Entrevistas

Nº edição: 803 | 01.MAR.13 - 21:00 | Atualizado em 19.03 - 19:40

Michael Mack, presidente mundial da Syngenta

"O Brasil irá saciar a fome do mundo"

O crescimento acelerado da população mundial, que passará dos atuais sete bilhões de habitantes para mais de nove bilhões, até 2050, impõe a necessidade de dobrar a produção de alimentos, segundo a FAO.

Por Hugo CILO, da Basileia (Suíça)


O crescimento acelerado da população mundial, que passará dos atuais sete bilhões de habitantes para mais de nove bilhões, até 2050, impõe a necessidade de dobrar a produção de alimentos, segundo a FAO, orga­nismo das Nações Unidas ligado à segurança alimentar. Nesse contexto, uma grande avenida de oportunidades de negócios estará aberta para o Brasil, que deverá assumir um papel protagonista na economia global, garante o americano Michael Mack, presidente mundial da Syngenta, fabricante suíça de sementes e de produtos ligados à proteção de lavouras. Em entrevista à DINHEIRO, o executivo afirma que o País é, atualmente, o único capaz de multiplicar rapidamente a produção de grãos e matar a fome de um mundo em expansão. “Assim como todas as empresas do agronegócio, nós queremos e precisamos aumentar nossa capacidade no Brasil”, afirma Mack. Acompanhe sua entrevista:


DINHEIRO – A agricultura cresce mais do que a maior parte dos setores da economia brasileira há mais de uma década, mas tem sido criticada por não agregar valor às exportações. Como equacionar essa questão? 

MICHAEL MACK – A ideia de que matéria-prima não gera riqueza a um país é equivocada. Produzir mais e mais a cada ano, em uma mesma área plantada, é uma prova de que facilmente é possível agregar valor à agricultura e às exportações. A riqueza gerada pela agricultura não pode ser ignorada em um país como o Brasil, no qual as distâncias são imensas e muita gente vive daquilo que planta e colhe. Além disso, cada vez mais os pequenos agricultores estão introduzindo tecnologia em seus processos de manejo. As novas tecnologias que estão disponíveis à grande maioria dos produtores rurais, e que estamos desenvolvendo todos os dias, permitem o aumento da produtividade por hectare. Isso é agregação de valor. 
 
DINHEIRO – A extrema dependência da soja e da cana-de-açúcar não compromete o futuro da agricultura brasileira, caso as cotações internacionais despenquem por alguma razão? 
MACK – Os preços das commodities agrícolas continuarão elevados por muito tempo, pode apostar. O milho, a soja, o arroz, o feijão, a cana-de-açúcar, a carne e todo tipo de alimento continuarão se valorizando pelo simples fato de que há milhões de pessoas comendo mais. Um exemplo disso é a soja. A produção do grão no Brasil pode crescer 50% até 2020, sem aumentar a área plantada, sem derrubar floresta ou disputar terreno com criadores de animais. A atual produtividade de 50 sacas por hectare pode chegar a 70 ou 100 sacas apenas com a utilização de tecnologia. Sementes melhores e produtos adequados para cada tipo de cultura garantem plantas mais saudáveis e produtivas.
 
DINHEIRO – Só o Brasil tem esse potencial?
MACK – Não. Há muitos outros. Eu costumo usar o testemunho da agricultura brasileira porque o território do País é fantástico para a agricultura e, cada vez mais, há um amadurecimento sólido do setor. Na Argentina, um país que também possui grandes áreas de pasto, pode-se ampliar em 40% a produção de soja facilmente. Isso também vale para outras culturas, como trigo, milho, arroz e muitas outras.
 
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Plantação de milho alagada no interior de São Paulo
 
DINHEIRO – O setor está preparado para atender, com tanta rapidez, à demanda mundial por alimentos?
MACK – Acredito que sim. Posso dar o exemplo da Syngenta. Puxado pelo Brasil, nosso faturamento com a venda de sementes, herbicidas e fungicidas cresceu 11% nos emergentes, no ano passado, contra 8% no restante do mundo. A receita global atingiu US$ 14,2 bilhões. No Brasil, em alguns segmentos específicos, chegamos a ampliar em 37% as nossas vendas em 2012. Por isso, assim como todas as empresas que atuam na indústria do agronegócio, nós queremos e precisamos aumentar nossa capacidade no Brasil. O potencial é grandioso. No ano passado, foram gastos cerca de US$ 31 bilhões nos emergentes e outros US$ 47 bilhões no restante do mundo para proteção das lavouras. 
 
DINHEIRO – Com tantos concorrentes de peso, como a Bayer e a Monsanto, qual é a estratégia para crescer no Brasil? 
MACK – Nossa ambição é levar mais tecnologia ao campo. Além disso, queremos ajudar a distribuir esses novos conhecimentos às regiões mais distantes. Não olhamos muito para os concorrentes porque estamos focados em nosso negócio, em nossas tecnologias. Faz muito tempo que plantar e colher deixaram de ser atividades rudimentares. Por isso, os produtores rurais, grandes ou pequenos, já aprenderam a distinguir produtos e sabem da importância de proteger suas lavouras. 
 
