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Dá tempo de entrar na bolsa?

Índice Bovespa acumula um ganho de 22% até a primeira semana de setembro. Ainda há ganhos a ser colhidos nos pregões?

Dá tempo de entrar na bolsa?

Na quarta-feira 6, o Índice Bovespa estabeleceu um novo recorde nominal, atingindo 73.608 pontos na máxima do dia. O principal indicador do mercado fechou a 73.412 pontos, levemente abaixo do fechamento recorde de 73.518 pontos, registrado em 20 de maio de 2008. Mesmo assim, a Bolsa vem se consagrando como o melhor investimento do ano. Em 2016, a alta de quase 40% do índice se justificava pelo movimento de recuperação após a saída de Dilma Rousseff da presidência da República. Porém, a alta deste ano é diferente. Essa valorização – tida como sem fundamentos até há algumas semanas – começa a ser considerada mais sustentável pelo mercado.

E aqui cabe a pergunta de vários milhões de reais: ainda dá tempo de surfar na onda de alta do mercado? Para os especialistas, a resposta é positiva. A ênfase do sim depende do otimismo ou do pessimismo do interlocutor, mas há um consenso razoável de que as ações ainda serão capazes de dar alegrias ao investidor pelos próximos meses. Uma estimativa informal de analistas de corretoras e bancos internacionais prevê uma alta potencial de mais 22%, com o Índice Bovespa chegando a 90 mil pontos ao longo dos próximos seis meses. E há vários motivos para isso.

Janet Yellen, presidente do Federal Reserve, o BC americano: sem mudar os juros, apesar de as taxas terem caído abaixo de zero (Crédito:Chip Somodevilla/Getty Images/AFP)

O primeiro deles é meramente aritmético. Na ponta do lápis, quando se incluem os efeitos da inflação, o índice ainda está relativamente barato. Em termos reais, o patamar anterior ao feriado ainda está longe dos 125 mil pontos de há quase dez anos.
Há outras justificativas para o otimismo. Essa valorização vem ocorrendo mesmo com um cenário em geral adverso para a política, e com um dos principais indicadores da economia, o desemprego, permanecer ainda em um patamar elevado, superior a 13%. Mesmo assim, segundo os especialistas, há um elemento que, até agora, independe da política e até das decisões do governo: a inflação.

Na quarta-feira 6, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto, mostrando uma inflação de apenas 0,19% no acumulado do mês. A inflação acumulada nos oito primeiros meses do ano é de 2,46%, o menor percentual nesse período desde 1995. Não por acaso, a mais recente edição da pesquisa Focus, do Banco Central, divulgada no dia 1o de setembro, mostra que o prognóstico do mercado para o IPCA caiu para 3,38%, quase um ponto percentual abaixo da meta. “O investidor está mostrando muita confiança na economia, especialmente com esse resultado do IPCA”, diz Eduardo Roche, analista da gestora Canepa.

Pedro Paulo Silveira, economista da Nova Futura: “Os juros nos mercados desenvolvidos estão perto de zero, devem continuar assim, e isso beneficia o Brasil” (Crédito:Gustavo Lourencao/ Valor/Folhapress)

Com a inflação em franca desaceleração, apesar do reajuste dos combustíveis, os analistas começam a refazer suas contas para os juros. As estimativas para a taxa Selic no fim deste ano permanecem em 7,25%, mas cresce, no mercado, um consenso bem abaixo disso. “Os mais otimistas esperam juros de 6,5% ao ano no início de 2018”, diz Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da corretora Nova Futura. Juros mais baixos tornam as ações mais atraentes. Outro indicador positivo é a percepção, por parte dos investidores internacionais, de que o Brasil está menos arriscado. Na terça-feira 5, o prêmio dos credit-default swaps (CDS) recuou para 188 pontos-base (centésimos de ponto percentual), uma baixa de 32% no acumulado do ano.

O CDS é um derivativo financeiro internacional que serve de proteção contra um eventual calote dos títulos brasileiros. Quanto menor o seu prêmio, melhor a percepção de risco dos investidores de fora. A consequência disso é um fluxo ininterrupto de recursos externos para o mercado, que se intensificou nas últimas semanas. Segundo cálculos do mercado, até a segunda-feira 4, a soma de todas as operações de investidores internacionais, conhecida como posição comprada, está positiva em US$ 11,3 bilhões. Esses quase R$ 34 bilhões em dinheiro novo sustentam a alta das ações, e há poucos sinais de que esse dinheiro vá fugir. “Os juros nos mercados desenvolvidos estão perto de zero, devem continuar assim, e isso beneficia o Brasil”, diz Silveira. “Mesmo nos Estados Unidos há uma percepção clara de que a política monetária deverá continuar onde está.”

Assim, apesar de a rentabilidade dos títulos do Tesouro americano de cinco anos ter voltado a ficar negativa na semana que se encerrou, recuando para -0,10% ao ano, é pouco provável que Janet Yellen, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) eleve as taxas no curto prazo. Há riscos, claro. Segundo Ignácio Crespo, economista da plataforma eletrônica de distribuição de investimentos Guide, o Brasil tem se beneficiado muito do cenário externo, mas é preciso pensar em proteção, para uma deterioração do quadro internacional, ou mesmo para um resultado inesperado nas eleições de 2018. Mesmo assim, ainda dá para aproveitar um pouco da euforia dos pregões.