Entrevistas

Nº edição: 184 | 02.MAR.01 - 10:00 | Atualizado em 15.03 - 18:08

MANOEL HORÁCIO DA SILVA

"SÓ FICARÃO QUATRO OPERADORAS"

Presidente da Telemar reclama das metas impostas pela Anatel, ataca critérios de aferição, mas garante que a empresa vai se manter no grupo das grandes telefônicas sem precisar de parceiro estrangeiro

Por André Jockyman


A Telemar, única empresa de capital exclusivamente nacional entre as cinco maiores operadoras de telefonia em atuação no País, reluta em assumir o papel de Davi na briga contra vários Golias. Provas estão no lance de R$ 1,1 bilhão com o qual arrematou a concessão para operar na área de celulares em 16 Estados, fora do eixo Rio–São Paulo, e na intenção de investir outros R$ 3,5 bilhões para cumprir este ano as metas estabelecidas pela Anatel para 2003 na telefonia fixa do Rio de Janeiro. Se atingir suas marcas, estará apta a expandir atividades para todo o mercado nacional e estrear na arena internacional com ligações de longa distância. Concorrentes apostam que a companhia não vai conseguir, e o próprio presidente da empresa, Manoel Horácio Francisco da Silva, reclama do tamanho da tarefa imposta pela Anatel, principalmente da obrigatoriedade de instalar 400 mil orelhões no Rio até dezembro. “Isso é desperdício de dinheiro”, ataca. “Não há renda na população para usar tantos telefones.” Queixa-se ainda que os preços da telefonia caem, e com ele suas margens de lucro, e afirma que a agência do Estado não está pronta para conferir as metas impostas. “Se uma pessoa atrás do morro reclamar que pediu um telefone há duas semanas e não recebeu, podem dizer que a Telemar não cumpriu sua meta”, critica ele. Enquanto atira para se defender, o executivo de assertivas diretas e polêmicas assegura nesta entrevista que, contra tudo e todos, vai carregar a bandeira da Telemar até fincá-la na posição de maior operadora de telefonia da América Latina.


 

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"Instalar mais 400 mil orelhões no Rio é uma meta complicada. Não há renda para isso"

 

DINHEIRO – A Anatel afirma que, até o momento, a Telemar Rio cumpriu apenas 13 de um total de 35 metas. Sua empresa vai conseguir superar esse atraso e, ainda, antecipar o cumprimento das metas de 2003?
MANOEL HORÁCIO FRANCISCO DA SILVA –
O fato de não se cumprir transitoriamente uma meta, não significa que não conseguiremos antecipar as metas de 2003 para 2001. A rede no Rio de Janeiro era antiga, com cabos com até 50 anos de uso, e havia 13 tecnologias diferentes em sua extensão. Estamos reduzindo para quatro, com apenas duas nas expansões. Também estamos aumentando a rede numa velocidade enorme, o que pode causar transtornos transitórios, como o congestionamento de linhas. Quando o trabalho for concluído, até o final deste ano, os problemas estarão todos solucionados.

DINHEIRO – E sobre a antecipação de metas?
SILVA –
Quem não antecipar metas, não poderá ser um jogador nacional. Não poderá operar em longa distância em níveis nacional e internacional, nem poderá operar em outras regiões com tudo o que opera na sua região atual. Ficará com defasagem em relação ao seu concorrente. Vai perder valor, porque os acionistas não verão a empresa como atraente. Nós não estaremos nesse grupo.

DINHEIRO – Mas o sr. tem demonstrado receio quanto aos critérios a serem usados pela Anatel na aferição do cumprimento de metas. Por quê?
SILVA –
Eles são muito complicados. Se uma pessoa atrás do morro reclamar que pediu um telefone há duas semanas e não recebeu, a empresa atendeu ou não às metas? Se esse for um fator determinante, não, a empresa não atendeu às metas. Estamos falando de um sistema de 20 milhões de terminais. Tem uma série de coisinhas, de detalhezinhos. Como vão aferir? A Anatel fala em prazo de cinco meses para confirmar se as metas foram atendidas. Cinco meses é um prazo demasiado. Se terminar em dezembro, só em maio do ano que vem eu estarei liberado. Faço esforço de 12 meses trabalhando e demoram cinco meses para auferir o que fiz, ou mais de 40% do tempo para auditar as metas. É muito tempo. Tem de haver maior flexibilidade nisso.

