Entrevistas
Nº edição: 441 | 01.MAR.06 - 10:00 | Atualizado em 20.05 - 13:36

Ernest Egli
"A pandemia é apenas questão de tempo"
Presidente da Roche no Brasil afirma que um surto global de gripe aviária é praticamente inevitável e que o mundo não está preparado para combater a doença
Por Elaine Cotta
Os novos focos da gripe aviária registrados na Europa – a França foi o mais recente – soaram um alarme de urgência mundial. Inclusive no Brasil, que é o maior exportador de carne de aves do mundo. No meio desse risco iminente de uma pandemia está a suíça Roche, única farmacêutica a desenvolver um medicamento, o Tamiflu, capaz de impedir a reprodução do vírus da gripe. E foi sobre esse problema, entre outras coisas, que Ernest Egli, que desde 1998 preside a Roche no Brasil conversou com DINHEIRO. A empresa, que em março completa 75 anos de presença no País, cogita aproveitar a fábrica do Rio de Janeiro para produzir o Tamiflu que será distribuído para todo o mundo no caso de uma pandemia. Suíço de nascença e brasileiro de coração, como se define, Egli presenciou de tudo nos oito anos em que está no Brasil. “Hoje o País está mais estável e pode voltar a ser foco de investimentos”, comemora, elogiando, em seguida, a decisão do governo em se preparar para uma eventual epidemia de gripe aviária. “O Brasil é, sem dúvida, o País da América Latina que está mais bem estruturado.” Egli acredita que uma pandemia da gripe em níveis mundiais é apenas questão de tempo e faz um alerta: “Ninguém, nem os EUA, está preparado”.


DINHEIRO – Os recentes casos de gripe aviária podem se agravar e se transformar numa pandemia mundial?
EGLI – A pandemia virá logo. É só questão de tempo. E isso é uma previsão da OMS, não minha.
DINHEIRO – A gripe aviária é a doença do futuro?
EGLI – Ela será um problema quando for transmitida de pessoa para pessoa. Apesar do mundo estar mais preparado que na gripe espanhola, os riscos são maiores.
DINHEIRO – Haverá medicamentos para todos?
EGLI – Não dá para saber. Hoje não haveria. Há países muito bem preparados, com condições de cobrir até 20% de sua população e outros que não têm como cobrir nada. O governo americano, por exemplo, está longe dos 20% que é o recomendado pela OMS.
DINHEIRO – O mundo está preparado para conter uma pandemia? Que continente pode sofrer mais?
EGLI – Ninguém está preparado. Por isso estamos compartilhando patente com as empresas que têm condições de produzir o Tamiflu. Meu maior temor é a África, que não teria infra-estrutura para reagir.
DINHEIRO – E o Brasil?
EGLI – O governo brasileiro está tomando as medidas necessárias. Entre os países da América Latina, o Brasil é o melhor preparado, é o País que levou mais a sério o problema. O fato é que o Brasil precisa proteger sua avicultura. Tem um fator econômico nessa conta. Se um caso de gripe aviária for detectado aqui no Brasil o estrago para a economia será imenso.
DINHEIRO – Seria um problema de saúde que se tornaria problema econômico?
EGLI – Em alguns países o risco não bateu no bolso. Mas estima-se que a pandemia reduziria o PIB mundial em 6%.
DINHEIRO – Os casos que surgiram na Europa elevaram o risco de um contágio no Brasil?
EGLI – Em princípio sim. Esses casos da Europa são bastante preocupantes. Mas, para o Brasil, o maior risco é o caso registrado na Nigéria, que pode atingir de forma mais intensa a América Latina.
DINHEIRO – Quem mais está preparado?
EGLI – Os países nórdicos, como Inglaterra, estão bem preparados. Mas ninguém fez uma simulação verdadeira e se conscientizou da seriedade desse problema. Especialmente nos portos e aeroportos. Os países têm de cuidar em primeiro lugar de seus médicos, bombeiros, que terão de atender os cidadãos em caso de pandemia e que fazem com que o país funcione. E ninguém pensa nisso.
