Entrevistas

Nº edição: 674 | 03.SET.10 - 21:00 | Atualizado em 05.07 - 10:38

Patrícia Kamitsuji, da Fox Film do Brasil

"A pirataria pode levar 20% das nossas receitas"

O longo período de hibernação do cinema brasileiro - registrado a partir da década de 80 - parece finalmente ter chegado ao fim.

Por Eliane Sobral


Nos últimos dez anos, todos os indicadores desta indústria registram aumentos expressivos. O número de tíquetes vendidos saiu de 70 milhões, em 1999, para 112,7 milhões, no ano passado. O faturamento acompanhou o ritmo: se em 1999 foi de R$ 357 milhões, em 2009 alcançou R$ 970,4 milhões. “Números que poderiam ser maiores, não fosse a falta de salas de exibição e a pirataria”, lamenta Patrícia Kamitsuji, que há quatro anos preside a Fox Film do Brasil. Na opinião dela, o download de filmes na internet tem sido mais nocivo à indústria do que as barraquinhas dos camelôs. Acompanhe:


DINHEIRO – A pirataria é um dos grandes problemas da indústria. Quanto os estúdios perdem com isso?


Patrícia Kamitsuji – É difícil precisar quanto perco com a pirataria. Dependendo do público, pode ser mais ou menos. Se é um filme com perfil de público masculino mais jovem, que são os que mais fazem download, as perdas podem chegar a 20% da bilheteria. Quando o público é feminino, menos acostumado com isso, as perdas são menores.
 
 
DINHEIRO – A internet lhe causa mais problemas do que o camelô?

Patrícia –Sim, hoje o camelô da esquina não é o meu problema. A internet é bem pior.
 
 
DINHEIRO – O que fazer para coibir isso?

Patrícia – Acho que precisava ter uma ampla campanha de conscientização. Muitas pessoas acham que, se está na internet, não é crime. É preciso mostrar que copiar da internet é ilegal e é o mesmo que comprar do camelô. 
 
 
DINHEIRO – Empresários de vários setores estão chamando a atenção para a falta de infraestrutura no Brasil. O mesmo acontece na indústria do cinema? 

Patrícia – Não tenha dúvida. O maior sucesso do cinema atual é Avatar. Nos países em que o lançamento aconteceu em mais de 200 salas, a receita passou dos US$ 100 milhões. Aqui não chegamos a 100 salas. Foram 94 salas, para ser mais exata, e o faturamento foi de R$ 102,8 milhões. Não faturamos mais porque não existiam salas 3D suficientes para atender à demanda. Há público disposto a pagar mais para ver um filme em três dimensões. Para se ter uma ideia, quando lançamos A Era do Gelo, em julho de 2009, eram 70 salas. E isso já era bem mais em relação a Monsters X Aliens, de março daquele ano, quando tínhamos apenas 45 salas com projeção em 3D. Hoje já temos 150 salas e chegaremos ao final do ano com pelo menos 200. 
 
 
DINHEIRO – Mas estamos falando de uma tecnologia específica e que ainda é nova. Não é natural que demore para maturar? 

Patrícia – Não faltam salas apenas para o cinema 3D. Mesmo aqui em São Paulo, não é todo bairro que tem uma sala de cinema comum. Se compararmos com o mercado mexicano, cujo perfil é bem próximo ao do brasileiro, dá para ter uma ideia melhor do que estou falando. Lá, são 4,5 mil salas, enquanto aqui são apenas 2,4 mil. E eles têm 100 milhões de habitantes. Então não dá para entender por que o Brasil não tem cinco mil, seis mil salas de cinema. 
 
 
DINHEIRO – Apesar da falta de infraestrutura para exibição, o Brasil tem apresentado bom desempenho em termos de receita? 

Patrícia – Muito bom. Em 2009, a bilheteria foi de R$ 970,4 milhões e 112,7 milhões de tíquetes vendidos. Só no primeiro semestre deste ano, crescemos 18,1% em bilheteria e 7% em público. 
 
 
DINHEIRO – O que impulsionou esse crescimento? 

Patrícia – São vários fatores. Mas, no nosso caso, o filme foi fundamental. Fomos muito bem em janeiro com Avatar. Alvin 2 fez mais de cinco milhões de ingressos. Desde janeiro a gente vem fechando com números acima do registrado no mês anterior. Em junho, mesmo com a Copa do Mundo, conseguimos bons resultados, inclusive por conta do lançamento de Encontro explosivo, com Tom Cruise e Cameron Diaz no elenco. Como fugimos da data de lançamento nos Estados Unidos, que coincidia com a Copa, conseguimos agenda para trazer Cruise e Cameron para promover a produção e isso foi muito bom. Data é crucial para o cinema em todo o mundo e é uma das variáveis para o sucesso de uma produção.  
 
 
DINHEIRO – Como um estúdio define quanto vai investir numa produção? 

Patrícia – Em primeiro lugar, os parâmetros nascem com credenciais como diretor, elenco, efeitos que serão utilizados e data prevista para o lançamento. Dependendo das respostas a essas perguntas, já se sabe que o estúdio está apostando num blockbuster (sucesso de vendas) e os escritórios regionais, como é o caso da Fox do Brasil, se preparam para um grande lançamento. Minha primeira preocupação é reservar uma data. Por exemplo, se a Fox vai lançar o filme nas férias de verão dos Estados Unidos, é porque é um filme com grande potencial. Agora, nem sempre a data americana é a melhor para o mercado brasileiro, por exemplo. 
 
 
DINHEIRO – Como foi a preparação para Avatar?

