Entrevistas

Nº edição: 719 | 15.JUL.11 - 21:00 | Atualizado em 21.04 - 01:26

Enrique Iglesias, ex-presidente do BID

"Latinos: cuidado para não se apaixonar pelo sucesso"

Ao longo de quase cinco décadas de carreira, o economista espanhol naturalizado uruguaio Enrique Iglesias conseguiu tornar-se uma voz respeitada em todas as faixas do espectro político mundial.

Por Cláudio Gradilone, de Santander (Espanha)


Desde 2005, ele é o principal executivo da Secretaria-Geral Latino-Americana, uma organização multilateral que inclui 22 países da América Latina e da Europa e é responsável pela elaboração dos encontros de cúpula que reúnem as lideranças regionais. Antes, Iglesias presidiu por 17 anos o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foi secretário executivo da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e presidente do Banco Central do Uruguai. Após sua participação em um seminário em Santander, na Espanha, sobre as perspectivas para a América Latina, no qual afirmou estar bastante otimista com os prognósticos para a região, Iglesias falou com exclusividade para a DINHEIRO a respeito do avanço econômico, da necessidade de fortalecer a democracia e do risco de embriagar-se com o sucesso. A seguir, os principais trechos da entrevista:


DINHEIRO – Quais foram os principais avanços econômicos?

ENRIQUE IGLESIAS – Em primeiro lugar, há um consenso de que é preciso seguir certos princípios em relação à estabilidade da moeda, ao equilíbrio das contas públicas e à disciplina fiscal. Esse foi um dos avanços mais nítidos e notáveis. Hoje, os governos latino-americanos dominam e controlam as principais variáveis macroeconômicas, pois aprenderam a manejar a economia. Além disso, houve um grande avanço institucional. Ainda não é uma obra finalizada, mas as instituições hoje são muito mais sólidas do que há duas décadas. Desrespeitá-las é uma exceção, deixou de ser a regra geral.
 
 
 
DINHEIRO – Qual é a importância disso?
 
IGLESIAS – É um avanço enorme em comparação ao passado recente. Se forem mantidas essas condições, podemos prever com segurança que as maiores economias latino-americanas estarão na lista de países desenvolvidos até 2020. Temos uma capacidade muito grande, como nunca tivemos no passado recente, de nos incluir no mundo desenvolvido, sem perder nossas especificidades nacionais. Isso é um trunfo nas mãos dos países latinos, pois eles representam um mercado enorme para bens e serviços, 
algo muito atraente para os investidores.
 
 
 
DINHEIRO – Há algum risco nesse cenário?
 
IGLESIAS – Alguns. No curto prazo, o risco é o excesso de aquecimento econômico, tanto regional quanto global. As políticas de estabilização bancária nos países desenvolvidos injetaram muito dinheiro no mercado financeiro, e isso vem provocando distorções nos preços mundiais, de commodities a imóveis. O excesso de liquidez inundou a região de divisas e a maioria das moedas está excessivamente valorizada em relação ao dólar e ao euro. Isso reduz a competitividade e eleva as pressões sobre a inflação, além de tornar os países latino-americanos mais suscetíveis às medidas internacionais de controle de liquidez.
 
 
 
DINHEIRO – Qual a solução?
 
IGLESIAS – Essa não é uma questão simples de ser resolvida. Tampouco será solucionada sem sacrifícios. O problema requer atuação firme dos governos, e terá de ser enfrentado mais cedo ou mais tarde. Se não formos capazes de resolver isso, aumentam as possibilidades de um recrudescimento do protecionismo comercial e outras medidas que podem vir a ser tomadas pelos bancos centrais.
 
 
 
DINHEIRO – Controles de capital, por exemplo?
 
IGLESIAS – Os bancos centrais têm inúmeros mecanismos à sua disposição, e os controles de capital são um deles. Mas esse é um daqueles assuntos muito contaminados politicamente, por isso prefiro não opinar.
 
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"Os mecanismos de integração comercial requerem ajustes constantes."
 
 
 
DINHEIRO – E os riscos de longo prazo?
 
IGLESIAS – O fato de a América Latina ter avançado tanto não quer dizer que todas as questões tenham sido resolvidas. Ainda há vários pontos que precisam melhorar significativamente. No campo econômico, a grande questão é a produtividade da economia. As empresas e o próprio Estado têm de ser reformados para serem mais eficientes e a região tem de ser capaz, finalmente, de resolver o conflito de identidade que existe entre o Estado e o mercado. 
 
 
 
DINHEIRO – E os riscos quanto à integração comercial? Brasil e Argentina interromperam, recentemente, o fluxo de mercadorias. Embora esse incidente tenha sido superado, não é um retrocesso protecionista? 
 