DINHEIRO – Isso resultaria em milhões de dólares em encomendas de medicamentos...
EGLI – A indústria farmacêutica, muitas vezes, é mal entendida. Considerada como parte do problema e não parte da solução. A gente quer superar isso. Muito do atual progresso da medicina veio graças ao avanço da indústria farmacêutica, que desenvolveu e inovou em novos medicamentos, tratamentos, diagnósticos. Se fala sobre o preço dos remédios, mas não sobre quanto foi investido neles.
DINHEIRO – O Tamiflu, único medicamento que combate o vírus, se tornou aposta mercadológica da Roche?
ERNEST EGLI – Ele foi criado para combater o vírus da gripe. Só nos EUA morrem 50 mil pessoas por ano com gripe. Nem sabíamos da existência da gripe aviária. Três anos após o lançamento, ele não era um êxito comercial.
DINHEIRO – Mas ele rendeu US$ 1 bilhão em negócios em 2005...
EGLI – Os primeiros casos da gripe de aves foram detectados há três anos pela Organização Mundial de Saúde, que nos pediu para elevar a produção. Não chegamos a fazer testes clínicos mas o medicamento foi considerado eficaz porque impede a reprodução do vírus que tenha a proteína N em sua composição, como o H5N1 da gripe aviária. Essa proteína não é mutável.
DINHEIRO – Em quanto foi ampliada a produção do Tamiflu?
EGLI – Investimos milhões de dólares para aumentar em 10 vezes a capacidade de produção. Uma decisão de risco pois não havia garantia de êxito comercial.
DINHEIRO – Quem pode produzir o medicamento além da Roche?
EGLI – Autorizamos laboratórios da Ásia. O Shanghai Pharmaceutical Group, da China, e o Hyderabad, da Índia.
DINHEIRO – O Brasil poderia obtê-la?
EGLI – A Roche selecionou por capacidade técnica. No caso do Brasil, recebemos uma proposta, mas o laboratório nem tinha instalações para a construção de uma unidade fabril. Foi por isso que demos a licença para chineses e indianos. O processo de fabricação do Tamiflu é complicado, exige investimento elevado.
DINHEIRO – Qual será a perda de faturamento com a liberação de patentes para os asiáticos?
EGLI – Tem de haver equilíbrio entre ser socialmente responsável e cuidar dos interesses comerciais. Vamos supor que a Roche não aceitasse que essas duas empresas produzissem o medicamento e amanhã tivesse início uma pandemia e a Roche sozinha não desse conta de fabricar tudo o que o mundo precisa? Seria o caos.
DINHEIRO – Os genéricos prejudicaram os negócios?
EGLI – Sim. Ninguém investe num país que ameaça com quebra de patentes. Não se pode estimular o genérico fazendo ameaças à indústria que investe em pesquisa.
DINHEIRO – O sr. está se referindo à política adotada quando José Serra ainda era ministro da Saúde do Brasil?
EGLI – O Brasil já superou essa fase. Realmente o genérico teve um impacto forte na indústria do País. No caso da Aids, o que houve foi uma ameaça do governo para abaixar preço. Hoje não temos mais pressões desse tipo.
DINHEIRO – Isso tirou o País do foco dos investimentos?
EGLI – Sim. A valorização do real, a pressão para queda dos preços mais as ameaças de quebra de patentes nos assustaram. Hoje a situação é mais tranqüila. Esperamos que esses problemas sejam parte do passado e que nunca mais voltemos a falar nesse tipo de coisa. Acho que o Brasil tem muito potencial. Convivemos com o genérico apesar de acharmos que ele não cumpre o seu papel.
DINHEIRO – Como assim?
