Edição nº 1019 19.05 Ver ediçõs anteriores

Pluralidade de objetivos e oportunidades

No rastro da Economia Colaborativa surgem grupos dispostos a dividir experiências e fomentar negócios sustentáveis

Pluralidade de objetivos e oportunidades

A partir da esquerda: Chico Cortez, Daniel Milsoni, Trícia Cristilli, Joana Ricci e Mórris Litvakes (foto: Dafne Komora)

Às 8h30 da manhã do sábado, 1º de outubro, observo um termômetro de rua e começo a perceber que errei feio na escolha da indumentária. O céu nublado e com jeitão de chuva, antecipava que a sensação térmica de 18 ºC tinha tudo para piorar ainda mais, no decorrer do dia. Nada de sol! 

Este era o jeitão da atmosfera quando desembarquei de um carro da frota do Uber diante do salão de festas de um prédio de classe média no bairro de Moema, na Zona Sudoeste da cidade de São Paulo. Ali, aconteceria o encontro organizado pela empreendedora da área de comunicação Ana Paula Ignácio, sócia-fundadora da DiFatto. A convocação, feita por meio de uma rede social, tinha o singelo nome de SER Plural Network. 

A expectativa era grande. Afinal, quantos convidados topariam abrir mão do merecido descanso, da agenda de final de semana (compras no supermercado ou na feira) e das obrigações familiares para passar quase oito horas ouvindo palestras e conhecendo experiências empreendedoras? 

Bem, confesso que eu mesmo fiquei surpreso ao me deparar com o salão lotado, com todas as 70 cadeiras ocupadas. A audiência é composta por profissionais liberais, empreendedores da área de comunicação e funcionários de grandes empresas públicas e privadas. 

Todos muito ligados na rodada de palestras sobre temas inspiradores e instrumentais (quintessência, felicidade e propósito, gestão de tempo x foco e finanças pessoais) e ávidos por trocar experiências, fazer circular o conhecimento e ativar negócios. Muitos negócios. Afinal, na era do “trabalho com propósito” nada melhor do que se inspirar em quem já teve a coragem de fazer a travessia do emprego estável para o desafiante mundo do empreendedorismo.
  
O SER Plural Network é uma iniciativa que nasce na esteira de outros grupos de relacionamento e troca de experiências que têm se tornado possível graças ao advento das redes sociais. Um dos pioneiros, o DOTS (https://www.facebook.com/groups/910141242384839/), já conta com 43.567 integrantes. É gente que oferece serviços e produtos de elevada complexidade técnica e até triviais, mas sempre com uma pegada de inovação. Exemplo: delivery de marmitas caseiras apenas com receitas veganas. 

E o SER Plural Network possui ambição idêntica. 

A profusão de jornalistas no grupo, cerca de 40% dos presentes, escancara as radicais mudanças experimentadas pelos profissionais da área. Com o encolhimento do quadro de funcionários dos jornais, das revistas e até mesmo dos departamentos de comunicação de empresas muitos buscam a reinvenção de suas carreiras em projetos autorais de jornalismo, ou na produção de conteúdo editorial para veículos e empresas. 

Mas existem aqueles que fazem uma mudança radical, como é o caso de Chico Cortez e Joana Ricci, devidamente apresentados pela anfitriã como influenciadores. A jornalista Joana deixou a rotina das redações e das assessorias de comunicação para se dedicar ao empreendedorismo sustentável. A bordo de uma Kombi ela e seus três sócios vendem frutas e verduras orgânicas em diversos bairros da cidade. A Komborgânica começou a circular em outubro de 2014 e possui um roteiro definido de paradas dentro de áreas privadas (empresas e condomínios). O mote é a viabilização do acesso aos produtos orgânicos por um preço competitivo. “Já conseguimos recuperar o investimento, mas ainda não operamos no azul”, conta. 

Por sua vez, o designer Chico Cortez optou pelo mundo das artes. À frente do espaço cultural EPIX’s, situado na região dos Jardins, bairro nobre da cidade, ele vai tocando a vida. E se diz muito mais feliz e satisfeito do que no tempo no qual trabalhava com moda e atuava como professor universitário. “Ser empregado dos outros é uma burrice”, define. 

A área de atuação dos influenciadores é eclética. Vai da tecnologia ao esoterismo. Confesso que achei bastante desafiante a iniciativa protagonizada por Trícia Cristilli, fundadora da Okavango, um espaço místico em São Paulo. Para trabalhar com a “cura espiritual alheia”, Trícia teve de fazer escolhas difíceis. A maior delas foi deixar o conforto do cargo de alta executiva numa empresa de telefonia e a chance de ascensão na carreira para se virar com um orçamento apertado. “Estou naquela fase na qual sorteio as contas do mês para decidir qual delas será paga ou não”, diz. 

A lista de influenciadores incluía, ainda, o empreendedor de internet Mórris Litvak, criador do portal MaturiJobs, e o financista Daniel Milsoni que ainda divide seu tempo entre o emprego fixo numa grande empresa e a gestão da OWL Inspirações, um espaço de cura espiritual baseado no xamanismo.

Entre experiências que narram acertos e desacertos nem reparei o correr das horas. Saí de encontro por volta das 19h, quando o sol já havia se posto e a garoa tornava ainda mais desagradável o frio. Confesso que fiquei com a alma lavada. Afinal, faz um bem danado ver a quantidade de pessoas que se dispõem a ser agentes da mudança, correndo riscos inerentes ao empreendedorismo e topando encarar de frente o mundo da Economia Colaborativa e Circular. 

*Detalhe, o SER Plural Network já nasceu com 276 integrantes. Para entrar no grupo é preciso ser convidado pelos organizadores. 

Texto atualizado em 07/10 às 15h.


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