Entrevistas

Nº edição: 447 | 12.ABR.06 - 10:00 | Atualizado em 07.07 - 14:59

Hardeep Singh Puri

"Juntos temos o potencial da China"

Embaixador da Índia fala de crescimento, modernização e abertura de mercado. E propõe a formação de um eixo econômico que ligue Índia, Brasil e África do Sul

Por GUSTAVO GANTOIS


Pela primeira vez em sua história, a Índia tem um primeiro-ministro com o sobrenome Singh. Trata-se de Manmohan Singh, membro da casta dos Sikhs, aqueles homens de barba e turbante que formam a espinha dorsal do Exército, da intelectualidade e da ciência indianos. Não é por coincidência acaba de chegar ao Brasil um embaixador com o mesmo sobrenome: Hardeep Singh Puri. O primeiro-ministro Singh tem no diplomata Singh um de seus homens de confiança. Líder de uma das economias que mais crescem no mundo, o primeiro-ministro confiou ao diplomata a missão de consolidar uma aliança estratégica entre Índia, Brasil e África do Sul. “Juntos, temos um potencial tão grande quanto o da China na nova economia mundial”, justifica o novo embaixador. Aos 54 anos, fluente em japonês, Singh Puri já ensaia as primeiras conversas em português. “Estou aprendendo aos poucos”, diz, com a modéstia. Com fama de exímio negociador, ele passou mais de dez anos em Genebra, alternando cargos nas Nações Unidas com a função de mediador em disputas na Organização Mundial do Comércio. Há três meses em Brasília, já planeja triplicar a atual corrente de comércio entre Brasil e Índia, hoje em US$ 2,3 bilhões. Confira os principais trechos da sua entrevista.


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"Temos um déficit de US$ 250 bi em obras. Empresas como a Odebrecht se dariam bem lá"

 

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"A Índia não será rica em 10 anos, mas estará no pelotão da frente"

DINHEIRO – Como esse investimento tem se refletido no PIB indiano?
SINGH PURI
– Hoje, o setor de serviços responde por 54% do nosso PIB. O grande problema que ainda vemos, no entanto, é que quase metade dessa participação decorre da atuação do Banco da Índia. É por isso que temos trabalhado no sentido de diversificar essa relação. O setor agropecuário, por exemplo, responde por apenas 20% do PIB. Hoje, ele está crescendo a 2% por ano – o que é inconcebível num país onde 60% da população depende diretamente dele. É por isso que estamos trabalhando em acordos para melhorar a qualidade do nosso sistema. Inclusive com o Brasil. A Embrapa tem mostrado cada vez mais interesse em desenvolver produtos específicos para a nossa realidade.

DINHEIRO – Mas ainda assim a Índia enfrenta acusações de ter um mercado muito fechado.
SINGH PURI
– E quem não quer proteger o seu mercado hoje em dia? Mas o nosso mercado está se abrindo gradualmente. Se fizermos uma conta grosseira, abrimos nossa economia com um atraso de 20 anos em relação a China, por exemplo. E eles não são lá tão abertos assim hoje. É por isso que temos trabalhado na redução de tarifas alfandegárias para que cheguem aos mesmos níveis dos outros países do sudeste asiático. Além disso, fizemos grandes reformas estruturais. Nossa economia está aberta aos investimentos estrangeiros na mesma proporção de um investidor nacional. Isso ainda não acontece em alguns setores no Brasil, por exemplo. O Itaú está prestes a abrir sua primeira agência em Nova Délhi. Aos poucos vamos chegar a um nível que agrade os estrangeiros e não prejudique nossos empresários.

DINHEIRO – Na Organização Mundial do Comércio, a Índia sempre se mostrou alinhada ao Brasil. Porém, nos últimos meses, tem crescido rumores de que os indianos estão trabalhando contra os interesses do G-20. É verdade?
SINGH PURI
– O Brasil é um dos mais importantes países no tabuleiro comercial. Foi fundamental o trabalho do ministro Celso Amorim para a criação do G-20 e, conseqüentemente, uma maior atenção aos pleitos dos países em desenvolvimento. Estaríamos sendo no mínimo ingratos se mostrássemos uma postura diferente da que temos tido até agora. Mas é claro que cada país tem seus interesses específicos. Isso não prejudica de forma alguma uma aliança na hora de trabalharmos juntos.