EGLI – Porque o genérico no Brasil não chega aos mais necessitados. Ele chega à classe média, mas não atende a população realmente carente. Para essas pessoas será necessário um outro tipo de política. Outras formas de acesso.
DINHEIRO – O Brasil tem chances de voltar a receber investimentos da Roche?
EGLI – O Brasil tem potencial para voltar a ser o receptor dos investimentos da indústria farmacêutica na América Latina. Acho até que o Brasil tem potencial para daqui a cinco, seis anos, virar base de exportação para produtos de biotecnologia.
Mas o Brasil ainda tem dificuldades, especialmente na aprovação de preço dos medicamentos que vão entrar no País.
DINHEIRO – Mas o preço que se pratica na Europa e nos EUA para o brasileiro é caro.
EGLI – Sim. Mas o preço não é o problema. Na Europa, por exemplo, existem sistemas de reembolso bancados pelos planos de saúde e pelos governos. No Brasil há um problema estrutural de amparo social.
DINHEIRO – Quando a Roche voltará a investir no Brasil?
EGLI – Hoje temos argumentos para convencer os acionistas da Roche na Suíça a investir no Brasil. Um deles é que a Roche Brasil cresceu 32% em dólar por conta da valorização do real. Isso faz com que eles nos vejam com outros olhos. Há boas perspectivas. Outra boa notícia é que o mercado brasileiro está alcançando o mexicano. Somou US$ 7 bilhões contra US$ 7,2 bilhões do México.
DINHEIRO – Para o sr. a valorização do real é boa notícia?
EGLI – Para mim é uma boa notícia. Claro que a valorização tem seus impactos negativos e óbvio que eu preferiria que o crescimento vigoroso do Brasil fosse menos por conta da valorização do real e mais por conta do crescimento real do PIB e do poder aquisitivo.
DINHEIRO – Na sua opinião, a vinda de novos investimentos depende desses fatores?
EGLI – Eu acho que depende de uma consolidação do mercado brasileiro como o maior da América Latina. Esperamos um crescimento substancial também em 2006. A economia terá de ajudar e só o câmbio não vai bastar. O nosso plano é investir US$ 5 milhões por ano em cinco anos na manutenção do atual parque industrial. Não prevemos um investimento adicional neste momento, mas obviamente um ambiente favorável poderia ajudar nisso.
DINHEIRO – Em comparação com outros países da América Latina, onde a Roche tem investido mais?
EGLI – O México tem sido o principal alvo dos investimentos. Hoje só temos fábrica no Brasil e no México. No ano passado aprovamos um investimentos de US$ 50 milhões para a construção de uma fábrica nova no México. O Brasil, naquele momento, não tinha os fundamentos para brigar por essa fábrica.
DINHEIRO – E hoje? O Brasil já tem como atrair esse tipo de investimento?
EGLI – Esses investimentos são sempre planejados com três ou quatro anos de antecipação e por isso vai demorar para que o Brasil recebe um investimento desse porte. O motivo? Porque só agora a situação do País voltou a permitir que se possa planejar investimentos de novo.
DINHEIRO – A fábrica do Rio opera com quase 50% de ociosidade. Essa ocisidade seria usada na fabricação do Tamiflu no Brasil?
EGLI – Sim. Mas temos de ter muito cuidado. O Brasil não vai produzir matéria-prima para a fabricação do Tamiflu. A fábrica do Rio seria usada para uma das etapas do processo, que é o encapsulamento dos medicamentos. No Brasil não há condições para a produção da substância ativa do remédio, que é feita nas fábricas da Europa e dos EUA, em unidades com maior complexidade.
DINHEIRO – Se uma etapa da produção vier para Brasil o o governo pagaria menos na compra de Tamiflu?
EGLI – Não. O Tamiflu que seria negociado no caso de uma pandemia tem um preço fixo no mundo inteiro. Também fizemos uma doação para ONU de 3 milhões de cápsulas e vamos entregar mais 2 milhões neste ano.
Multimídia
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