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Artigo
A sombra que assombra o campo
Nº edição: 620 | 26.AGO - 10:00 | Atualizado em 02.03 - 22:08
Nem bem o nome da senadora acreana Marina Silva surgiu no noticiário como virtual candidata à Presidência da República, no campo brasileiro brotaram as primeiras repercussões.
por Leonardo Atuch

A discussão ambiental não pode colocar a agropecuária contra o meio ambiente
Durante anos, a ex-ministra do Meio Ambiente foi vista por produtores rurais como uma espécie de inimigo número 1 do agronegócio.
Suas posições, por vezes, soaram sistematicamente contrárias a todo tipo de evolução tecnológica ou modelo de desenvolvimento empresarial, como se a boa agricultura fosse apenas aquela feita por pequenos produtores familiares. Por isso, a virtual presidenciável cunhou importantes e influentes desafetos, como a poderosa bancada ruralista no Congresso Nacional. Ao longo de sua permanência no Ministério do Meio Ambiente, a ecologista sofreu duras derrotas. Além de não conseguir evitar a aprovação de sementes transgênicas no Brasil, perdeu praticamente todas as disputas com o excolega da Esplanada dos Ministérios, Reinhold Stephanes, titular do Ministério da Agricultura.
Mas, por outro lado, conseguiu trazer o debate ambiental para um nível mais alto. Respeitada internacionalmente, conferiu certa credibilidade às políticas nacionais principalmente no que tange à Amazônia. E agora tem a possibilidade, em sua aspiração presidencial, de concluir parte do que deixou para trás: integrar o agronegócio e o meio ambiente num modelo único e sustentável. Para isso, no entanto, Marina Silva não poderá cair na tentação de trazer o foco para uma luta entre "inimigos contra amigos da natureza", conforme aconteceu durante sua gestão na pasta ambiental. Isso apenas endureceria as disputas no âmbito ideológico, quando a saída para essa complexa equação está no entendimento das diferentes forças que devem ser complementares e não concorrentes.
Não há, por outro lado, como dissociar o desmatamento da falta de renda em algumas regiões do País. Manter uma floresta em pé custa dinheiro, principalmente em grandes áreas com ação de madeireiros ilegais. É preciso mão de obra, vigilância constante e em muitos casos até certos tipos de manejo na floresta, o que é dispendioso. "Quem não tem renda não preserva", costuma dizer o secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, João Sampaio.
Por essa razão, é preciso ter um pouco de cuidado quando se olha para alguns números desse setor. Afinal, na última década, cerca de 30% do saldo da balança comercial veio do mundo rural. Mas o dinheiro não brotou, simplesmente, do chão. Em alguns Estados da federação como Mato Grosso, a inadimplência entre os agricultores chega a 25%. Isso num setor altamente dependente de crédito, seja para a compra de insumos, seja para viabilizar o plantio e o seu comércio.
Munida dessas informações, é possível que a virtual candidata Marina Silva se convença de que a melhor forma de promover a preservação é justamente apoiando o desenvolvimento e a renda no campo. Tal caminho passa obrigatoriamente por uma revisão nas políticas de subvenção de juros e, principalmente, com ferramentas (verdadeiramente) eficientes para a formação de estoques, garantindo a renda e não só subsistência dos agricultores. Não é possível prever se a senadora se transformará em presidente da República.
Mas, se essa for a sua verdadeira pretensão, não poderá incorrer no mesmo erro, segundo ela, cometido pelo presidente Lula. Ao se desligar do Partido dos Trabalhadores, na semana passada, Marina comparou a sua situação à peça Rei Lear, de Shakespeare. Na obra, o rei dá preferência à filha ambiciosa em detrimento da caçula, que apenas desejava o carinho de seu progenitor.
A metáfora, dirigida ao presidente Lula e à ministra Dilma Rousseff, mostrou todo o seu descontentamento em relação ao atual governo. Mas, se quiser realmente "chegar lá", não poderá se esquecer que terá, a exemplo de Lula e do Rei Lear, muitos "filhos para cuidar", e a agricultura profissional está entre eles.
Os mortos, os feridos e os tolos
Nº edição: 573 | 24.AGO - 10:00 | Atualizado em 15.02 - 15:04
Oano nem acabou e a crise financeira de 2008 já entrou para a história.
por Milton Gamez
Em poucos dias, o governo dos Estados Unidos estatizou as gigantes do crédito imobiliário Fannie Mae e Freddie Mac e a seguradora AIG. Somente nessas duas operações de resgate, o contribuinte americano poderá pagar US$ 285 bilhões -- isso se as estimativas iniciais forem mantidas. É dinheiro que não acaba mais. Daria para salvar da penúria os americanos pobres, os desabrigados pelos furacões devastadores do Atlântico e, quem sabe, os parentes distantes de Barack Obama na África. Quando a meca do liberalismo econômico estatiza empresas privadas em vez de deixá-las quebrar, como seria de se esperar, o que isso significa? Assim como a queda do muro de Berlim enterrou o socialismo, será que a quebra de Wall Street prenuncia o fim do capitalismo, menos de duas décadas depois? Os românticos da esquerda que me perdoem, mas não é bem assim.
