Mercado Digital

A conexão brasileira do LinkedIn

Como o executivo Milton Beck, que trabalhou por treze anos na Microsoft, está integrando a rede social profissional com a gigante americana no mercado brasileiro

Crédito: Felipe Gabriel

Lição de casa: para Milton Beck, CEO do LinkedIn na América Latina, a Microsoft aprendeu com acordos malsucedidos do passado (Crédito: Felipe Gabriel)

Durante treze anos, Milton Beck bateu cartão em um dos endereços mais cobiçados pelos profissionais brasileiros de tecnologia: a sede local da Microsoft. Na companhia, ele foi o responsável, por exemplo, pelo lançamento do console Xbox 360 no País, em 2006. No início de 2012, o executivo decidiu trocar os amplos escritórios da gigante americana no bairro paulistano do Brooklin por uma sala de nove metros quadrados, em Pinheiros. Naquele pequeno espaço, o LinkedIn, rede social americana voltada para o uso corporativo, dava seus primeiros passos no Brasil. Ali, Beck se acostumou a dividir a única mesa com Osvaldo Barbosa de Oliveira, ex-colega de Microsoft, que iniciara a operação, alguns meses antes.

As duas passagens do currículo de Beck formam a conexão perfeita para os desafios que o executivo de 54 anos tem pela frente. Desde setembro, ele é o CEO do LinkedIn na América Latina. Três meses antes, a empresa havia sido comprada pela Microsoft, por US$ 26,2 bilhões. Após o acordo, Oliveira decidiu deixar o comando da rede na região, alegando que tinha cumprido sua missão. Durante sua gestão, a companhia saltou de 6 milhões de usuários para 27 milhões. Da solitária dupla do início, a operação chegou aos atuais 150 funcionários.“Entre todas as empresas que poderiam comprar o LinkedIn, não haveria melhor escolha que a Microsoft”, diz Beck. “E o fato de eu conhecer a companhia só vai ajudar no diálogo entre essas duas culturas.”

Trio de ferro: Jeff Weiner (à esq.), CEO do LinkedIn, Satya Nadella, CEO da Microsoft, e Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn no comando da integração da operação global
Trio de ferro: Jeff Weiner (à esq.), CEO do LinkedIn, Satya Nadella, CEO da Microsoft, e Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn no comando da integração da operação global (Crédito:Divulgação)

O destino do LinkedIn após a aquisição foi um tema recorrente entre analistas. Um rastro incômodo de aquisições malsucedidas da Microsoft estava por trás desses questionamentos. “A Microsoft aprendeu com alguns acordos que fez no passado”, diz Beck. Ele ressalta que o CEO global Jeff Weiner permanece ditando as regras na rede social e que a operação segue independente em frentes como a definição de estratégias de vendas. “A grande sinergia, de fato, virá da soma da maior rede profissional com a maior estrutura de computação em nuvem profissional do mundo”, diz o executivo, referindo-se às plataformas da Microsoft nessa modalidade, voltadas ao mercado empresarial, como Azure e Dynamics.

Essa integração de produtos já está em execução. Mas os primeiros resultados estão sendo guardados a sete chaves. Outros sinais de como será essa relação, no entanto, começam a surgir. Na terça-feira 14, Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, passou a integrar o conselho da Microsoft. “Vou seguir me concentrando em ajudar o LinkedIn a cumprir sua missão”, afirmou Hoffman, em postagem na rede. “E vou poder contribuir para que a Microsoft siga incorporando tecnologias sociais e outros recursos aos seus produtos.” À espera dos primeiros frutos dessa união, o LinkedIn segue tocando suas estratégias no Brasil.

DIN1001-linkedin3Terceira maior operação global em número de usuários, com 27 milhões de adeptos, o escritório quer dar escala à divisão de soluções de vendas, que busca facilitar a conexão entre as áreas de vendas das empresas com seus potenciais clientes na rede. Um dos recursos para tornar essa relação mais assertiva é a sugestão de contatos em comum entre o vendedor e o responsável pelas compras. Lançada em 2015 no País, a divisão conta com mais de 70 clientes corporativos. Mesmo com a crise, as soluções de talentos, que reúnem ofertas para refinar os processos de busca de profissionais pelas companhias, também estão em alta.

“As empresas passaram a ser mais rigorosas na seleção e reforçaram o uso de tecnologia”, diz Beck. Já os usuários perceberam a necessidade de buscar novos conhecimentos e de ampliar suas redes de contatos, o que também favoreceu a rede. Para Maurício Pimentel, professor do TECH ESPM, uma das áreas de grande potencial da rede é a publicidade. Ele explica que, diferentemente do Facebook, no LinkedIn, os assuntos são mais restritos. “Isso permite que o anunciante trace um perfil mais assertivo do seu público”, afirma. “E esse segmento vai pegar fogo com a Microsoft.”

O poderio da Microsoft também é destacado por Marcelo Coutinho, coordenador do mestrado profissional da FGV. “Sozinho, o LinkedIn não teria fôlego para enfrentar o avanço de concorrentes como o Facebook”, diz. Em outubro, a rede social de Mark Zuckerberg estreou no segmento profissional, com o Workplace. Milton Beck reconhece a força desse e de outros rivais, como o Google. E ressalta os recursos financeiros, de engenharia e de infraestrutura que o LinkedIn passará a ter acesso. “Vamos ter mais segurança para executar a nossa missão.”