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Que tal uma vaga na Opep?

Nº edição: 522 | 26.SET - 10:00 | Atualizado em 26.02 - 14:12

Alguns anos atrás, o engenheiro carioca Wagner Victer fez uma provocação.

por Leonardo Atuch

Alguns anos atrás, o engenheiro carioca Wagner Victer fez uma provocação. Disse que, se o Rio de Janeiro fosse um país independente, certamente faria parte da Organização dos Países Produtores de Petróleo, a Opep. Assim, de tempos em tempos, os chefes do Palácio das Laranjeiras poderiam sentar-se ao lado de sheiks árabes e, quem sabe, conspirar contra o futuro da economia global. Agora, porém, talvez seja o caso de sonhar ainda mais alto. Por que não começar a pensar numa vaga para o Brasil? Para quem viveu os dois choques do petróleo, ocorridos na década de 70, a idéia parece insana. Mas não é tão maluca quanto parece. Afinal, com os investimentos bilionários já contratados pela Petrobras, o Brasil caminha rapidamente para se tornar o maior produtor latino-americano de petróleo, à frente até de países como a Venezuela, de Hugo Chávez. A produção projetada para 2015 é de 2,3 milhões de barris/dia. Além disso, tudo indica que, em pouquíssimo tempo, o consumo de etanol no País será maior do que o de gasolina.

A conseqüência natural será a geração de excedentes exportáveis em volumes muito maiores do que o de alguns países que já estão no clube, como Angola e Gabão.

A oportunidade está batendo à porta. Na semana passada, os preços internacionais superaram a cifra de 80 dólares, nos mercados de Londres e Nova York. Segundo muitos analistas, isso significa que o mundo pode estar começando a viver um novo choque do petróleo. As duas crises anteriores tiveram conseqüências drásticas para a economia nacional. Na década de 70, o País comprava de fora praticamente 70% do petróleo que consumia.

Como as importações dragavam todas as divisas, o Brasil literalmente quebrou e, em 1982, decretou a moratória da sua dívida externa. Hoje, o quadro é totalmente diverso. Há dois anos, o Brasil alcançou a auto-suficiência em petróleo, com uma produção de 1,6 milhões de barris/ dia. Desde então, a Petrobras vem se consolidando como exportadora e tem feito investimentos importantes no Exterior. O barril cotado a 80 dólares, portanto, é algo que hoje até faz bem à economia brasileira.

Essa guinada tem um aspecto ainda mais importante. Dias atrás, a Fundação Getúlio Vargas divulgou um estudo prevendo que, em 2010, as vendas de álcool nos postos de combustíveis deverão superar as de gasolina. Se isso se confirmar, o Brasil será o primeiro país do mundo, já num estágio maduro de desenvolvimento, a atingir tal façanha. A frota de carros que rodam movidos a gasolina no Brasil ainda é superior à de veículos flex, mas a liderança está com os dias contados. Dados da Anfavea, a associação das montadoras, apontam que 84% dos carros vendidos no Brasil em 2007 terão motores bicombustíveis.

Além disso, a Unica, entidade que reúne os usineiros do País, acaba de colocar no ar uma campanha publicitária incentivando o consumo de etanol. As vendas de álcool, embora venham crescendo rapidamente, ainda estão abaixo do potencial. Contribuem para isso mitos como o de que os motores flex necessitam de gasolina, a cada dois ou três abastecimentos.

Mais do que simplesmente lucrar com futuras exportações de petróleo, o Brasil também tem outro trunfo na manga. O etanol à base da cana é a alternativa energética mais barata que poderá vir a substituir parcialmente o petróleo. Nos Estados Unidos, o próprio New York Times publicou editorial recente condenando o etanol americano, à base de milho, e defendeu a alternativa brasileira. Atento a tudo isso, o presidente Lula colocou os biocombustíveis no topo da sua agenda diplomática. Há poucos dias, numa visita à Escandinávia, arrancou do governo sueco o compromisso de redução das barreiras ao álcool nacional. Lula também quer vender a tecnologia brasileira a países da África e da América Central, em busca de aliados. O que falta agora é esquecer a idéia improdutiva de lutar por um assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas e pensar no que realmente importa, ou seja, petróleo.


