Entrevistas
Nº edição: 549 | 09.ABR.08 - 10:00 | Atualizado em 25.12 - 02:25

William Fleckenstein
"A culpa é toda de Alan Greenspan"
O investidor americano William Fleckenstein é um iconoclasta.
Por POR LEONARDO ATTUCH
O investidor americano William Fleckenstein é um iconoclasta. O livro que ele acaba de lançar nos Estados Unidos, e que já está entre os mais vendidos na categoria economia e negócios, tem como alvo uma vaca sagrada do mercado financeiro. Ninguém menos que Alan Greenspan, que foi chairman do Federal Reserve, o banco central americano, durante 18 anos, até deixar o cargo em 2006. O título, As Bolhas de Greenspan, já é provocativo. Mas o subtítulo – A Era da Ignorância no Fed – vai ainda mais longe. Segundo o autor, que comanda a gestora de fundos Fleckenstein Capital, em Seattle, não há exagero. “Ao reduzir continuamente os juros, ele alimentou uma onda de especulação sem precedentes na história americana e o resultado é essa crise”, diz ele. A seguir, sua entrevista.
DINHEIRO – Alguns anos atrás, Alan Greenspan, chairman do Fed, era chamado de “maestro”. É correto culpá-lo pela crise financeira americana?
WILLIAM FLECKENSTEIN – Claro que sim. Alan Greenspan foi um assoprador de bolhas serial. E não é isso o que se espera de alguém com a sua responsabilidade, no comando da maior economia do mundo. O principal culpado por esta crise é, sem dúvida, ele.
DINHEIRO – Mas por que a percepção em relação a ele está mudando tão rapidamente?
FLECKENSTEIN – O fato é que Alan Greenspan jamais foi um maestro. Aquilo tudo era apenas um mito e uma terrível ilusão. Aos poucos, as pessoas estão migrando para o meu ponto de vista, que já vem de muito tempo. Não é de agora que digo essas coisas. As percepções mudam quando as pessoas se dão conta de que as premissas anteriores eram falsas. Mas eu lhe digo o seguinte: a percepção pública em relação a Greenspan ainda tem um caminho a percorrer – e vai mudar para pior.
DINHEIRO – Quais foram os principais erros que ele cometeu à frente do Fed?
FLECKENSTEIN – O principal erro foi conduzir uma política monetária excessivamente frouxa. Em várias ocasiões, ele continuamente reduziu as taxas de juros, quando deveria ter feito o contrário. E, quando surgiram bolhas no mercado acionário ou no mercado de crédito, ele as racionalizou exaltando as virtudes da economia. Era aquela história de nova economia, lembra? Dizia-se que os ciclos econômicos iriam acabar, em função da revolução tecnológica e dos ganhos de produtividade. E nada disso, como estamos percebendo agora, era verdade.
DINHEIRO – O que ele deveria ter feito?
FLECKENSTEIN – Um presidente de um banco central não pode jamais subestimar os sinais de perigo. Ele deveria ter prestado atenção a eles e apertado o crédito no instante em que era claro para todos os analistas que havia uma bolha artificial na Nasdaq e no setor de tecnologia. Como ele não agiu, acabou contribuindo para que a bolha da internet crescesse e contaminasse outros setores da economia.
DINHEIRO – Alguns anos atrás, o próprio Greenspan cunhou a expressão “exuberância irracional” para se referir aos mercados financeiros. Isso não mostra que ele sabia dos perigos?
FLECKENSTEIN – Ele cunhou essa expressão em 1996, mas, como se pode ver no meu livro, ele abandonou a idéia rapidamente. Constatou o fenômeno, mas não fez nada para combatê- lo. Depois, ele nunca mais disse nada a respeito, o que fez com que os perigos de um crash financeiro crescessem de forma dramática.
DINHEIRO – Quem deveria estar sentado no comando do Fed para evitar que essa crise ocorresse?
FLECKENSTEIN – Uma pessoa como Paul Volcker, que esteve à frente do Fed no início dos anos 80, teria não só reconhecido os perigos como também tomado as medidas necessárias. Ou seja: apertado o crédito e elevado as taxas de juros. Se isso tivesse ocorrido, não teríamos vivido a exuberância irracional, mas também não estaríamos diante de uma crise como a atual.
DINHEIRO – O atual chairman do Fed, Ben Bernanke, estudou muito a Grande Depressão e dizem ser um especialista no tema. É a pessoa certa para salvar a economia americana?
FLECKENSTEIN – Não. Ben Bernanke age de maneira idêntica à de Alan Greenspan. Os dois seguem o mesmo manual e Bernanke também é um assoprador de bolhas.
