Entrevistas

Nº edição: 666 | 09.JUL.10 - 18:00 | Atualizado em 01.07 - 03:41

Paulo Godoy, presidente da Abdib

"A infraestrutura exige R$ 160 bilhões ao ano''

Quando a economia brasileira ficou mais estável, em meados dos anos 90, tanto empresas nacionais quanto estrangeiras passaram a investir em expansões, mas um grande problema ficou ainda mais evidente: a falta de infraestrutura.

Por Crislaine Coscarelli


Falta de portos, de ferrovias, de energia e até de saneamento para dar suporte ao desenvolvimento esperado para os próximos anos. A previsão da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) é de que até 2014 será necessário investir R$ 160 bilhões anuais para reduzir os gargalos em vários setores e assim atender à crescente demanda por infraestrutura. Em entrevista à DINHEIRO, Paulo Godoy, presidente da entidade, detalha os papéis esperados para os setores público e privado nessa empreitada. Revela, também, os projetos com prioridade para que possamos sediar a Copa e a Olimpíada, estimular a instalação de novas empresas e favorecer o crescimento que a exploração do pré-sal deve incentivar.


DINHEIRO – O setor de infraestrutura é um dos mais deficientes em termos de investimentos. Quando, de fato, ele decolará?

PAULO GODOY –
O melhor momento ainda vai chegar. Temos alguns números que podem provar isso. Em 2003, estávamos investindo em transportes R$ 7,7 bilhões por ano, por exemplo, e viemos evoluindo. Nos anos seguintes, isso dobrou e em 2009 chegamos perto dos R$ 20 bilhões anuais de investimentos em transportes. Achamos que em 2014 esse número vai chegar a R$ 24 bilhões por ano. Ficamos muito tempo sem investir e isso fez com que acumulássemos gargalos, que ficaram mais evidentes quando começamos com o processo de crescimento contínuo da economia.
 

DINHEIRO – Quais seriam os principais gargalos?

PAULO GODOY –
O mais evidente está na logística, que vai desde o transporte urbano até os portos, aeroportos e rodovias. Mas esses gargalos começaram a diminuir quando foi aprovada a lei de concessões, que permitiu agregar novos atores para investir na infraestrutura. Começamos a reconstruir essa possibilidade de investimento a longo prazo. Eu acho que na infraestrutura, como em outras áreas da economia brasileira, a sensação é a seguinte: bastante já foi feito, mas ainda há muito mais a ser feito.
 

DINHEIRO – E o que falta fazer?

PAULO GODOY –
Precisamos dar conta do crescimento vegetativo, porque, se a economia continuar crescendo 5% ao ano, o investimento na infraestrutura precisa acompanhar melhor essa taxa de crescimento. Só que a necessidade de investimento hoje é muito maior, porque há gargalos acumulados. A nossa estimativa é de que precisamos chegar a 2014 com investimentos da ordem de R$ 160 bilhões por ano em todos os setores da infraestrutura.
 

DINHEIRO – Mas de onde virão esses recursos?

PAULO GODOY –
Um dos elementos importantes é o investimento do BNDES, tanto na indústria quanto na infraestrutura. Entre 2003 e 2004, foram R$ 14 bilhões, mas chegamos a R$ 38 bilhões em 2008 e em 2009 foram R$ 68 bilhões, sendo R$ 20 bilhões de apoio à Petrobras. Agora um dos desafios para atingirmos o total de R$ 160 bilhões anuais de investimento é obter novas fontes de recursos, senão vamos sobrecarregar o BNDES, já com R$ 140 bilhões de empréstimos por ano.
 

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"O governo deve dizer à Infraero quais investimentos devem estar prontos até 2014"
Um dos saguões do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos

DINHEIRO –  E como seria a criação dessas fontes alternativas?

PAULO GODOY –
Essa tarefa é um pouco complexa e não tem uma receita só. O mercado de capitais é uma fonte. A outra seria o desenvolvimento de fundos especializados em infraestrutura. Já existem diversos deles  e achamos que haverá uma forma de ampliar a ação desses fundos por meio da popularização das cotas.
 

DINHEIRO – Como seria a popularização?

PAULO GODOY –
Inicialmente, os gestores dos fundos emitem cotas  e os investidores de longo prazo as compram. Se começam a demonstrar bom desempenho e segurança, os fundos crescem. O passo seguinte é uma expansão do mercado desses papéis em direção  a várias áreas de infraestrutura. A popularização surgirá quando eles entrarem nas listas que os bancos apresentam aos correntistas, para aplicações de R$ 5 mil, R$ 10 mil.
 

DINHEIRO – A indústria nacional está em busca de parceiros externos?

PAULO GODOY –
Está em busca de investidores. A fase de concorrência já passou e quem veio para o Brasil e montou sua empresa aqui tem os mesmos direitos e deveres de uma companhia brasileira.  E, para quem mais quiser vir, o mercado continua aberto.
 

DINHEIRO – As empresas  já instaladas no País dão conta da demanda?

PAULO GODOY –
Dão conta, de sobra. Do ponto de vista de desenvolvimento e de empreendedorismo.
 

DINHEIRO – Mesmo com toda essa gama de novos projetos para acontecer – Copa do Mundo, pré-sal e Olimpíada?

PAULO GODOY –
Eu acho que dá. Quer dizer, tem novas tecnologias, que é o caso do pré-sal, para o qual certamente virão novos atores.
 

DINHEIRO –  Supondo que o sr. fosse convidado para participar do governo, qual seria a sua primeira atitude em relação à infraestrutura?

