Entrevistas

Nº edição: 733 | 21.OUT.11 - 21:00 | Atualizado em 09.01 - 13:31

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Jim Rogers, investidor

"O calote nos EUA e na Europa é inevitável"

Rogers está pessimista sobre a capacidade dos Estados Unidos e dos países europeus em crise de honrar seus compromissos.

Por Denize BACOCCINA, enviada especial a Cingapura


Confortavelmente instalado no jardim de sua casa de mais de US$ 20 milhões, num bairro nobre de Cingapura, o bilionário investidor americano Jim Rogers, 69 anos completados na quarta-feira 19, recebeu a DINHEIRO para conversar sobre a economia mundial. Rogers está pessimista sobre a capacidade dos Estados Unidos e dos países europeus em crise de honrar seus compromissos. “Ou dão um calote direto ou vão ter que imprimir moeda e fazer com que ela perca o valor, o que é outra forma de calote”, diz ele. “Não há outra maneira de os Estados Unidos ou a Grécia pagarem suas dívidas.” Rogers já foi sócio de George Soros na Quantum Funds, uma administradora de recursos cujos investimentos renderam 4.200 % ao longo de uma década. Hoje, ele não tem mais clientes e só investe o próprio dinheiro, uma quantia que não revela. Para multiplicar sua fortuna, Rogers, que no início de 2011 criou o Rogers Global Resources Equity Index, focado em companhias de ponta em agricultura, mineração, metais e energia, vem comprando títulos ligados a commodities e diz que o preço desses produtos vai continuar em alta por pelo menos mais uma década. Em 2007, ele se mudou com a família para Cingapura porque quer que as duas filhas sejam fluentes em mandarim. Sobre o Brasil, Rogers critica as recentes medidas protecionistas do governo, como o aumento do IPI sobre os automóveis.


DINHEIRO – Onde o sr. está investindo agora?
JIM ROGERS – Em commodities e em moedas. Eu ganhei apostando na baixa de ações de companhias de tecnologias americanas, nos mercados emergentes e na Europa. Agora estou um pouco parado, que é algo que todo investidor devia fazer, porque pessoas que ficam pulando o tempo inteiro erram muito.

 
 
DINHEIRO – Por que o sr. vendeu suas ações dos emergentes?
ROGERS – Foram os papéis mais explorados do mercado nos últimos três anos. Ficar vendido é quando você lucra com a queda dos preços. Há alguns meses, vendi títulos de vários países, como Brasil, Índia e Turquia,  porque tinham subido demais. Agora, estou comprando commodities, tanto agrícolas quanto minerais, além de metais como ouro, prata e zinco. O preço sobe quando o Brasil comete erros como não deixar que estrangeiros comprem terras, o que poderia aumentar a produção e a produtividade. É ruim para o Brasil, mas é excelente para mim e para quem tem papéis de commodities agrícolas, porque os preços tendem a subir. Também fiquei vendido em papéis europeus porque achei que eles teriam problemas. Comecei a comprar commodities em 1998 e nunca vendi. Se um dia o mercado virar, vou ter de vender, mas isso não vai acontecer nos próximos dez anos. Para quem vai investir, a melhor opção hoje são as commodities.
 
 
DINHEIRO – Mesmo com a possível recessão nos Estados Unidos e na Europa?
ROGERS – Sim. Primeiro, há uma escassez de commodities. Nos anos 1970, a situação era ruim tanto para as economias quanto para o mercado de ações, por isso as commodities dispararam. Por 15 anos, as economias retrocederam e as commodities avançaram. Estamos novamente num período como aquele. Se as economias vão mal, os governos vão imprimir dinheiro, a moeda vale menos e a maneira de proteger seu patrimônio é comprar prata, comprar alimentos, porque vão manter o valor.
 
 
DINHEIRO – O sr. disse que a Ásia é o futuro, inclusive mudou-se para cá com a família. Como vê a América Latina?
ROGERS – A América Latina está cheia de recursos naturais. Ao longo da história, quando o mercado de commodities está bom, a América Latina está bem. Mas aí o mercado vira. E a América Latina continua elegendo esses políticos loucos, tendo golpes de Estado, inflação. São países maravilhosos, mas sempre fazem as mesmas coisas.
 
