Edição nº 1019 19.05 Ver ediçõs anteriores

A era dos linchamentos virtuais e do stalinismo digital

Como lidar com o fato de que, na era das redes sociais, expressar uma opinião dissonante do que pensam determinados grupos – organizados ou não – pode custar caro à sua reputação

A era dos linchamentos virtuais e do stalinismo digital

A internet, para o mal e para o bem, colocou o poder de volta nas mãos das multidões

O artigo de Fernanda Torres a respeito da condição feminina (“Mulher”), que a fez sofrer um linchamento virtual e depois pedir desculpas (“Mea Culpa”), ainda ecoa. Nos últimos dias, Ruth de Aquino, da Época,  Mônica Waldvogel, da Globo News, e Vera Guimarães Martins, ombudsman da Folha, discutiram o assunto com lucidez e alertaram para o fato de que a intolerância e a brutalidade nas redes sociais assumiram contornos preocupantes.  

É o momento de refletirmos sobre um problema sério: numa era politicamente correta, expressar na internet uma opinião dissonante em relação ao que pensam determinados grupos – organizados ou não – pode custar caro à sua reputação. Pior: no Brasil polarizado e intolerante de hoje, não empunhar a bandeira que alguns querem que você levante – seja de um lado ou outro – pode ser motivo para o esculacho virtual.  

Buraco é mais profundo

Se ajustarmos um pouco mais a lente, olhando além do episódio Fernanda Torres, veremos que o buraco é ainda mais profundo. Os casos de humilhação pública por meio das redes sociais são cada vez mais frequentes em diferentes partes do mundo e receberam o nome de “online shaming.”

Intolerância, xingamentos, perseguição digital que por vezes extrapola para a vida real, ataques à imagem e à honra. 

Por que isso acontece? É possível identificar as raízes de tanto ódio e intolerância? Quais as consequências? Como se defender do problema? O que isso indica sobre os rumos que estamos dando à sociedade conectada? O espírito libertário que norteou a criação da internet foi engolido por uma ideia equivocada de que na rede vale tudo, até mesmo o agredir o outro?   

Não tenho a pretensão e nem teria condições de dar uma resposta a isso, mas há aspectos importantes que merecem reflexão e podem ser úteis na tentativa de entendermos o que acontece.    

Stalinismo digital

Outro dia um amigo escreveu no Facebook, a despeito das perseguições ideológicas dentro e fora das redes sociais, que há um “new stalinism” na área. É por aí. Parafraseando a ideia, acho que ingressamos de vez naquilo que podemos chamar de stalinismo digital, entendido aqui como o uso das redes sociais como armas – sim, armas – para mobilizar a massa para agredir, perseguir, coagir e acabar com a imagem daquele cuja opinião ofende ou simplesmente é contrária. 

Assim como no tempo de Joseph Stalin, um dos mais cruéis e sanguinários ditadores da história, estar do lado oposto significa que você é um inimigo a ser combatido custe o que custar.

Isso transcende o ambiente virtual. É um problema da sociedade, que reverbera e ganha outra dinâmica na internet.  No dia 29 de fevereiro, o jornalista Alceu Castilho relatou no site Outras Palavras que o professor José de Souza Martins, um dos mais importantes sociólogos brasileiros e grande estudioso da dinâmica da exclusão, foi impedido por ativistas do movimento negro de dar uma aula magna na USP. 

Motivo: como mostra um vídeo do episódio que circula na internet, a ideia era protestar contra pouca presença de negros na USP. Ou seja: a despeito de uma motivação nobre e necessária – a questão racial -, acham-se no direito de táticas de pressão nesse nível. 

Caça às bruxas

Há peculiaridades da realidade brasileira, mas o problema é mundial. O jornalista inglês Jon Ronson estudou o assunto e o abordou no livro “Humilhado: como a era da internet mudou o julgamento público” (Editora Best-Seller).

Na obra, ele analisa os efeitos nefastos na vida de quem é achincalhado na internet – por comentários reprováveis ou acusações injustas relativas a atitudes que não tomaram. “Uma das conclusões a que cheguei foi que não sou contra pessoas fazerem críticas contundentes umas às outras na rede, de modo algum”, disse em entrevista a O Globo. “Mas sou contra a desproporcionalidade da punição sobre quem não fez algo tão errado assim. É sobre isso que meu livro trata”, disse Ronson.

Boas intenções não justificam

Ele observa que muitas pessoas que agridem outras na rede são movidas por boas intenções – por exemplo, ativistas indignados com posturas machistas, racistas ou reacionárias. A questão é que, em nome disso, acabaram “fazendo uma coisa horrível para alguém, algo que não tem nenhum traço de compaixão, repare o contrassenso”, afirmou. A solução para o problema? “Muitas vozes falando sobre esse tema. Eu sinto que as coisas já vêm mudando”, avalia Jon Ronson.

Jennifer Jacquet, professora do departamento de estudos ambientais da New York University, observa que a internet, para o mal e para o bem, “colocou o poder de volta nas mãos das multidões”, referindo-se à época dos apedrejamentos públicos comuns em tempos bem remotos.  

Reação desproporcional

Para ela, conforme reportagem da Folha, “o linchamento virtual de indivíduos comuns é problemático não só pela exposição pública da pessoa mas pela desproporção entre o delito e a punição, ‘a falta do devido processo legal e a indestrutibilidade das informações’”.

Concordo plenamente, e também com o que disse Jon Ronson: o caminho para acabar com esse estado de coação digital é falar sobre o tema, apresentá-lo com clareza e combatê-lo.

É óbvio também que a Justiça pode e deve ser acionada nessas situações – a internet não é uma terra de ninguém. Crimes dessa ordem no ambiente digital são passíveis de punição legal. Paralelamente, no entanto, é importante jogar luz sobre a questão e tentar mudar pelo debate.  

De um modo ou de outro, a batalha é árdua, típica do Exército de Brancaleone. Mas vamos em frente. É preciso espantar esse tempo sombrio em que vivemos.  


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