PAULO GODOY –
Eu começaria definindo mais e melhores marcos regulatórios em todas as áreas de infraestrutura. Criaria, também, modelos para aferir o desempenho das agências reguladoras como Anac, ANP e todas ligadas ao setor. É preciso cobrar delas resultados práticos, assim como se cobra nas empresas privadas.
 

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"O pré-sal vai fazer com que a indústria de base se desenvolva ainda mais"
Plataforma de exploração no litoral brasileiro

 

DINHEIRO –  O acidente com a plataforma da BP no Golfo  do México pode levar a regras ambientais mais rígidas dentro do novo marco regulatório do petróleo, adiar a exploração do pré-sal e também os investimentos?

PAULO GODOY –
Acho que não. A avaliação que nós fazemos é de que o acidente, felizmente, não ocorreu no Brasil, e que, depois disso, os técnicos, fabricantes e empresas especializadas em mitigação de riscos estão estudando o que aconteceu para aumentar a segurança. Creio que o acidente traz como consequência desenvolvimento tecnológico na prevenção ou em sistemas que possam dar segurança dupla aos procedimentos. A Abdib é defensora do desenvolvimento dessa indústria no Brasil, porque não faria sentido ter uma das maiores reservas do mundo em águas profundas, sem tentar desenvolver aqui uma indústria para explorá-la.
 

DINHEIRO –  Dentro desse contexto, o que se espera do novo governo?

PAULO GODOY –
Que mantenha essa política de aumento progressivo do componente de nacionalização. Também esperamos que mantenha os programas de auxílio ao desenvolvimento tecnológico.
 

DINHEIRO – Com relação à infraestrutura para a Copa e Olimpíada, os aeroportos estão na linha de frente. Recentemente, tivemos a aprovação da primeira concessão privada para um aeroporto, o de Natal. Isso é um passo para garantirmos que o País receberá bem esses eventos?

PAULO GODOY –
O que precisamos tentar fazer é deixar legados. Não vamos fazer uma boa intervenção nos aeroportos somente para a Copa, mas estimulados por ela. Se o próximo governo quiser que a Infraero continue a operar os aeroportos, que ela o faça por meio de contrato de concessão, no qual esteja previsto que para a Copa de 2014 é preciso, por exemplo, que o aeroporto de Guarulhos, o Tom Jobim ou o Guararapes estejam nas condições mínimas, que haja uma lista do que precisa ser feito e as regras a serem cumpridas. Se ela não cumprir, a concessão deve ser cassada e uma licitação aberta para que outro assuma a responsabilidade.
 

DINHEIRO – O que é prioritário na área aeroportuária?

PAULO GODOY –
Um terceiro aeroporto no entorno da capital paulista é uma alternativa, a ampliação do aeroporto de Guarulhos outra e a ampliação de Viracopos, uma terceira. Além disso, a ligação a metrô e ferrovias se tornou uma necessidade urgente para esses aeroportos. Há um gargalo visível e inúmeras alternativas, inclusive algumas que podem ser implementadas ao mesmo tempo. Ao planejar a ampliação da capacidade aeroportuária em quaisquer cidades brasileiras não podemos pensar somente em atender à demanda atual, mas, também, à futura.
 

DINHEIRO – Na sua opinião, se a operação dos aeroportos ficar só com o governo os investimentos serão feitos a tempo?

PAULO GODOY –
Com o contrato de concessão, tudo melhora muito. Enquanto não se resolve isso, o governo tem de determinar à Infraero, de forma clara, que investimentos devem estar prontos até 2014. Mas tem muito mais coisas a serem feitas, porque você pode resolver o problema no aeroporto e depois colocar todo mundo dentro de táxis que vão congestionar as ruas da cidade, porque falta infraestrutura de transporte público. Então, é preciso coordenar essas coisas. Não dá para resolver todos os problemas das cidades só por causa da Copa do Mundo, mas dá para melhorar bastante.
 

DINHEIRO – O Morumbi  foi cortado como opção para os jogos na cidade de São Paulo. O sr. acha possível São Paulo ficar fora da Copa e, consequentemente, deixar de receber os investimentos em portos e aeroportos?

PAULO GODOY –
Acho lamentável imaginar a cidade de São Paulo fora de uma Copa do Mundo, não só pela importância econômica e por ser a maior cidade do País, mas também pela força do futebol no Estado. Mas há esse fato de o Morumbi ser um estádio privado. Então, as dificuldades de se investir dinheiro público nele são compreensíveis. Mas, no caso do aeroporto de São Paulo, os investimentos já estão atrasados, o aeroporto já é um caos. Todos os governos sabem que, independentemente da Copa, o problema dos aeroportos em geral tem de ser resolvido.

 


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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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  • Umlebosu

    em 27/02/2011 00:38:05

    Salbutamol

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    • UNZiOpRJeJmQeH

      em 16/02/2011 11:13:01

      sky.txt;5;5

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      • Mario Cesar Muriel

        em 27/08/2010 17:33:57

        Empresarios com boa demanda de consumo de seus produtos,freiam sua producao por falta de CREDITO. Money,so especulando.

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        • EDUARDO UCHOA

          em 10/07/2010 18:49:23

          O BNDES NÃO EH A SALVAÇÃO. EH PRECISO QUE O GOVERNO DESESTIMULE A COMPRA DESENFREADA DE TITULOS PUBLICOS O QUE FARAH COM QUE BANCOS PRIVADOS EMPRESTEM A PROJETOS, QUE OS FUNDOS DE PENSÃO APOIEM PROJETOS DE INFRA E QUE OS EMPRESARIOS CORRAM RISCO; TAL QUAL EIKE BATISTA. SEM RISCO SEM SOLUÇÃO.

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