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Arte urbana, engajada e, também, focada em negócios

Arte urbana, engajada e, também, focada em negócios

O paulistano Órion aposta no grafite como elemento de conexão da cidade de São Paulo    (foto: 1 PAPO RETO)

Durante 17 madrugadas de maio de 2004, o paulistano Alexandre Órion, 38 anos, viveu momentos inusitados enquanto “limpava” a fuligem que cobria as paredes laterais dos túneis que integram o Complexo Viário Ayrton Senna, na região do Itaim Bibi, área nobre da cidade. Em vez de usar esfregões, jatos de água ou outro instrumento mais potente, ele optou por um pedaço de pano branco umedecido em água. A cada “limpeza” surgiam contornos de crânios como numa escavação arqueológica. Batizada de Ossário, a obra que usou a técnica do grafite reverso, ajudou a projetar seu nome em escala global. Inclusive no mundo empresarial. “Meu trabalho funciona como um gatilho que inicia um debate em torno de um tema ligado à vida urbana”, explica. 

Formado em artes plásticas pela Universidade de São Paulo e fotógrafo autodidata, Órion se apresenta como grafiteiro. Mas sabe que é muito mais do que isso. Na verdade é um artista criativo, inovador e dono de uma imensa capacidade de dialogar com o mundo à sua volta. Do espaço urbano, no qual flerta com a escola da pichação, até o setor empresarial, para o qual vem realizando projetos em diversos cantos do planeta. 

A lista é extensa e inclui chaminés de indústrias químicas e contêineres de empresas de logística. Tudo feito sob medida. Seu mais novo trabalho são as linhas SPSP e EX-Machina, desenhadas para a paulista EcoSimple, fabricante de tecidos a partir de retalhos de algodão e fios sintéticos de PET pós consumo. Mas em se tratando de Órion, as estampas não poderiam ser algo “fofinho” e que não dialogassem com a crítica social ou com uma leitura peculiar da vida na metrópole. 

SPSP, por exemplo, une pontos extremos da capital do Estado de São Paulo, por meio de uma série de colagens de digramas de ruas e avenidas no qual a geografia cede lugar ao sonho de uma convivência mais harmoniosa, a partir do pluralismo. “Numa cidade como São Paulo, as distâncias não são apenas geográficas”, opina. “Elas são culturais e econômicas, também.” No mapa de ruas e avenidas idealizado pelo grafiteiro, o sofisticado Jardim Europa, situado na Zona Oeste, faz divisa com Grajaú, um dos bairros mais pobres da Zona Sul. A rica Moema, também na Zona Oeste, aparece grudada em Guaianases, área carente no extremo da Zona Leste.  

Já o trânsito caótico da metrópole e os efeitos da poluição estão presentes em EX-Machina. Trata-se de um “desmanche” de peças de caminhão, como num desenho de manual técnico, organizadas meticulosamente para dar um efeito de floral. “É a minha leitura do caos representado pelo tráfego intenso e o barulho produzido por motores de todos os tipos, especialmente os automotivos”, explica o artista. Para reproduzir com mais rigor as obras, o sócio-fundador da EcoSimple, Claudio Rocha, trabalhou apenas com fios sintéticos. “Optamos por um tecido 100% acrílico para garantir a integridade e a qualidade dos desenhos”, diz ele. 

Além da criatividade e da grande capacidade de dialogar com o mundo empresarial, Órion também se firmou como um artista inovador. A fuligem originária do escapamento dos veículos e da poluição industrial, em geral, acabou se tornando uma matéria-prima para algumas de suas mais famosas obras. Essa tinta já foi usada na pintura das séries Poluição sobre Muro e Poluição sobre Tela, expostas em muros e galerias do Brasil e do Exterior. 


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