IGLESIAS – Esse tipo de disputa faz parte de qualquer processo de abertura comercial. Os mecanismos não são perfeitos, requerem monitoramento constante e ajustes periódicos. Precisamos ter em mente que o processo de integração não é algo recente. O México começou a falar nisso em 1952, antes mesmo de os países europeus terem apresentado suas primeiras propostas para a União Europeia. Em 1959, quando comecei a trabalhar com economia, nós éramos todos sonhadores. Sonhávamos com uma integração muito profunda. Claro, houve avanços, mas se fez pouca coisa em comparação com outras regiões, como a Europa, por exemplo. No mundo que se desenha no futuro, no qual a América Latina terá uma grande oportunidade, nossos países terão de aprender a navegar em cooperação. E isso vai muito além do mercado.
 
 
 
DINHEIRO – O que significa ir além do mercado ?
 
IGLESIAS – Integração vai além do fluxo de bens e serviços, apesar de as empresas multilatinas estarem vivendo um momento espetacular de expansão,  dentro da região. Integração também significa uma forma de defesa conjunta e coordenada contra as turbulências econômicas internacionais. Passa também pela questão da segurança, da defesa física e virtual contra atividades criminosas. 
 
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"A qualidade da democracia precisa melhorar na América Latina"
Eleitores na Bolívia em 2009: baixa representatividade
 
 
DINHEIRO – O sr. falou do crescimento das multilatinas, mas diz que é preciso aumentar a eficiência empresarial. Por quê?
 
IGLESIAS – Se analisarmos o panorama corporativo, veremos que 93% das empresas são pequenas, fechadas, ineficazes e sem acesso ao mercado global. O fato de elas não conseguirem se inserir em cadeias globais,  afeta muito  sua produtividade e reduz drasticamente sua capacidade de gerar valor para os acionistas. Brasil e Argentina avançaram muito, nos últimos anos, mas ainda há um enorme espaço para ganhar escala e avançar na produtividade. 
 
 
 
DINHEIRO – Como fazer isso?
 
IGLESIAS – Essa é uma tarefa essencial para os bancos. Eles podem ser muito importantes nesse processo de inserção das pequenas e médias empresas latinas na economia internacional. E há muito a fazer no próprio setor bancário.
 
 
 
DINHEIRO – O que deve ser feito?
 
IGLESIAS – Avançar na bancarização, no aumento do acesso das pessoas de baixa renda aos serviços bancários. Nós vimos os bons resultados das várias iniciativas destinadas a aumentar a bancarização, no Brasil, no México e em outros países, e isso é muito importante, pois incrementa a eficiência e, também, a transparência das economias e melhora a qualidade de vida da população. Poder ter conta em banco deveria ser um direito tão importante quanto o acesso ao saneamento básico e à educação. Além disso, sem um sistema bancário eficiente é impossível captar poupança doméstica em grande escala, algo essencial para o equilíbrio econômico latino-americano no longo prazo.
 
 
 
DINHEIRO – Em sua apresentação, o sr. citou a necessidade de um novo realismo. O que é isso?
 
IGLESIAS – Acho que temos de mudar a maneira de pensar sobre as questões globais e latino-americanas. A região está mais e mais inserida em uma economia mundial, que é muito mais ligada e conectada do que era no passado. Para que nós possamos continuar a crescer em paz, temos de aprender a pensar de maneira diferente sobre velhas questões. 
 
 
 
DINHEIRO – Dê um exemplo.
 
IGLESIAS – Vamos falar de um valor incontestável, que é a democracia. Ninguém discute que, hoje, a América Latina é muito mais democrática do que era há algumas décadas. O discurso hoje é muito mais convergente. Somos todos amantes da democracia, defendemos os direitos humanos e somos favoráveis a  um aumento da participação social. Mesmo assim, há um tema que me preocupa, que é a qualidade dessa democracia, ou seja, a capacidade que os sistemas políticos democráticos possuem de gerar um consenso mínimo, para que os temas que interessam aos países possam ser discutidos e desenvolvidos.
 
 
 
DINHEIRO – Essa baixa qualidade da democracia coloca a região sob risco?
 
IGLESIAS – Eu diria o seguinte: hoje, há otimismo na América Latina e esse otimismo é justificável tendo em vista o sucesso econômico e a enorme inclusão social da população de baixa renda na economia formal. No entanto, ainda há muitos problemas, de representatividade política, em especial, e há uma possibilidade de que eles sejam mascarados pelo avanço econômico. Nós, latino-americanos, temos de ser muito cuidadosos para não nos enamorarmos pela complacência gerada pelo sucesso e deixarmos de fazer o que tem de ser feito. 

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