Edição nº 1019 19.05 Ver ediçõs anteriores

O milagre da (dí) vida

O milagre da (dí) vida

A cada 21 segundos, o milagre da vida produz um brasileiro. No exato momento em que escrevi esta frase, éramos 206.613.503, segundo a bíblia das estatísticas oficiais, o IBGE. Cada brasileirinho, menino ou menina, já nasce devendo R$ 14.700,00, mais ou menos, se considerarmos apenas a dívida mobiliária do Tesouro Nacional, que ultrapassou a cifra de R$ 3 trilhões em setembro. Este seria apenas mais um número grande e redondo, desprovido de sentido se visto de forma isolada. Mas, em perspectiva, trata-se de um triste recorde. Os R$ 3 trilhões representam 50% do PIB, ou seja, metade da riqueza nacional produzida em um ano.

Equivalem a quase cinco vezes o saldo das cadernetas de poupança. Há quem pergunte quantas escolas e hospitais poderiam ser construídos com essa fortuna. Ao custo hipotético de R$ 50 milhões cada um, em média, seriam 60 mil novos equipamentos públicos. Dobre-se o custo e ainda teríamos 30 mil escolas e hospitais a mais. Esse tipo de comparação, no entanto, nem sempre faz muito sentido. Não se deve demonizar a dívida pública. Todo país que se preza canaliza parte da poupança privada para utilizar em benefício da gestão pública.

Os R$ 3 trilhões de títulos do Tesouro são financiáveis no mercado enquanto houver confiança de que o governo irá honrar seus títulos. O problema é que a dívida pública no Brasil é maior do que parece. Some-se a ela mais R$ 1,3 trilhão em papéis federais em poder do Banco Central, que os utiliza para fazer política monetária, e chegamos ao preocupante número de R$ 4,3 trilhões, ou 71,7% do PIB. Nesse nível, o Brasil entra no terreno minado por onde explodiram países altamente endividados, como a Grécia. Se o governo continuar a gastar mais do que arrecada e aumentar sua dívida por aqui, a ruína econômica que criou 12 milhões de desempregados só tende a aumentar.

Deve-se considerar também o monumental desperdício de recursos públicos com a rolagem da dívida. As despesas do Tesouro com os juros somaram quase R$ 30 bilhões no mês passado. E foram emitidos mais R$ 78 bilhões em novos títulos. Não tem milagre: quando mais se deve, mais se paga. Não fosse tão grande a dívida, nem os juros tão elevados, essa despesa seria menor. Em vez de remunerar investidores – e ainda bem que eles existem, ou o País teria implodido nos últimos anos de irresponsabilidade fiscal –, boa parte dos bilhões gastos com juros poderia ter sido usada em programas sociais, na produção e na infraestrutura, em novas tecnologias, na educação, na saúde, etc.

Uma dívida trilionária suga o dinheiro público e privado que poderia promover inovação e crescimento da economia. Nesse mês, ao reduzir a taxa básica de juros para 14% ao ano, o Banco Central deu um pequeno passo para mudar essa equação. O grande salto será dado pelo Senado se aprovar a PEC do Teto de Gastos. Com ela, o presidente Michel Temer e o ministro Henrique Meirelles propõem estancar o crescimento das despesas públicas, eliminar o rombo nas finanças federais e permitir a diminuição da dívida para níveis mais aceitáveis nas próximas duas décadas. A Câmara entendeu o drama e aprovou a PEC, em dois turnos. A bola, agora, está com o Senado.

(Nota publicada na Edição 991 da Revista Dinheiro)


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