Estilo

Design britânico, sotaque indiano

Com uma história de 116 anos, a marca de motocicletas Royal Enfield começa a operar no Brasil, buscando desenvolver um mercado para motos estilosas

Crédito: Afp Photo / Money Sharma

De bem com a velocidade: Siddhartha Lal (à esq.), CEO do grupo Eicher, e Rudratej Singh, da Royal Enfield, colocaram a marca lendária na rota do crescimento (Crédito: Afp Photo / Money Sharma)

Quando o assunto é tradição em duas rodas, que marca vem à mente? A americana Harley-Davidson? A britânica Triumph? A elegância e a bem cultivada característica de rebeldia da linha de motocicletas americana, produzida desde 1903, pode ter feito da primeira marca um ícone global. Já a segunda empresa, que começou a fabricar motos em 1902, faz parte do imaginário dos fanáticos pelas duas rodas por ter um de seus modelos pilotado pelo ator Steve McQueen no clássico de guerra Fugindo do Inferno (1963) e outro por Marlon Brando em O Selvagem (1952). Mas a mais antiga marca de motocicletas produzidas ininterruptamente no mundo não é nenhuma delas. Mas, sim, a anglo-indiana Royal Enfield.

A empresa, que entrou no ramo das motos em 1901, na Inglaterra, desenvolveu pelas décadas seguintes modelos que atraem fãs em todo o mundo, como a Bullet, criada em 1932 e que é vendida até hoje. Durante mais de um século, a marca serviu do lado dos britânicos nas duas Guerras Mundiais, ganhou bastante popularidade na Europa nos anos 1960 e depois quase desapareceu. Só sobreviveu após a década de 1970 graças ao sucesso de uma joint venture estabelecida na Índia. Mas, mesmo com esse longo histórico, foi apenas na semana passada que a empresa desembarcou no Brasil.

O País vai receber a segunda subsidiária internacional da Royal Enfield, que faz parte desde 1991 do grupo indiano Eicher, surgido no ramo de tratores e comandado pelo empresário Siddhartha Lal. Apesar de exportar as suas motos para 50 países, a empresa possui estruturas próprias apenas na Índia e nos EUA. “Como a Índia, o Brasil é um país resiliente, com uma cultura popular forte e uma grande população jovem”, disse à DINHEIRO Rudratej Singh, presidente da Royal Enfield, e que, antes de assumir a montadora, passou 20 anos na Unilever.

Da índia para o mundo: Concessionária em Nova Delhi e fábrica em Chennai, com o empresário Lal apresentando um dos modelos. Os próximos passos estão em países como o Brasil e a Tailândia
Da índia para o mundo: Concessionária em Nova Delhi e fábrica em Chennai, com o empresário Lal apresentando um dos modelos. Os próximos passos estão em países como o Brasil e a Tailândia

A primeira loja ficará próxima do Parque Ibirapuera, em São Paulo. O objetivo é começar a testar o mercado a partir da capital paulista, criar a demanda na cidade economicamente mais importante do País e explorar ao máximo o mercado local, antes de partir para uma expansão nacional. Os modelos Bullet, Classic e Continental GT custarão entre R$ 18,9 mil e R$ 24,5 mil e serão importados. A produção da empresa é realizada apenas na região de Chennai, no Estado sulista Tamil Nadu, onde possui duas unidades industriais e começa a construir a sua terceira. Com isso, a sua produção, que chegou à capacidade máxima com a venda de 670 mil motos no ano fiscal de 2016, vai subir para 900 mil unidades até o fim de 2018.

A empresa estima vender metade das motocicletas de média potência do mundo. “Não vendemos produtos, mas a experiência de andar em motos com personalidade”, diz Singh. A marca Royal Enfield busca combinar beleza de design, no estilo britânico – graças a um centro de desenvolvimento que mantém no país europeu –, com preços mais acessíveis do que as suas concorrentes. “O mercado de motos, nos últimos 10 anos, partiu para o extremo, com veículos com uma potência impossível de ser utilizada no mundo real”, afirma Arun Gopal, chefe de negócios internacionais da companhia. “E o Brasil é um mercado único no mundo para nossos produtos, porque só aqui as pessoas usam as motos de lazer no dia a dia.”

Um sucesso no País pode garantir a continuidade da virada que a marca conseguiu nesta década, depois de décadas em baixa. Entre 2010 e 2015, apresentou crescimento de vendas em torno dos 50% ao ano. Para que o ritmo possa se manter, há três anos a decisão foi buscar o crescimento nos mercados emergentes, para compensar a estabilidade das vendas na Europa. A Colômbia foi o primeiro ponto de parada, em Bogotá, em 2015. E, no ano passado, a marca chegou a Kuala Lumpur, na Indonésia, e Bangkok, na Tailândia. “Na Indonésia, o mercado de motos é de 3,5 milhões de unidades por ano. O Brasil vende quase 1 milhão. Já a França e o Reino Unido, só 100 mil”, diz Gopal. E esses países em desenvolvimento apresentam potencial de crescimento não encontrado na Europa.

O Brasil, mesmo com a sua longa crise econômica, é atualmente o sexto maior produtor mundial de motos. Neste ano, a expectativa é atingir 910 mil unidades produzidas, com um crescimento de 2,5%. “Mesmo que os números tenham apresentado leve melhora no primeiro trimestre, o mercado segue cauteloso”, diz Marcos Fermanian, presidente da Abraciclo, a associação de fabricantes de motocicletas e bicicletas. “De qualquer forma, iniciativas como a da Caixa Econômica Federal, com a linha de crédito especial para motocicletas, e as perspectivas de estabilidade econômica devem impulsionar os negócios.” É o que espera a centenária Royal Enfield para garantir que está correta em apostar no cliente brasileiro, para continuar a sua longa história.

DIN1015-moto3