 
DINHEIRO – São países dependentes do ciclo de commodities?
ROGERS – Tem sido assim. Quantos carros a Venezuela produz, quantos carros o Equador produz, ou televisões? No caso da presidente Dilma Rousseff, em vez de preparar o País para competir, continua fazendo as mesmas coisas que sempre foram feitas na América Latina, fechando a economia e afastando investidores. Dilma tomou várias decisões erradas nas últimas semanas: começou uma guerra comercial com a China ao barrar os carros chineses, o que é uma loucura. Fez ainda controles de câmbio, querendo desvalorizar o real, o que é insano. E, ao querer impedir que estrangeiros comprem terras, vai reduzir o seu valor e os investimentos em agricultura. O Brasil sempre faz isso quando as coisas vão mal, mas ela está cometendo erros quando as coisas estão indo bem.
 
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Protestos da população grega contra ajustes do governo
 
 
DINHEIRO – O que Dilma deveria fazer?
ROGERS – Ela não deveria tentar controlar o câmbio, deveria deixar que ele tome o seu rumo. O Brasil tem uma economia muito forte, não por causa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas por causa do mercado de commodities. Lula se aproveitou da alta do preço nesse mercado para reivindicar o crédito. É o mesmo que a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher fez nos anos 1980, quando as coisas melhoraram depois da crise dos anos 1970. O que de fato aconteceu é que nos anos 1980 o petróleo do Mar do Norte começou a jorrar e o país ficou cheio de dinheiro. O mesmo aconteceu com o Brasil e o ex-presidente Lula. No final dos anos 1990, o Brasil estava mal, porque o preço das commodities chegou ao fundo do poço. Lula chegou ao poder e as coisas melhoraram. Mas não teve nada a ver com ele. Assim como não tinha nada a ver com Margareth Thatcher. Mas os dois reivindicaram o crédito para si. Políticos fazem isso. Quando as coisas começam a ir mal, eles culpam o mercado.
 
 
DINHEIRO – O Brasil se saiu bem da crise de 2008...
ROGERS – Sim, mas por causa do boom das commodities. Quem tinha commodities se saiu bem. Austrália, Nova Zelândia, Canadá. Quem não se deu bem foram os grandes devedores, que não tinham reservas. Os que se deram bem foram os países com commodities ou os grandes credores, como a China.
 
 
DINHEIRO – O governo brasileiro está com medo que a China acabe com a indústria local. Ele está certo em sentir isso?
ROGERS – O Brasil exporta muito para a China. Então, é preciso torcer para que os chineses continuem crescendo. E, se as fábricas brasileiras não puderem competir, é melhor comprar melhor e mais barato, seja de uma fábrica americana ou chinesa. A história está cheia de países que cometeram o erro de proteger meia dúzia de empresários ricos em vez de pensar na população. Os 190 milhões de brasileiros estarão melhor se puderem comprar coisas boas e mais baratas. 
 
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A presidente Dilma Rousseff
 
 
DINHEIRO – O sr. tem papéis de algum país?
ROGERS – Bônus são um investimento péssimo. A inflação vai aumentar, as taxas de juros vão subir, haverá mais controle de câmbio. Em todos os lugares, inclusive nos EUA. 
 
 
DINHEIRO – Qual é o seu cenário para a economia mundial?
ROGERS – Os governos vão continuar a cometer erros. Estão empurrando os problemas para o futuro, como é o caso da Grécia. A solução para muita dívida não é mais dívida.
 
 
DINHEIRO – Então qual é a saída?
ROGERS – Calote.
 