DINHEIRO – Como assim? DINHEIRO – Juros baixos não funcionariam mais, no contexto atual? Seriam como a droga que já não faz efeito? DINHEIRO – E o que precisa ser feito para solucionar os problemas? DINHEIRO – Quais são os efeitos da era Greenspan sobre o dólar? DINHEIRO – O euro passaria a ser a nova moeda global? DINHEIRO – Qual é a sua opinião sobre a crise bancária? O governo americano agiu bem ao socorrer o Bear Stearns? DINHEIRO – A crise pode piorar? Já há quem compare a situação à de 1929... DINHEIRO – De que maneira a crise dos Estados Unidos irá afetar a economia global? O sr. acredita na tese do descolamento? DINHEIRO – Seu livro aborda as raízes monetárias da crise. Mas a guerra do Iraque não seria uma causa fiscal? DINHEIRO – De quanto tempo os Estados Unidos precisam para se recuperar de todos esses problemas? DINHEIRO – Os problemas de crédito limitam- se ao setor imobiliário? DINHEIRO – Isso significa que a crise pode se alastrar por outros setores? DINHEIRO – Levando em conta que há uma eleição presidencial nos Estados Unidos, qual é o melhor candidato para enfrentar a crise: Barack Obama, Hillary Clinton ou John McCain? DINHEIRO – O plano anunciado nesta semana para aumentar a regulamentação do sistema financeiro pode funcionar? DINHEIRO – O sr. leu o livro “A Era da Incerteza”, de Alan Greenspan? O que achou? DINHEIRO – Mas o sr. avalia que ele escreveu logo depois de sair do Fed para melhorar seu lugar na história?
FLECKENSTEIN – Quando Bernanke reduz os juros de curto prazo, ele está cometendo exatamente os mesmos erros de Greenspan. A diferença é que os comete com muito mais intensidade.
FLECKENSTEIN – Exatamente. A verdade é que taxas baixas não vão solucionar o problema do estouro da bolha no mercado imobiliário. E é por isso que os períodos de euforia no mercado financeiro têm sido cada vez mais curtos depois de cada novo corte de juros. Portanto, a mensagem que vem do mercado é clara: os problemas reais da economia não vão ser solucionados com artificialismos monetários.
FLECKENSTEIN – Em primeiro lugar, temos de deixar de buscar a solução nas taxas de juros. Não há mais espaço para mágicas. O que o Fed fez nos últimos anos – e continua fazendo – está na raiz de todos os nossos problemas econômicos. Outro ponto importante é aumentar a taxa de poupança nos Estados Unidos. Nós, os americanos, poupamos muito menos do que europeus ou asiáticos. Finalmente, deveríamos parar de especular tanto.
FLECKENSTEIN – Dramáticos. Tenho receio de que a nossa moeda acabe se transformando num novo peso.
FLECKENSTEIN – Não tenho certeza. Talvez o mais plausível seja imaginar um mundo diferente daquele dos últimos 50 anos, em que o dólar foi a grande reserva de valor global. Imagino uma situação mais equilibrada, sem nenhuma moeda dominante. E, como reserva de valor, avalio que o ouro ainda é melhor do que o euro.
FLECKENSTEIN – Foi uma péssima idéia. Esses resgates financeiros são sempre ruins e explicam, em grande medida, a crise que estamos vivendo hoje. Basta ver como os nossos problemas pioraram desde que Greenspan decidiu socorrer o fundo LTCM, em 1998.
FLECKENSTEIN – Sim, pode piorar – e muito. Principalmente porque, ao atingir a bolha do setor imobiliário, ela atinge o motor da economia americana nos últimos cinco anos. E era essa especulação imobiliária que vinha distorcendo os números de crescimento dos Estados Unidos entre 2002 e 2007. Depois do estouro da bolha, não sei o que iremos colocar no lugar.
FLECKENSTEIN – Na verdade, eu sou cético em relação a isso. O fato, incontestável, é que os Estados Unidos ainda têm uma participação muito grande no PIB mundial, próxima a 30%. Portanto, uma crise na economia americana sempre terá repercussões, em algum grau, no restante do mundo.
FLECKENSTEIN – A guerra no Iraque, de fato, tem sido um monumental desperdício de dinheiro dos contribuintes americanos. Mas esse não é, como você mesmo disse, o foco principal do livro.
FLECKENSTEIN – A crise é muito séria e não sairemos dela em menos de dois anos. Aqueles que estão prevendo um período curto de recessão, seguido de uma retomada, estão sendo otimistas.
FLECKENSTEIN – Na minha avaliação, a maior parte dos créditos podres está ligada às operações com imóveis. A bolha do setor residencial já estourou, mas há também muita coisa suspeita no setor de escritórios. E a grande verdade é que os consumidores americanos, de maneira geral, endividaram- se além da conta, em função das bolhas artificiais de Greenspan.
FLECKENSTEIN – Em geral, é isso o que acontece nas recessões. Problemas de um determinado setor atingem outros, que provocam um efeito em cadeia. Desta vez, não será diferente.
FLECKENSTEIN – Acho que nenhum dos três tem a menor idéia daquilo que está realmente acontecendo. E, como não há a devida compreensão dos problemas, não imagino que eles possam ter a solução. Na verdade, eu diria até que a crise é tão séria e tão grave que não pode ser solucionada por qualquer ato ou pacote de medidas governamentais. É o próprio sistema capitalista que terá de se reinventar e buscar uma saída.
FLECKENSTEIN – Não creio que estejamos precisando de novas leis. Aquelas que já existem, como a Sarbanes Oxley, já são duras e deveriam ser cumpridas.
FLECKENSTEIN – Li apenas algumas partes. E não gostei.
FLECKENSTEIN – Não. Na verdade, acho que ele escreveu este livro porque recebeu uma oferta milionária para fazê-lo. Quanto ao seu lugar na história, não é uma autobiografia que irá resolver o problema. Alan Greenspan será julgado por suas ações. E o resultado delas é uma das mais graves crises da história dos Estados Unidos.


