Patrícia – Iniciamos os trabalhos no, então, chamado James Cameron Project, com três anos de antecedência. E não é difícil entender essa antecedência. Qual era o nosso parâmetro? Esse é um filme do Cameron, o mesmo diretor de Titanic. E também é um filme em terceira dimensão. Com essas e outras informações, estávamos nos preparando para algo grandioso.
 
DINHEIRO – A sra. falou que as subsidiárias assistem ao filme para confirmar se o título tem mesmo o potencial imaginado para aquele mercado. Já aconteceu de fazerem apostas erradas? 

Patrícia – Não é frequente, mas acontece sim. Solaris, que conta a história de um homem que vai para outro planeta e reencontra a mulher que tinha morrido na terra,  é um exemplo real. Foi lançado em 2003. Tinha George Clooney no elenco, era dirigido pelo Steven Soderbergh e, com essas credenciais, era uma grande produção. Pensamos em várias cópias, avisamos o mercado de que vinha um filme grande e que era para todo mundo se preparar. Quando assistimos ao filme, um olhou para a cara do outro e falou: “Esse filme não é pipoca.” 
 
 
DINHEIRO – O que é filme pipoca? 

Patrícia – Filme pipoca é aquele que todo mundo comenta, todo mundo quer ver, atrai vários tipos de público. Solaris era uma coisa mais sofisticada, uma ficção científica mais autoral. E aí, o que a gente faz? Lançamos com 200 cópias ou redimensionamos e evitamos um prejuízo maior? Apesar de termos feito um investimento grande em trailers e material promocional com tudo pago, redimensionamos para 30 cópias. Lançamos em salas mais sofisticadas e o filme, dentro dessas dimensões, não deu prejuízo. O mesmo aconteceu com Avatar, só que ao contrário. A gente sabia que era filme grande (o investimento estimado foi de US$ 500 milhões). Planejamos às cegas, com base nos dados que tínhamos recebido. Quando assistimos, pudemos respirar aliviados. 
 
 
DINHEIRO – Mas há sempre o risco. Grandes estúdios quebraram e outros quase foram à bancarrota por decisões equivocadas.

Patrícia – Como qualquer outra indústria, tentamos minimizar os riscos. Claro que há apostas erradas, como acontece nos outros negócios, mas os métodos de análise e avaliação se aperfeiçoaram e hoje é muito difícil você ouvir o caso de algum estúdio que aposte tanto sem obter retorno que pague, ao menos, os custos de produção. 
 
 
DINHEIRO – Quais são as outras fontes de receitas que um filme pode gerar? 

Patrícia – A bilheteria de cinema é a principal delas. Mas ainda há o DVD, a tevê a cabo e depois a tevê aberta. Até um filme chegar em uma Rede Globo, em um SBT ou em uma Record, ele já se pagou. Agora, o cinema é a ponta de lança dessa trajetória e é também o primeiro sinalizador. Os estúdios são empresas que têm acionistas e precisam dar resultados. E a maior pressão por estes resultados acontece no cinema. Eu diria que o grande objetivo dos estúdios é fazer com que o cinema pague pelo menos o que foi investido em produção e lançamento. A partir daí, o que vier é lucro.  
 
 
DINHEIRO – Quais são os planos da Fox com o cinema nacional? 

Patrícia – O potencial do cinema brasileiro é enorme e se confirma a cada ano. Tivemos grandes bilheterias com Lisbela e o prisio-neiro e Se eu fosse você. Vamos lançar Nosso lar, que será um grande sucesso, com certeza. A temática espírita está muito valorizada aqui e o filme é inspirado em uma das principais obras de Chico Xavier. Este é um filme no qual estamos apostando muito. 
 
 
DINHEIRO – Esses filmes religiosos têm mais apelo junto ao público? 

Patrícia – Para um país com o perfil religioso como o do Brasil e com a presença de tantos espíritas, este é sim um segmento de peso. E tem um componente importantíssimo. Quando você lança filmes que o público feminino gosta, o filme acontece. Mulher recomenda, mulher faz boca a boca. Você já viu um homem dizendo para outro que ele tem de assistir a tal filme, que é sensacional? Mulher adora dar dicas. Não fosse a presença das mulheres, a indústria do cinema seria outra.  

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          em 15/12/2010 13:11:23

          Isso é tudo balela. na verdade, o download de filmes, que não é pirataria - pois ninguém baixa filme pra vender, ajuda a divilgar o cinema (*veja exemplo de tropa de elite)

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            • Victor Bonan Barbosa

              em 20/10/2010 12:47:33

              A pirataria atualmente só existe na internet, e eu ia tentar explicar porquê, mas esses caracteres não me deixariam fazê-lo. Então, respondam apenas a uma pergunta; quem compra CD/DVD virgem vai fazer o que com isso? Gravar uma cópia de alguma coisa certo? Qual a diferença entre músicas e filmes?

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              • Tulio Viana

                em 22/09/2010 09:19:49

                Ótima entrevista! (ironia) Perguntas sem respostas: pq os filmes de maior sucesso são também os mais pirateados? E mais: O problema da pirataria tem haver com conscientização (blablabla) ou uma demanda não atendida do público?

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                • Leonardo Albuquerque

                  em 05/09/2010 23:35:21

                  A falta de visão dos empresários cinematográficos é impressionante. A melhor forma de combater a pirataria é baixar os preços e antecipar o lançamento dos filmes no mercado nacional. Como a informação caminha rápido hoje, ninguém quer esperar 11 meses para ver um filme que tem notícias em sites.

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