvir canções ao longo dos últimos anos. E isso é algo financeiramente muito atraente para as gravadoras. Não posso falar pelos outros, mas nós não temos tido problema com elas.
 
DINHEIRO – O sr. é sócio do fundo de investimento Atomico, que tem investido em startups com foco no mercado brasileiro. O que atrai o sr. em uma startup?
FRIIS – Sim, sou sócio, mas quem toca o dia a dia desse negócio é o meu sócio, Niklas Zennström. E, aliás, ele está fazendo um excelente trabalho. Os mercados brasileiro e latino-americano estão entre as nossas prioridades. Pessoalmente, raramente invisto em startups. Estou mais focado em construir as minhas próprias. Não tenho planos de investir em nenhuma empresa no País. Mas, se encontrar pessoas incríveis, com uma boa ideia ou um negócio promissor, adoraria ajudar e investir meu tempo e dinheiro no Brasil. Tenho ouvido falar muito bem da cena startup brasileira dos últimos meses e tenho certeza de que há boas oportunidades aqui.
 
DINHEIRO – Qual a importância do Brasil no cenário das empresas pontocom?
FRIIS – O Brasil é, sem dúvida, um p aís essencial para qualquer negócio online com pretensões globais. Não entendo como a loja iTunes, da Apple, demorou tanto tempo para estrear aqui. É inexplicável. Afinal, eles estão há quase dez anos nesse mercado. Na hora certa iremos trazer o Vdio para o mercado brasileiro também.
 
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Tim Cook, CEO da Apple.
 
DINHEIRO – Fale um pouco mais sobre o Vdio. O serviço tem uma proposta similar à da Netflix, certo?
FRIIS – Acabo de lançar esse site chamado Vdio, que é voltado para filmes, séries, programas de tevê e conteúdos profissionais em vídeo. É algo semelhante à Netflix, sim, só que  tem o recurso de descobrir ou encontrar novos vídeos por meio dos seus amigos. Atualmente, está disponível apenas no Reino Unido, mas queremos levar para todo o mundo nos próximos anos.
 
DINHEIRO – A compra do Skype por US$ 8,5 bilhões pela Microsoft, a valorização do Facebook e a abertura de capital de empresas como LinkedIn e Groupon criaram o temor de uma nova bolha da indústria pontocom. Corremos o risco de ver a história se repetir?
FRIIS – Sinceramente, a questão é que o mundo está passando por um período de recessão. Nos chamados países desenvolvidos, como Estados Unidos e boa parte da Europa, as empresas de internet são as únicas que têm apresentado um crescimento forte nos últimos anos. Não acredito, porém, que se trate de uma nova bolha. O Skype, por exemplo, é um dos maiores fenômenos da internet. Não acredito que a Microsoft não pagaria um preço que não fosse justo. Ainda hoje, o Skype me abre muitas portas.
 
DINHEIRO – Quais as principais tendências da indústria de tecnologia hoje?
FRIIS – Há muitas, como o 4G, os smart­phones, as redes sociais, os tablets. Mas já está claro para quem é do setor que tudo isso vai se tornar muito mais importante no futuro breve do que é hoje. O que realmente gostaria de saber é o que vem a seguir. E, se eu encontrasse essa resposta, eu não compartilharia com você. Eu mesmo iria construir esse negócio.
 
DINHEIRO – Que empreendedores o inspiram?
FRIIS – É a resposta óbvia, mas Steve Jobs sem dúvida é uma grande fonte de inspiração. A Apple é incrível. Há pouquíssimas empresas no mundo que fazem coisas realmente inovadoras, simples, revolucionárias e belas. A Apple é tudo isso. Todos os computadores são igualmente sem graça, já a Apple fez algo único. É para isso que trabalho todos os dias, para tornar o Rdio único de alguma forma.
 
DINHEIRO – Com tantas startups bem-sucedidas no seu currículo, que recomendação o sr. daria para um jovem empreendedor brasileiro?
FRIIS – Se você acredita no que quer fazer, faça. Vá até o fim com as suas ideias, mas a grande lição que aprendi nestes anos é que nada é garantido. A melhor ideia do mundo pode simplesmente não dar em nada quando colocada em prática. Há um risco enorme. Os empreendedores são o grande motor da economia de qualquer país, mas não quero vender uma ilusão às pessoas e dizer que todos devem ser empreendedores.

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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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  • www.gessomundial.com.br

    em 05/02/2012 12:51:39

    o skyoe quebra mesmo o galho

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