 
DINHEIRO – Isso não pode significar uma cascata de calotes?
ROGERS – Sim. Mas, em cinco anos, quando as dívidas estiverem muito mais altas, a cascata será muito maior. Agora é ruim, mas se esperarmos será muito pior. Ao longo da história, governos que chegaram a essa situação sempre partiram para o calote. Ou para a guerra. Há mais de uma maneira de fazer default. Pode ser não pagando diretamente a dívida ou imprimindo dinheiro, o que é outra maneira de calote, já que o dinheiro não vai valer nada. Não há como a Grécia ou os Estados Unidos pagarem sua dívida.
 
 
DINHEIRO – Se os Estados Unidos ficarem inadimplentes, o que acontece?
ROGERS – No fim do século 19, a Inglaterra era o país mais poderoso do mundo. Três gerações depois, quebrou. Mas o mundo continou. O Brasil estava bem nos anos 1970. Há sempre algumas pessoas subindo, outras caindo. Nos últimos 50 anos, os Estados Unidos cometeram muitos erros. Agora, o país tem de pagar por eles. Quanto mais tempo demorar para resolver, pior ficará. O Japão, nos anos 1990, tinha muitos problemas, mas se recusou a deixar os bancos quebrar. Em vez disso, criaram-se os bancos e as companhias zumbi. O resultado é que hoje o mercado de ações do Japão vale 80% mais do que valia em 1990. A Suécia, no início dos anos 1990, teve o mesmo problema. Mas eles deixaram os bancos e as empresas quebrar e tiveram três anos péssimos. Agora o país está bem. O mesmo aconteceu com o México e a Coreia, que tiveram problemas, mas se recuperaram. É preciso deixar as empresas quebrar.  Adoraria poder ligar para o governo, quando eu cometesse um erro, e pedir dinheiro. Mas isso não funcionou no Japão, não vai funcionar nos EUA nem na Europa.
 
 
DINHEIRO – O sr. acha que a União Europeia deixará esses países quebrar?
ROGERS – Poderia. Os Estados Unidos tiveram Estados e prefeituras que quebraram, e sobreviveram. A Grécia pode sobreviver, começar de novo. Meu temor é que em cinco anos, quando eles quebrarem, o rombo será grande demais para controlar. E aí, sim, você vai ter caos, desastre, pessoas se jogando pela janela. Se tivessem feito isso em 2008, a maioria dos governos ainda teria algum dinheiro. Três anos depois, os governos têm menos. Em 2015, esquece.

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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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  • JOSÉ ESPINOZA

    em 09/01/2012 13:31:12

    Há um erro na entrevista. Não sei se do Rogers ou da tradução. O mercado de ações japonês hoje, vale cerca de 80% MENOS que 1990.

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    • angelo henrique peters bueno

      em 01/11/2011 20:13:55

      olha como as coisas são es notas AAAAAAAAAAAAAAAA dos EUA foram para aonde, o Brasil tem que blindar economia e investir no exercito para não ser saqueada como a líbia.

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      • angelo henrique peters bueno

        em 01/11/2011 20:11:11

        esse Rogers não sabe o que fala deixar a china dominar o mercado brasileiro e o brasileiro vai virar boi fria, as politicas do Lula tiveram impacto e protegeram o Brasil a politica de diversificar a puta de exportações ajudou não ficar preso a EUA e Europa.

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        • cicerodeteo

          em 27/10/2011 12:28:07

          Não confie nos ricos nen um tantinho assim nada ELE ESTAVA CERTO. a caravana passa e os bancos ladram.

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          • JOSE AFONSO R.QUEIROZ

            em 26/10/2011 22:05:24

            Comentário muito interessado, não interessante. Roosevelt saiu da crise de 29 criando mercado e construiu a mais forte economia capitalista da história. Esse senhor comete o erro de Bush, como comprar mercadorias mais baratas quando não se tem empregos para gerar renda? Ele é obtuso ou desonesto!

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            • Josué Henrique Amorim de Saez

              em 25/10/2011 14:29:51

              Humm! Muito boa a entrevista. Mas cadê o resto dela?

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              • Alexsandro de Amorim

                em 22/10/2011 16:50:32

                Quando o Brasil anunciou que deixaria de pagar a dívida foi bastante criticado. Agora, para os países quebrados da UE virou a solução dos problemas.

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