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Carga pesada, mas sustentável

A uberização do transporte de cargas é a aposta da CargoX para sacudir o setor no Brasil 

Carga pesada, mas sustentável

Federico Vega, da Cargo X: “Cerca de 40% da frota brasileira está parada ou circula vazia”

Federico Vega, 35 anos, sempre foi um sujeito inquieto e com ambições profissionais e pessoais que iam muito além do que poderia lhe proporcionar sua pacata cidade natal, encravada no meio da Patagônia argentina. Aos 17 anos, ele saiu de casa para visitar o tio, em Buenos Aires, e acabou ganhando o mundo. Começou pela Inglaterra, onde estudou como bolsista em duas universidades de ponta: South Hampton e Warwick. Para complementar a renda fazia bicos como garçom e consertava pneus de bicicleta. Seu último emprego na terra da rainha Elizabeth II foi como vice-presidente de investimentos do banco JP Morgan, responsável pelas operações na Europa, na África e no Oriente Médio. Um empregão!

Mas a veia empreendedora falou mais alto. Em 2011, após sete anos de banco, ele pediu demissão e voltou a ser empreendedor, dessa vez em Santiago, onde seu software de gestão em logística venceu um concurso de startups que lhe rendeu um cheque de US$ 40 mil. Em linhas gerais, e de uma forma bastante resumida, foi assim que nasceu a CargoX.

Neste ponto é bom deixar claro que não estamos falando de uma empresa de logística convencional. Mas sim de um negócio criado a partir de uma visão estratégica e sustentável. Algo raro, mesmo num país como o Brasil, que conta com uma frota de 2,5 milhões de caminhões, dos quais 1 milhão pertencem a profissionais autônomos. Apenas para efeito de comparação, nas estradas americanas rodam apenas 400 mil veículos de carga. “Cerca de 40% da frota brasileira está parada ou circula vazia”, estima Vega. “Isso é ruim para todo o setor porque afeta as relações de trabalho e a qualidade do serviço.”

O Brasil entrou no roteiro do empreendedor argentino logo no primeiro ano de trabalho na capital do Chile. É que apesar do sucesso, Vega não se sentia realizado. “Queria criar uma empresa de grande porte capaz de resolver um problema em larga escala”, diz. A mudança definitiva do negócio para o Brasil, no entanto, aconteceu somente em maio de 2013. Isso porque, este salto exigiria muito mais capital do que a startup dispunha. Foi aí que Vega vendeu o carro e o apartamento, e saiu em busca de parceiros para bancar a empreitada.

Começou com o antigo chefe no JP Morgan, em Londres, que, antes de desembolsar qualquer centavo de dólar submeteu a proposta ao crivo do Valor Capital, um dos maiores fundos de private equity dos Estados Unidos. O modelo de negócio foi validado e, a partir daí, não apenas o antigo chefe, como também seu advogado, o fundo e empreendedores seriais, como o co-fundador do Uber, Oscar Salazar, e o banco Goldman Sachs entraram na jogada. No total, Vega amealhou US$ 49 milhões.

Num setor extremamente pulverizado e marcado por problemas de todos os tipos (violência, elevado nível de acidentes e paralisações envolvendo disputas por conta do valor do frete), a CargoX vem se saindo muito bem. Em 2015, as receitas cresceram 43% e, neste ano, têm evoluído mensalmente nessa faixa, com pico de 100% em novembro, quando comparadas a igual período do ano passado. “Minha expectativa é que o faturamento de 2016 atinja US$ 49 milhões”, diz.

O rápido crescimento se deve a inúmeras singularidades. Uma delas é o fato de o empreendedor argentino ter optado por um modelo semelhante ao do Uber e ao do Airbnb. O grande diferencial da CargoX é a inteligência e a gestão do processo de transporte. Para isso, Vega recrutou profissionais nas maiores empresas do mundo, como Google e Uber, especializados em logística e Tecnologia da Informação (TI). “Somos o escritório e o departamento de TI dos caminhoneiros”, brinca.

Em vez de frota própria, a CargoX conta com uma carteira de 250 mil caminhoneiros, dos quais mil prestam serviço regularmente. Todo o sistema é controlado por meio de aplicativos que mapeiam as demandas por carga e a posição dos profissionais. “Antes dos aplicativos, os motoristas autônomos tinham de ficar muitos dias parados em determinada cidade, aguardando por frete”, diz. A junção da tecnologia de ponta com a gestão do processo garante um custo 30% menor para o cliente final.

Para fazer parte do sistema, tanto o caminhoneiro quanto as empresas passam por um severo funil. Os profissionais têm seu histórico escrutinado em itens como envolvimento em acidentes, enquanto os clientes são avaliados pela forma como historicamente tratam os caminhoneiros. Quem pisa na bola está fora! Com isso, a equipe comandada pelo empreendedor argentino garante a qualidade do serviço, mesmo diante de imprevistos ou de atitudes pouco profissionais. “Queremos atuar num ecossistema sustentável, baseado na confiança e no respeito a todos os envolvidos”, diz. 


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