DINHEIRO – Qual é a sua meta principal?
SILVA –
A meta, no Rio, é de 7,5 telefones públicos por mil habitantes. Para isso, temos de instalar 400 mil orelhões no Rio de Janeiro até o final do ano. Teremos, assim, a maior densidade de telefone público de qualquer país no mundo.

DINHEIRO – Quais são os números ideais?
SILVA –
Acho que o ideal seria a necessidade por demanda. Alguém solicita um telefone público em determinada localidade, a empresa vai lá e coloca. Inexiste o cálculo de um número ideal. Se estiver atendendo bem a população com um número baixo, tudo bem. Só na região da Telemar há, hoje, 400 mil telefones públicos. E temos de instalar mais 400 mil. É dobrar a planta já feita, desde o início da Telebrás até agora, no prazo de apenas um ano. É complicado.

DINHEIRO – Os critérios de avaliação do cumprimento das metas podem mudar as atuais condições de concorrência?
SILVA –
Sim. Quem não conseguir antecipar as metas, ainda terá uma predominância em suas regiões, mas não poderá extravasar para além de seus muros, ficando a longo prazo inferiorizada em relação às outras que anteciparam as metas e tornaram-se nacionais. Esta é uma guerra na qual se tem de vencer ou vencer. Futuramente ficarão apenas quatro operadoras e a Telemar será seguramente uma delas. Há dois anos, ninguém acreditava na Telemar. O mercado mudou completamente a visão sobre ela. Provamos em dois anos que podemos fazer qualquer coisa que qualquer operadora internacional faz. Temos as melhores tecnologias, como elas. Temos a mesma competência gerencial e, em alguns casos, até mais. Temos um grande diferencial: todo o centro de decisão está no País. Consigo decisões infinitamente mais rápidas do que empresas que têm centro de decisão fora do País, como uma Embratel, uma Telefonica. Temos tido respeito pelo acionista minoritário, como nenhuma outra teve. Começamos a ser vistos como um player importante no mercado nacional. Hoje, somos o maior da América do Sul e o nosso plano é ser o maior e o melhor da América Latina.

DINHEIRO – A Telecom Italia, que acaba de arrematar a banda D em São Paulo, anuncia investimento para este ano de R$ 2 bilhões para implantar a tecnologia GSM. A Telemar, que ficou com outros 16 Estados, tem condições de fazer o mesmo?
SILVA –
Vamos começar na Banda D com a mesma plataforma tecnológica da Telecom Italia, sem perder um centímetro para ela. As mesmas tecnologias que eles vão comprar para montar a sua estrutura serão compradas por nós. O problema todo será competência mercadológica para ganhar mercado. Quem tiver mais competência, vai levar.

DINHEIRO – O sr. sugeriu à Anatel mudanças na regulamentação da Banda C e até a suspensão da exigência de leilão. O que a Telemar quer?
SILVA –
As regras da Banda C terão de ser mudadas, se quiserem realmente vendê-la. Já ouvi várias sugestões de mudança. Nós defendemos que as operadoras de telefonia fixa participem da Banda C. Como houve falha no primeiro leilão, essa banda deverá ser vendida mais barato. É uma forma de fazer com que seja mais atraente a entrada de novos operadores ou de operadores de telefonia fixa já existentes no Brasil. Pode se tornar atraente para a Telemar entrar em São Paulo ou na Região Sul.

