Edição nº 1036 15.09 Ver ediçõs anteriores

Por que as mulheres negras estão na base da pirâmide

Por que as mulheres negras estão na base da pirâmide

A judoca Rafaela Silva conquistou a primeira medalha de ouro para o Brasil na Rio 2016

Quando falamos em diversidade a primeira coisa que vem à cabeça das pessoas que estão envolvidas com o tema nas corporações é a questão das mulheres, antes mesmo da questão racial ou LGBT. No entanto, raramente este pensamento é incluído na questão de raça focada nas mulheres, ou seja, mulheres negras e sua admissão, promoção e permanência no mercado de trabalho. Recentemente tive contato com três pesquisas muito interessantes que desenvolvem a temática e revelam dados que demonstram claramente este problema.

O primeiro trabalho foi a pesquisa Diversidade de Gênero e os Pilares da Saúde e Equilíbrio de Vida, elaborada pela consultoria especializada em gestão de benefícios e qualidade de vida Mercer Marsh, que aborda como a questão de diversidade de gênero tem sido cada vez mais um tema de grande importância para as empresas. 

A segunda, o Perfil Social, Racial e de Gênero dos 200 Principais Fornecedores da Prefeitura de São Paulo, realizada pela Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial (SMPIR) em parceria com o Instituto Ethos e com patrocínio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foi mais fundo na questão do gênero: considerou também as mulheres negras no mundo corporativo, as quais se encontram em um dos quatro grupos considerados mais vulneráveis no ambiente profissional: mulheres, negros, pessoas com deficiência e pessoas com mais de 45 anos.

O estudo Diversidade de Gênero e os Pilares da Saúde e Equilíbrio de Vida entrevistou 267 empresas nacionais e multinacionais de grande e médio portes de 29 diferentes segmentos da economia. Atente para as principais conclusões: apenas 10% dos cargos de diretoria são ocupados por mulheres. No nível executivo, a prevalência maior (90%) é masculina. Nos cargos abaixo da gerência, as mulheres ocupam 33% dos cargos administrativos, 22% dos cargos operacionais e 20% dos cargos de supervisão e coordenação. 

É baixo também o índice de empresas com programas voltados ao público feminino. Apenas 3% das empresas declaram possuir programa estruturado de berçário para mães com filhos recém-nascidos e só 4% das empresas ouvidas pretendem instalar berçários em suas dependências.

Já o Perfil Social, Racial e de Gênero dos 200 Principais Fornecedores da Prefeitura de São Paulo exibe uma participação importante das mulheres nos postos de diretoria, gerência e supervisão. Quando, porém, é feito o recorte por cor ou raça, observa-se que as mulheres negras estão posicionadas na base da pirâmide. E assim continuam quando o recorte é por renda, mantendo-se a sequência da melhor à pior condição: homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras (em último lugar).

Atualmente, 4,9 milhões de pessoas estão alocadas nas instituições que prestam serviços ao poder público municipal. De acordo com os resultados do estudo, dentro desse contingente, a população negra continua sendo a mais vulnerável às desigualdades. Por exemplo, entre as empresas que buscam promover a igualdade em seu quadro de funcionários, 28,3% possuem políticas voltadas para pessoas com deficiência, 17% para mulheres, 9,4% para pessoas com mais de 45 anos, e apenas 8% para negros.

Os dados não diferenciam muito de outra pesquisa realizada também pelo Ethos - Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas – em que os negros estão nos últimos patamares e, embora as mulheres estejam em maior patamar quando comparadas com outros grupos como LGBTs e negros, quando a pesquisa analisa mulheres negras percebe-se o patamar mais baixo dos pesquisados. Em resumo, as mulheres negras são as mais discriminadas nos critérios salário e promoção.

Para os operadores e estudiosos do tema diversidade as pesquisas servem apenas como indicadores para o desenvolvimento de ações visando o combate às desigualdades no mercado de trabalho uma vez que é visível a olho nu, quando visitamos qualquer grande empresa, a quase total ausência de negros e em especial mulheres negras em cargos de comando, os números servem para comprovar essa ausência.

O lado positivo destas pesquisas é que a partir delas um número expressivo de empresas estão trabalhando de forma focada e incansável para reduzir estas desigualdades. A liderança continua sendo de empresas multinacionais, mas neste grupo começam a marcar presença empresas nacionais que, ao lado do setor público  – com uma legislação que o autorize a reservar 20% de vagas para negros no serviço público federal e também em alguns estados e municípios como o de São Paulo, onde a prefeitura reserva 20% das vagas para negros desde o cargo de estagiário até os de secretário  – estão mudando a realidade do seu quadro funcional.

Esperamos que num futuro próximo possamos assistir, tanto visualmente como também pelas estatísticas, o que foi comprovado novamente nos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, que se encerraram neste último domingo, em que nossa primeira medalha de ouro foi para uma mulher negra, da periferia e LGBT: a judoca Rafaela Silva. Neste ambiente em que há oportunidade sem o olhar discriminatório da cor ou da opção sexual, o Brasil é imbatível e medalha de ouro.


Sobre o autor

O blog Diversidade Corporativa, de Mauricio Pestana, ex-secretário de Igualdade Racial do município de São Paulo, é um espaço destinado à reflexão e ao debate sobre o panorama da diversidade racial e de gênero no mundo empresarial. Traz temas relacionados a políticas afirmativas e inclusão social e apresenta soluções para fomentar o desenvolvimento socioeconômico da população historicamente excluída da economia e ambiente corporativo no Brasil


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