A global'Índia'ção

Nº edição: 521 | 19.SET - 10:00 | Atualizado em 26.02 - 12:04

Dentro de um mês, Brasil, Índia e África do Sul se encontram na Cidade do Cabo para uma reunião de cúpula do chamado bloco Sul-Sul, iniciativa do presidente Lula de reunir as maiores democracias de cada um dos três continentes.

por Joaquim Castanheira

Dentro de um mês, Brasil, Índia e África do Sul se encontram na Cidade do Cabo para uma reunião de cúpula do chamado bloco Sul-Sul, iniciativa do presidente Lula de reunir as maiores democracias de cada um dos três continentes. Tirando o fato de que, com a invenção desse grupo, o Brasil isola o México, e a Índia marca posição em relação à China, a questão que se coloca é sobre o tipo de integração possível. Afinal, a globalização é um movimento único, ou ela pode ser fragmentada geográfica e economicamente? Existirá uma globalização de países em desenvolvimento que venha a ser diferente da que se conhece até agora?

Se no Brasil o discurso antiglobalização ainda encontra aceitação (em grande parte por causa da oposição que o PT sempre fez ao tema), o que se vê na Índia é outra receptividade. “A globalização representou aumento de renda para os hindus”, diz Mrinal Pande, editora-chefe do Hindustan, um jornal publicado em híndi, com tiragem de 4,5 milhões de exemplares.

Com 18 idiomas oficiais e dezenas de dialetos, a língua é uma questão central no caminho da Índia para uma economia de mercado. A herança da colonização inglesa, que se vende nos relatórios dos bancos de investimento como grande benefício competitivo do país, atinge apenas 10% da população. E ainda assim com aquele sotaque que faz a alegria dos cursinhos de pronúncia que pipocam nas grandes cidades da Índia. Um emprego de menos de US$ 300 mensais num callcenter transforma o contratado num privilegiado dentro de sua família, mas para isso ele precisa falar o inglês ocidental.

“Temos uma sociedade agrária e pobre”, diz o deputado Chandan Mitra. Com mais dinheiro no bolso, o que essa massa de indianos fez foi se voltar para os próprios valores – e não copiar o padrão global de comportamento. Embora os velhos defensores da política de não-alinhamento digam, numa quase crítica, que as aspirações indianas são ocidentais, as mulheres não trocaram os coloridos sáris por calça jeans e camiseta. Os homens continuam a usar alpargatas e camisas estampadas de botão.

“O inglês está sendo cercado, mas não ameaçado”, diz o jornalista Rahul Dev. “O híndi é falado ou ao menos entendido por 99% da população”, diz Pande. No caso do seu Hindustan, a globalização representou, dentro do grupo de comunicação ao qual pertence, o fim da dependência econômica dos jornais de língua inglesa. Até então, era a publicidade deles que subsidiava o diário em híndi. No ano passado, houve um acréscimo de 40% na publicidade em híndi e a dose será repetida este ano. Parte substancial dessa verba vem da explosão de classificados, notadamente as 18 páginas de anúncios para casamentos (quase todos a serem arranjados, como manda a tradição).

A elevação da autoestima hindu provocou dois movimentos: um econômico e outro político. “Toda companhia precisa ter uma estrutura grande para as línguas híndi”, diz Pande. Pelo lado político, o aumento da penetração dos jornais em híndi levou pequenos povoados a mudar o tipo de representação no Congresso (antes também dominado pelo anglocentrismo).

Em grandes linhas, o caso indiano parece o avesso do Brasil. Se por um lado a globalização chegou lá sob os mesmos preceitos macroeconômicos de controle dos gastos públicos, redução da dívida oficial e abertura comercial, na prática o que se vê é que seus benefícios parecem valorizar a tradição e a segmentação cultural, econômica e política do país – e não integrá-lo a uma espécie de grand monde ocidental. Até agora, isso é o que eles acreditam ser o melhor para eles.


O impacto econômico da Copa

Nº edição: 520 | 12.SET - 10:00 | Atualizado em 23.02 - 11:34

Uma das decisões mais importantes sobre a economia brasileira não está sendo tomada nos gabinetes do governo federal em Brasília, nem nos escritórios das grandes empresas nacionais.