DINHEIRO – É nesse sentido que o senhor tem insistido na criação do eixo Brasil-Índia-África do Sul?
SINGH PURI
– Este é um assunto importante. Pra começar eu acho absurdo não termos uma ligação direta entre os três paises. É inadmissível que para irmos de Nova Déli para São Paulo tenhamos de passar por Frankfurt, e não Johannesburgo, por exemplo. Estou falando de 13 milhões indianos que viajam todos os anos para o exterior e gostariam de conhecer o Brasil. Agora, no aspecto econômico, acho que poderíamos nos tratar com mais carinho. Não estou dizendo que devemos frear todas as negociações com os Estados Unidos ou com a União Européia. Mas que devemos dar uma certa prioridade a países mais afinados com os nossos interesses. Esse eixo, que chamo de IBAS, tem um potencial tão grande quanto o da China na nova realidade econômica mundial. Até mais, se analisarmos profundamente. Queremos e precisamos de investimentos, temos mão de obra capaz de superar obstáculos estruturais e uma massa consumidora gigantesca. O mundo está de olho. Só esperam a nossa iniciativa.

DINHEIRO – Mas antes de criarmos um novo bloco não deveria vir uma aproximação bilateral?
SINGH PURI
– Sem dúvidas. Essa é a minha missão aqui no Brasil. No ano passado, a nossa corrente de comércio chegou a US$ 2,3 bilhões. E isso porque ela dobrou em relação ao ano anterior. Isso não existe! As entidades de comércio de ambos os países precisam estreitar laços. Quando atingirmos US$ 5 bilhões ainda será pouco. A agricultura brasileira é três vezes maior que a nossa. E, como disse, estamos precisando crescer nessa área. Temos crescido ao redor de 8% ao ano e o Brasil tem registrado uma média de 3%. Vocês têm capacidade de triplicar isso! E queremos participar desse jogo.

DINHEIRO – Existe algum interesse específico?
SINGH PURI
– Eu conversei recentemente com o Eduardo Pereira de Carvalho (presidente da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo) e manifestamos nosso interesse no programa de etanol brasileiro. Hoje, só nove estados indianos adicionam álcool na gasolina. Não fazemos mais porque o consumo de açúcar é muito grande devido ao tamanho da população. Queremos investir pesado nesse setor. Se não temos como investir na plantação da cana, que seja pela importação do etanol brasileiro, então. Outro interesse nosso é no setor aeronáutico. Fechamos um acordo coma Embraer para a compra de cinco Legacy com direito a outros 15 no sistema de pós-venda. Mas a nossa realidade é a de que precisamos de 100 aviões por ano! Também estamos conversando com a Petrobras para dobrarmos os esforços na área de petróleo e energia. Como pode ver, os interesses não são poucos.

DINHEIRO – Recentemente, o primeiro-ministro Manmohan Singh afirmou, em um artigo, que a pobreza na Índia deveria acabar em dez anos. É uma promessa ou há meios eficazes de realizar isso?
SINGH PURI
– Não é bem por aí. Assim como o Brasil, temos desafios nessa área. Não é justo comparar os PIBs dos dois países, já que a renda per capita de vocês é quase cinco vezes maior que a nossa. Eu prefiro estar numa situação de dizer que a renda per capita é maior que o PIB. É por isso que estamos trabalhando na distribuição de renda. Temos mais de 260 milhões de indianos vivendo abaixo da linha de pobreza. Felizmente, a população está crescendo apenas 1,5% ao ano. Somado ao crescimento da economia a um aumento na rede de assistência, queremos que a renda per capita cresça 6,5% neste ano. Isso não nos fará um país rico em 10 ou 15 anos. Mas nos colocará no pelotão de frente no final desse período.

 

 


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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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