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Descobrir a América

Com quatro feiras satélite, Bogotá ganha terreno no mercado de arte latino. Confira os bons momentos da ArtBO e da feira Odeón, que teve o Brasil como país convidado

Descobrir a América

A obra “A Empregada do Joseph Beuys”, de Rafael RG, que faz critica ao sistema socioeconômico, foi vendida a colecionador peruano

Ainda que administrada por uma Câmara de Comércio, a Feira de Arte Contemporânea de Bogotá dá boa sustentação ao seu projeto de “feira não-comercial”, isto é, que não visa o lucro enquanto instituição. Este é, sem dúvida, o aspecto que diferencia a ArtBO de seus pares em outros países latino-americanos. “ArtBO começou em 2005 como um projeto da Câmera de Comércio para dar a Bogotá posição central no comércio cultural, mas é fundamentalmente um espaço para os cidadãos terem experiências culturais”, diz a diretora María Paz Gaviria.

A feira, que aconteceu de 1.º a 4 de outubro, efetivamente tem abertura para projetos de naturezas muito variadas. Além do Artecámara, programa de apoio a artistas sem representação comercial, acolhe a riquíssima cena de espaços independentes da cidade, e de pequenas galerias de cidades latino-americanas, dando visibilidade ao que há de melhor na jovem produção artística contemporânea da América Latina.

Embora seja uma feira de preços médios, onde vendem-se obras de até US$ 20 mil, galeristas presentes este ano concordaram que a ArtBO tem potencial para se tornar a maior feira da América Latina. Especialmente se considerarmos a hesitação que muitos galeristas estrangeiros que frequentam a SP-Arte e a ArtRio sentem em relação à retração do mercado brasileiro, segundo relatos de galeristas como Elba Benitez e Gregor Podnar.

ArtBO e SP-Arte tem muito em comum. A primeira completou uma década em 2014 e a segunda fez dez anos em 2015. Desde o início, de certa forma, elas competem pela liderança dos mercados do sul. Para completar, este ano, Colômbia e Brasil foram os dois países latino-americanos que registraram a maior desvalorização de suas moedas frente ao dólar.

Ainda assim, a importância do mercado de arte em Bogotá cresce com o aparecimento de quatro feiras satélite ao grande evento comercial do mercado local, a ArtBO.

Lançada em 2012, a Odeón Feira de Arte Contemporânea teve este ano o Brasil como país convidado e levou ao Espacio Odeón, no bairro antigo da Candelária, as galerias Blau Projects, Casa Nova Arte, Central, Athena Contemporânea, Lume e Portas Vilaseca.

A Blau Projects (SP) realizou um solo Project do paulistano Andrey Zignatto e antes mesmo de chegar à Bogotá já havia vendido uma instalação para a coleção de Alejandro Castaño e Maria Isabel Perez. “As obras haviam sido vistas em Lima, quando participamos da …”, diz Andrey, que desenvolveu sua poética e Jundiaí, no interior de São Paulo a partir da tradição familiar. O avô do artista era pedreiro e passou seu conhecimento ao herdeiro, que desconstruiu a técnica alcançando um resultado ímpar e muito impactante.

A Casa Nova Arte (SP) apresentou obras do chileno Ignacio Gatica, realizadas a partir de residência realizada no espaço Flora Ars + Natura, dirigido pelo curador José Roca, e instalado no bairro de San Felipe, nova cena local, recentemente ocupado por espaços independentes de arte e galerias jovens.

A Portas Vilaseca Galeria (RJ) apresentou obras de Iris Helena, que despertaram interesse da colecionadora Solita Mishaan (Coleção Misol), e de Daniel Murgel, que apresentou uma série de esculturas e desenhos com tijolos adobe e no terceiro dia de feira havia vendido três desenhos para o protecto Bachue, da colecionadora Valentina Gutierrez. “O Odeón é um bom teste para o mercado local”, diz o galerista, que pretende voltar a Bogotá. Frederico Filippi, que fará individual no Pivô, em São Paulo, em novembro, estava na Athena Contemporânea; e Fabio Cardoso e Florian Raiss, na Galeria Lume.

Do Brasil, participaram na ArtBO as galeias Vermelho, Luisa Strina, Sé, Nara Roesler, Jaqueline Martins, Eduardo Fernandes e Luciana Brito.

Cercada por algumas das maiores galerias do país, María Montero, da Sé Galeria, fez na ArtBO 2015 sua grande estreia em feiras de arte, com um projeto especial de Rafael RG. “A curadora Manoela Moscoso conhece o trabalho do rafa e convidou-o para participar dos Proyectos”, conta ela. “Não nos reconhecemos na proposta da curadoria, que era ‘Fundo e Figura’, uma abordagem bem tradicional da arte.

Mas o Rafael propõe que nós – o agente de arte e o artista – somos figura, com o sistema de arte e o sistema capitalista como fundo”. Deu certo. Três obras provocativas ao sistema, como “A Empregada de Joseph Beuys”, cujo preço de mercado é dez vezes mais alto que o salario da mãe do artista, que foi empregada doméstica, foram vendidas ao colecionador peruano Carlos Marsano.

No stand vizinho, a galeria Nara Roesler concretizou a venda um trabalho do colombiano Alberto Baraya para a coleção Boris Hirmas, um dos top five da Colombia. A Galeria Luisa Strina vendeu Beto Shwafaty para a coleção privada da Art Nexus e Federico Herrero para o Jorge Perez (PAMM) no último minuto! 


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