por Amauri Segalla

Uma das decisões mais importantes sobre a economia brasileira não está sendo tomada nos gabinetes do governo federal em Brasília, nem nos escritórios das grandes empresas nacionais. Bem longe daqui, em Zurique, na Suíça, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, irá anunciar, no dia 30 de outubro, a sede da Copa do Mundo de 2014. Ao que tudo indica, o Brasil será escolhido, mas ainda não há uma certeza. A torcida é grande e se espalha do Palácio do Planalto para mais de 18 cidades que se candidataram a ser uma das sedes do maior campeonato de futebol do mundo e que receberam inspetores da Fifa nas últimas semanas. Tanta agitação tem fundamento. O impacto econômico de uma Copa desse porte é incomparável e superior ao de qualquer outro evento internacional. O mundial da Alemanha de 2006, o mais lucrativo das histórias das Copas, rendeu uma arrecadação de mais de US$ 2,5 bilhões só com patrocínios, merchandising e ingressos. No Brasil, apenas com os profissionais de mídia, haveria um ingresso líquido de US$ 1 bilhão nos 30 dias de evento, graças à presença de 500 estações de TV, 4,5 mil jornalistas e 14 mil técnicos e fotógrafos. Com a vinda dos torcedores, é possível calcular uma receita de mais US$ 15 bilhões, numa projeção conservadora. Apesar de tudo isso, no entanto, a turma do contra já começa a afiar as garras. Alegam, os que sofrem do complexo de vira-latas diagnosticado por Nelson Rodrigues, que o Brasil não teria condições da arcar com um evento de tal magnitude. Que o impacto nos cofres públicos seria altíssimo. Que os problemas na segurança manchariam a imagem do Brasil. Que haveria outras prioridades. É um blá blá blá sem fim.

Aos do contra, a pergunta: esperar o quê? Uma infra-estrutura perfeita? E qual seria melhor argumento do que a perspectiva de uma Copa do Mundo para agilizar as verbas previstas pelo Programa de Aceleração do Crescimento, que existem e não saem do papel? Um exemplo concreto de como a Copa poderia funcionar como catalisador de grandes investimentos vem de Brasília. Lá, o governador José Roberto Arruda quer iniciar a licitação de uma ligação rápida entre o Aeroporto Juscelino Kubitschek e a região do estádio Mané Garrincha para credenciar a Capital Federal a receber os jogos. Esses investimentos seriam feitos de qualquer maneira, mas, com a Copa, virão mais rápido. É um bom argumento, mas os derrotistas também apontam os riscos de superfaturamento na construção e reforma de estádios. Mas o ponto é que não se trata de dinheiro público. Estudos da consultoria KPMG apontam que praticamente todas as arenas seriam construídas com recursos privados. Além disso, uma das alternativas é utilizar Parcerias Público- Privadas, que também custam a sair do papel no Brasil. Para ilustrar, basta o exemplo do Morumbi. O presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, se comprometeu a arcar com 100% das despesas das obras do estádio, sem o auxílio de verbas públicas. No Rio Grande do Sul, a turma do Internacional pretende não apenas reformar o Beira-Rio com dinheiro privado, como também erguer um shopping e um hotel ao lado.

Diferentemente de uma Olimpíada, que demanda recursos públicos porque inclui modalidades de baixo retorno comercial, o futebol envolve paixão. E esse é um fenômeno global, que atinge até os países onde o futebol está longe de ser o esporte número um. O melhor exemplo é o dos Estados Unidos, onde um clube desconhecido, o Galaxy, acaba de fazer a maior contratação da história, ao arrematar o passe do inglês David Beckham por US$ 250 milhões. O que está por trás disso é a possibilidade de retorno publicitário gerada pelos astros do gramado. Fosse de outra maneira, o Banco Santander Banespa não teria investido US$ 110 milhões para unir Kaká, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Robinho em uma única peça publicitária para passar a mensagem de “melhor banco do mundo”. Numa Copa, se forem somados os espectadores de todos os jogos, chega-se a um número inacreditável: 36 bilhões, em 240 países. A cena do lateral Cafu levantando a taça do pentacampeonato em 2002 foi vista por quase 90% da população global. A Copa no Brasil, em 2014, poderá ser o grande momento de afirmação nacional, desde que o País supere a auto-imagem derrotista. Numa das reuniões com inspetores da Fifa, o governador de São Paulo, José Serra, perguntou ao presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, se a Copa “já seria nossa”. A resposta foi direta: “Só podemos perder para nós mesmos”. É isso aí!


Reestatizar a Vale? Para quê?

Nº edição: 519 | 05.SET - 10:00 | Atualizado em 23.02 - 10:15

O PT é um partido esquizofrênico. Assumiu o poder máximo do País há cinco anos, com a eleição do ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva para presidente da República.

por João Doria Jr.

