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Masters e veteranos

Se nos EUA cai o interesse pelos grandes mestres do passado, no Brasil ainda é a arte moderna quem segura o mercado 

Masters e veteranos

Em 2015, tela de Guignard se tornou obra mais cara de artista brasileiro a ser leiloada: R$ 5.2 milhões, recorde ainda não superado

O mercado de arte para a pintura dos séculos 18 e 19 está encolhendo e a arte contemporânea continua sua escalada para o topo do mercado global. Este foi um dos tópicos levantados pelo Relatório do Mercado de Artes Tefaf 2016, a pesquisa anual realizada pela tradicional feira de Maastricht, na Holanda. Segundo o relatório divulgado em março, o mercado de arte global atingiu em 2015 um total de US$ 63.8 bilhões em vendas, o que representa um declínio de US$ 4.4 bi em relação a 2014.

Além de indicar um esfriamento após a disparada de preços e vendas nos últimos dez anos, este qualificado termômetro do mundo da arte – baseado em informações colhidas entre galeristas, casas de leilão, colecionadores de arte e antiguidades e especialistas – apontou que o valor das obras dos grandes mestres dos anos 1800 caiu 33% em 2015.

Isso significa que o mercado de masters da arte acadêmica e da arte histórica está encolhendo, segundo o jornalista Robin Rogrebin, do The New York Times, que no final de agosto dedicou uma matéria à queda do interesse dos americanos pelos grandes mestres da arte europeia. “Serão os antigos mestres relevantes novamente?”, indaga o título do artigo.

A escassez de obras-primas do passado no mercado atual seria uma das razões para a debandada do interesse. Os recordes de preços que a arte contemporânea vem atingindo em leilões seria outro detonador da mudança do foco das atenções. Em maio deste ano, um autorretrato de Jean-Michel Basquiat bateu o recorde de preço de obras do artista norte-americano ao ser arrematado por US$ 57,3 milhões em leilão da Christie’s, em Nova York. Seu valor mais alto até então havia era de US$ 8,5 mi.

Segundo levantamento da Artprice, outro indicativo de referencia do mercado global, no conjunto da década o volume de negócios nos leilões de arte contemporânea aumentou 1078% e os preços subiram 70%.

E o que o Brasil tem a ver com isso tudo? Se nos mercados da Europa e dos EUA – como nas feiras Tefaf e Frieze Masters, de Londres –, os masters cobrem um espectro de 500 anos de arte, no Brasil, a arte do passado à venda em leilões tem no máximo 200. Para nós, os veteranos são concretistas, neoconcretos e, principalmente, modernistas. E eles prevalecem sobre a arte contemporânea. Pelo menos no que diz respeito ao mercado.

Na mais grave crise econômica dos últimos 20 anos, as galerias brasileiras de arte contemporânea – que apresentaram retração de até 50% nas vendas de 2015 em relação ao 2014 – recorreram a duas saídas: exportar (participando de feiras internacionais) e apostar em artistas cuja cotação, no Brasil ou lá fora, ultrapasse US$ 1 milhão. Isso significa o panteão de artistas descritos acima.

Conta-se nos dedos os artistas contemporâneos que estão nesta constelação: Beatriz Milhazes, Adriana Varejão, Cildo Meireles, Antonio Dias… Em tempos de mar revolto, a arte moderna é que oferece a pedra da salvação. 


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