DINHEIRO – O sr. prevê uma reacomodação do mercado das telecomunicações em 2004. Quem vai determinar isso, o próprio mercado ou a legislação?
SILVA –
O mercado vai determinar as mudanças, mas o que eu acredito mesmo é numa adequação na legislação. As previsões da Anatel não calcularam que o sistema de telefone celular pré-pago no Brasil crescesse da forma como está acontecendo. Temos metas de telefones públicos, as chamadas metas de universalização, que acho serem desperdício de dinheiro. Vamos colocar em operação a maior planta mundial de telefones públicos em termos de terminais por mil habitantes. Só que não vai haver renda para pagar essa rede. Quando a Anatel fala que ninguém pode andar mais de 300 metros para alcançar um telefone público, ela está dividindo por dois o movimento do terminal fixo. Sem pensar que a Banda B, com 25% de pré-pago, é concorrente direta do telefone público. O pré-pago é como um bip que fala, barato, porque chama a cobrar e quem recebe é que paga. É uma concorrência muito grande para o telefone público. Tem gente nas classes D e E que hoje tem telefone pré-pago. O conforto de falar num telefone móvel é muito grande, maior do que andar e procurar um telefone público. Então, a meta do telefone público deveria ser revista, porque vai fazer com que se invista sem necessidade real.

DINHEIRO – Ocorreu um erro de avaliação da Anatel ou surgiu um mercado novo?
SILVA –
O sistema inicial não falhou. Foi feito um planejamento e uma certa premissa de crescimento. Mas o crescimento de celulares está muito maior do que o previsto. O mercado está reagindo de uma forma diferente. Como em qualquer planejamento, você define uma projeção de consumo e o mercado define a sua força. Terá variáveis diferentes. O crescimento do mercado está mais rápido do que a avaliação de qualquer plano anterior. Isso está mostrando a força da economia brasileira.

DINHEIRO – Qual era a previsão inicial da planta telefônica?
SILVA –
A penetração está indo muito mais rápida do que o imaginado. No Rio de Janeiro, estaremos até o final do ano com 40 telefones por 100 habitantes e tem mais uma lista de uma espera de 1,5 milhão. O telefone era um negócio muito difícil de se ter antes. Começa agora a ficar mais acessível e mesmo as classes D e E, que nem entravam numa lista de espera, por acharem que era um sonho ter um telefone, hoje ficam na lista de espera. Eles querem um telefone fixo.

DINHEIRO – A queda no preço da linha não seria uma razão desta reação?
SILVA –
Caiu muito o preço da linha telefônica. Tem a reação à queda nos preços e a maior acessibilidade ao telefone. Hoje, com R$ 70,00, você tem um telefone ligado em casa. O telefone fixo brasileiro é um dos mais baratos do mundo. Uma ligação de um telefone fixo para outro custa R$ 0,02 por minuto, enquanto num celular se paga ao redor de R$ 0,30. A ligação pelo celular sai 30 vezes mais cara. O telefone fixo no Brasil já é um dos mais baratos do mundo e não tem muito o que cair. Vão cair os preços dos mercados mais competitivos, como o de ligações de longa distância. Ele já tem caído bastante. Afinal, são cinco empresas concorrendo nos mesmos mercados. O crescimento da concorrência na telefonia celular vai fazer com que ali também tudo fique mais barato e de melhor qualidade. A tecnologia GSM (Global System Mobile), da Banda D, é uma plataforma muito mais moderna. Se pensarmos em mobilidade, com Internet, começamos a falar em maiores velocidades de transmissão. O sistema atual, o WAP, tem oito kilobites de velocidade, o que é muito baixo. Em GSM, vai se fazer com 50 kilobites, o que é mais de cinco vezes a velocidade da WAP e já existe tecnologia para fazer com até 140 kilobites de velocidade. Tem muita coisa nova acontecendo...

DINHEIRO – A Telemar pensa em ter um sócio estrangeiro?
SILVA –
Não é uma alternativa necessária. A companhia julga ter competência para dirigir a operação de telefonia, pensar na Internet e nos outros caminhos a tomar. Ela mostrou competência ao mercado nos dois últimos anos e isso está sendo reconhecido.


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