O PT é um partido esquizofrênico. Assumiu o poder máximo do País há cinco anos, com a eleição do ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva para presidente da República. E tem entre seus filiados cinco governadores e a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados. Mesmo assim, faz enorme esforço para se equiparar ao inexpressivo PSTU e à desconhecida Radiola FM, de Brasília. Por mais surpreendente que pareça, o PT uniu-se aos dois nanicos e a ONGs de porte semelhante na promoção, entre 1º e 7 de setembro, de um plebiscito popular pela “anulação da privatização da Vale do Rio Doce”. Para a adesão oficial à absurda iniciativa, faltava apenas a aprovação do 3º Congresso Nacional do partido, neste fim de semana.

Mesmo sem conhecer a decisão dos 900 militantes petistas reunidos em São Paulo, é espantoso que o partido do presidente Lula ainda pense em rever o leilão realizado em 1997, no governo FHC. A discussão extemporânea baseia-se, por sinal, num grande equívoco. Afirma que a empresa foi vendida por R$ 3,1 bilhões, quando o que se leiloou por R$ 3,3 bilhões foi o controle acionário. A Vale como um todo foi avaliada em R$ 12,4 bilhões. Não custa lembrar também que o grupo vencedor, liderado pela CSN, de Benjamin Steinbruch, pagou um ágio de 19,99%. E mais significativo ainda: o grupo Votorantim, de Antônio Ermírio de Moraes, desistiu do negócio quando as ações atingiram R$ 32 (o preço mínimo era de R$ 26,67). Se Antônio Ermírio, cuja família investe em mineração há décadas, considerou o preço salgado, o que leva os aguerridos companheiros a acreditar que a Vale foi subavaliada?

Um dos motivos, sem dúvida, é o forte ranço ideológico que faz os petistas perderem as estribeiras diante da simples menção à palavra privatização. O preconceito gera confusão. Dizem os mentores do exótico plebiscito – aprovado em encontros regionais do PT – que, no primeiro ano depois do leilão, o lucro da Vale subiu para R$ 10 bilhões. Afirmam também que o valor da empresa era superior a R$ 40 bilhões. Esses números, na verdade, servem de chumbo grosso contra os que defendem a devolução da Vale ao Estado.

A rápida evolução do lucro e do patrimônio vem comprovar, acima de tudo, que o Estado é um mau gestor. Em 1997, a produção média anual da Vale era de 35 milhões de toneladas. Hoje, a produção bate um recorde histórico: 300 milhões de toneladas/ano. A Vale tinha 11 mil empregados em 1997, atualmente é responsável por 56 mil empregos diretos. Entre 2001 e 2006, a mineradora investiu US$ 44, 6 bilhões contra um total de US$ 24,2 bilhões nos 54 anos anteriores.

O valor de mercado, obviamente, pulou de US$ 9,2 bilhões em 2001 para US$ 103 bilhões em 2006.

Os militantes do PT não enxergam um palmo além do nariz: longe da burocracia estatal e sem sofrer loteamento político, a Vale progrediu muito. O que deixa no ar a seguinte dúvida: o que aconteceria com a Petrobras se fosse privatizada? Quais seriam seus resultados? A estatal do petróleo, nesse exato instante, não quer se desfazer de um lote da Bacia de Santos, que arrematou em 1999. O prazo da concessão venceu e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) pretende leiloá-lo. A Petrobras alega que fez uma descoberta no local e pede a prorrogação. Fica claro que a estatal foi lenta e teme, agora, que grupos privados explorem a área. A Petrobras vai bem mas não existe no mundo uma petrolífera que dê prejuízo. Pelo exemplo da Vale, é possível imaginar qual seria seu desempenho se fosse privada. Mas isso é tabu no País.

Pensando bem, há certa coerência na cegueira do PT. Os dirigentes que aceitam passivamente o plebiscito contra o leilão da Vale são os mesmos que vêem no indiciamento dos mensaleiros pelo STF uma conspiração das elites e da mídia. Ao falar sobre o histórico julgamento, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, saiu-se com uma de suas pérolas: “O PT é igual massa de pão. Quanto mais batem, mais ele cresce.” Berzoini também não enxerga nada. Confundiu o PT com um bando de maus políticos que, desde a semana passada, são réus em processo penal. Felizmente, muita gente no PT discorda do atrapalhado presidente da legenda. E recorre a uma expressão francesa para explicar a permanência dele no cargo: faute de mieux, ou seja, na falta de algo melhor... Felizmente, também, alguns dirigentes do PT acham o plebiscito da Vale uma bobagem. O PT é um partido forte e popular. Deve se comportar à altura.