DINHEIRO – Se a agricultura é uma atividade com tecnologia, por que há tantos prejuízos com perdas de lavouras?
MACK – As diversidades climáticas têm causado muitos problemas em todo o mundo, mas podem ser minimizadas com inteligência. O clima não é possível de ser controlado, mas é possível proteger as lavouras. Parece até um argumento de vendedor, mas é pura realidade. A agricultura só é confiável se soubermos controlar doenças das lavouras, acabar com as pragas e fortalecer as plantas contra variações do tempo.
 
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Família Brito, de Goiás, dona de um pequeno sítio produtor de legumes
 
DINHEIRO – Como fazer isso?
MACK – Posso citar um bom exemplo. Desenvol­ve­mos uma tecnologia para o milho nos Estados Unidos que permitiu um aumento de 7,4% na produtividade e reduziu em 25% o consumo de água. Ou seja, mais milho e menos água apenas com a utilização de novos produtos. Em tempos de seca, como a que atingiu o território americano no ano passado, uma planta que requer menos água pode ser literalmente a salvação da lavoura. Na Índia, o uso de tecnologias salvou a produção de arroz. 
 
DINHEIRO – Em muitas regiões do País, a agricultura não cresce porque a infraestrutura é precária. Não adianta plantar porque não há meios para transportar...
MACK – Esse é um ponto muito importante. Pelo que tenho visto, existe um empenho para melhorar a questão logística. Levar o progresso às comunidades não industrializadas só é possível com o desenvolvimento da agricultura. Não é economicamente viável forçar uma montadora de automóveis, por exemplo, a se instalar em um lugar onde o acesso é difícil. A agricultura é a forma mais rápida e inteligente de gerar emprego e estimular o desenvolvimento social. 
 
DINHEIRO – O agronegócio, que deveria ajudar a distribuir renda, está muito concentrado nas mãos de grandes produtores. Isso é bom ou ruim?
MACK – Não sei muito bem como funciona o sistema de distribuição de renda no Brasil. Mas soube que as iniciativas do governo têm se mostrado muito eficientes no combate à fome e à miséria. Quem planta e colhe, vende aquilo que produz. Na minha opinião, não precisa receber dinheiro do governo para sempre. A agricultura familiar, aproveitando o potencial e a característica de cada região, é a melhor forma de garantir um futuro bom a todos. 
 
DINHEIRO – O Ministério da Agricultura brasileiro prevê que o País será responsável por 45% da produção mundial de alimentos até 2050, mais do que o dobro da participação atual. Esse número não assusta? 
MACK – Não assusta, empolga. O consumo mundial de alimentos está na Ásia, com destaque para a China e a Índia, mas a produção está na América Latina, liderada pelo Brasil. O País possui o maior potencial de crescimento de áreas cultiváveis do mundo. Acredito que o Brasil será o principal responsável por saciar a fome do mundo. 

DINHEIRO – E a realidade do restante do mundo, fora da América Latina e da Ásia? 
MACK – Na África, onde o problema da fome e da miséria é muito mais evidente do que em todo o restante do mundo, a agricultura dá a possibilidade de transformar a vida das pessoas. Estamos ajudando, inclusive com treinamento, a fazer com que pequenos produtores rurais na Etiópia, na Nigéria, no Quênia, em Uganda, entre muitos outros países, sejam grandes produtores rurais, gerando emprego e alimentos para as comunidades locais. Arroz, cana-de-açúcar e vegetais de todo tipo brotam em terras que antes não produziam nada. Em minha opinião, não faz sentido faltar comida em nenhum lugar do mundo. 
 
DINHEIRO – Se o Brasil é tão importante para o setor de alimentos, por que os investimentos são tímidos?
MACK – Não acho que sejam. Temos grandes planos para o Brasil. Pretendemos investir US$ 77 milhões na expansão da fábrica de produção de sementes de milho em Formosa, no Estado de Goiás, para quadruplicar a capacidade de produção de sementes de milho. Até 2015, será 1,6 milhão de sacas. Além disso, estamos atentos ao setor de açúcar e etanol. O Brasil tem sido um grande laboratório para o desenvolvimento de tecnologias no setor agrícola e também de mercado. O País é o único no mundo em que vendemos direto ao produtor. Cerca de 20% das vendas da Syngenta são feitas diretamente da empresa para o produtor rural, sem a intermediação de distribuidores. Isso ajuda a ter uma comunicação direta com o cliente, diretamente no campo, sabendo das necessidades de cada um em tempo real.

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  • Aldo

    em 08/03/2013 09:36:10

    Nosso pib só não foi pior, graças aos nossos agricultores, o que se faz necessario, com relação ao agronegócio, é investir melhor no sentido de agregar valores, exemplo: Uma roça de milho, produz-se o fuba na propriedade e também a guirera com o excedente, ou mesmo a farinha de milho, é positivo.

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