Edição nº 1019 19.05 Ver ediçõs anteriores

Proteção não é solução

Trump, Brexit, Temer são expressões de um mesmo fenômeno conservador, que quer proteger recursos, interesses e estilos de vida de parcelas da sociedade em detrimento do todo

Proteção não é solução

O empresário Donald Trump, candidato republicano à presidência dos EUA, que se aproveita de visões parciais e populistas para ganhar espaço

Política e economia são almas gêmeas. Uma viabiliza a outra. Uma economia consciente, capaz de atender aos novos desafios planetários é fruto de uma política em mesma medida consciente dos grandes desafios que temos diante de nós. Infelizmente, esse não é o prato que temos para hoje.

Trump, Brexit, Temer são expressões de um mesmo fenômeno conservador, que quer proteger recursos, interesses e estilos de vida de parcelas da sociedade em detrimento de um olhar mais abrangente sobre o todo. Em essência, é o interesse próprio acima do bem comum.

Beneficiam-se de frustrações (União Europeia), fracassos retumbantes (governos Dilma e descrédito da classe política) e visões parciais e populistas (candidatura Trump) para ganhar espaço, sempre com a promessa de alívio imediato, visão de curto prazo, na verdade, o pensamento mágico que desde sempre nos seduz.

Em um mundo cada vez mais complexo e totalmente interdependente, como pensar que uma solução unilateral terá sucesso?

No caso brasileiro, mesmo com o fracasso de uma doutrina baseada no Estado Forte, como acreditar que a solução virá pelas mãos invisíveis do mercado em um retorno a uma visão de mundo dos anos 90?

Se essa fosse realmente a solução, não teríamos sequer alcançado a crise atual, afinal, o mercado dita os rumos da economia global há mais de meio século. No entanto, o que vemos é o agravamento de crises sistêmicas econômicas, sociais, ambientais e de governança.

Já escrevi e repito: não é um terrível azar da humanidade que as recorrentes explosões das bolhas de crescimento, o aumento constante da pobreza, o agravamento das mudanças climáticas e o fracasso dos foros globais de negociação aconteçam ao mesmo tempo. Tudo junto e agora.

Trabalhamos diariamente para isso. Fortalecemos fronteiras sociais e geopolíticas diante de problemas globais ou regionais. Colocamos o privado à frente do público, o interesse individual antes do bem comum.

A própria democracia precisa ser renovada para atender aos novos anseios da sociedade. Também não é por acaso que no Reino Unido, nos Estados Unidos e agora no Brasil prevalece o descrédito na força do voto como instrumento de exercício político. O momento histórico pede mais do que simplesmente delegar a terceiros o direito de decidir por nós sobre tudo por quatro ou oito anos. O mundo está dinâmico demais para darmos a quem quer que seja essa procuração de plenos poderes.

Parece claro que a solução ainda está por ser criada. O passado somente serve para nos pautar sobre o que não deve ser feito. Portanto, é preciso abertura para o novo, o contraditório, a escuta empática de todas as partes. É bem verdade que, nesse momento, essa postura soa como uma utopia diante do fundamentalismo político, religioso, social e étnico que tomou conta do Brasil e do mundo.

Essa, no entanto, é a melhor alternativa para termos uma política que viabilize um arranjo econômico mais adequado para superarmos os desafios que nos cercam.


Mais posts

Todos queremos um novo estilo de vida

Se estamos divididos por classes sociais, pensamentos políticos ou visões de mundo geracionais, nos encontramos unidos pelo sentimento [...]

Como as delações da Odebrecht afetam sua empresa

O nível de confiança nas empresas já era baixo no Brasil e deverá cair ainda mais após o show explícito de corrupção

Atenção: o Dia Internacional da Mulher não terminou

Nada de rosas ou mensagens fofinhas, a hora é de encarar a desigualdade e até discutir cotas no mercado de trabalho

Quando o capital estará a serviço da economia real?

Discute-se o combate à pobreza, mas não a associam ao modelo concentrador de riqueza no qual o mercado de capitais é um mecanismo [...]

Ativismo humaniza e “descorporativiza” empresas

Defender causas como a diversidade, um mundo sem muros ou o cicloativismo conecta as companhias com a vida como ela é.
Ver mais