Antes de condenar o ímpeto estatizante do Tesouro americano e do Federal Reserve Board, o banco central, é bom lembrar que eles não estão sozinhos. O Banco da Inglaterra, terra de Margaret Thatcher, também encampou o Northern Rock no ano passado. Atualmente, a Dama de Ferro sofre de demência e não influencia mais as decisões do governo britânico, mas o mesmo não se pode dizer de Hank Paulson e Ben Bernanke, os guardiões do capitalismo dos EUA neste início de século. Eles tamparam o nariz ideológico e socializaram o prejuízo da Fannie Mae, da Freddie Mac e da AIG, mas não todo. Se simplesmente as deixassem falir, a sociedade perderia muito mais, pois os negócios financeiros dessas instituições são tão grandes e tão interligados a centenas de bancos e empresas que muitas poderiam quebrar também. Não fazer nada levaria milhões de trabalhadores ao desemprego, nos EUA e em outros países, num efeito dominó inaceitável por pessoas inteligentes, especialmente em tempos de eleição. Mas isso não quer dizer que os capitalistas incompetentes devem ser salvos. No fundo, eles não foram.
As três empresas citadas quebraram e serão saneadas com dinheiro público, mas o dinheiro de seus acionistas virou pó. Nos últimos meses, cada dólar investido em ações dessas companhias transformou-se em poucos centavos. As perdas superaram 90% em 12 meses. Os investidores de Fannie Mae, Freddie Mac e AIG lucraram bastante nos tempos de vacas gordas, mas seu patrimônio derreteu na Bolsa de Valores e isso não será recompensado pelo governo americano. Em vez de simplesmente injetar dinheiro, Paulson e Bernanke tomaram o controle das resgatadas, demitiram os gestores e poderão até apresentar algum lucro, no futuro, quando elas forem privatizadas de novo. Alguns bancos menos importantes, como o Lehman Brothers, fecharam as portas e outros, como o Merrill Lynch, foram engolidos pelos maiores. Em todos os casos, os acionistas perderam dinheiro como nunca. Entre mortos e feridos, salvaram-se os tolos: os cidadãos que nunca ouviram falar em subprime, nunca investiram em ações e não têm nada a ver com a ganância de investidores e especuladores. Os capitalistas foram punidos, exceto os mais inteligentes ou sortudos, que saíram do negócio antes da derrocada e foram substituídos por outros, os patos que tinham capital e estavam de plantão. O deus mercado é cruel, mas escreve certo por linhas tortas.
Assim que a poeira baixar, os críticos do capitalismo e do liberalismo econômico irão exigir novas regras de conduta no setor bancário para evitar futuras crises e desperdícios de dinheiro público. Provavelmente, o resultado será a criação de amarras e mecanismos de controle sobre as atividades das instituições financeiras. Foi o que aconteceu após as fraudes contábeis da Enron, no início do século, que desembocaram na draconiana lei Sarbanes-Oxley. Apesar dela, ninguém tem 100% de certeza da fidelidade dos balanços dos bancos e de muitas empresas americanas, como indicam as sucessivas quedas da Bolsa em Wall Street. A desconfiança é geral. Como a natureza humana não irá mudar, a mão do Estado vai ficar mais pesada e os gestores do dinheiro (com a anuência dos donos) tentarão driblar a regulamentação e a fiscalização, inventando novas operações financeiras atrativas e rentáveis. Até a próxima crise. Deve haver algum sistema econômico melhor que esse - o universo é infinito. Infelizmente, os humanos ainda não descobriram.
Não me siga, estou perdido
Nº edição: 619 | 19.AGO - 10:00 | Atualizado em 02.02 - 12:36
Antes de mais nada, uma confissão: não tenho blog, não possuo Twitter, não estou no Orkut, no Linked in, no Facebook.
por Luiz Fernando Sá

No Twitter há os Forrest Gumps da internet - têm seguidores, mas nem sequer sabem para onde vão
Aos olhos de muitos, posso ser um dinossauro, um ser fadado à extinção em um mundo cada vez mais tecnológico.
Prefiro me ver como um observador externo desses fenômenos da internet. Acredito mesmo que sobreviverei a todos eles e, definitivamente, não me recusarei a aderir a qualquer um deles, a qualquer momento, se julgar que compensa.
Quando se trata de evolução, creio no pragmatismo. Toda nova ferramenta pode ser usada, mas não pelo simples fato de estar surfando a mesma onda de todos. Importa é tirar o melhor proveito dela, fazer dela um verdadeiro instrumento de avanço.
Tuitar por tuitar (perdoem o neologismo) é perda de tempo e, logo algum instituto de pesquisas dirá, pode ser até improdutivo. Chega a ser assombrosa a maneira como muitas pessoas, em pleno horário de expediente, gastam minutos preciosos atualizando seus perfis no Twitter, descrevendo cada minuto de sua vida como se fosse o último, expondo detalhes desimportantes e, em casos extremos, até intimidades.
Na falta de vagas num reality show da tevê, encontram nas redes sociais sua chance de se transformar em protagonistas de suas próprias vidas, ainda que apenas narradas por si mesmos em suas próprias páginas. E, de quebra, têm a oportunidade de medir sua audiência, um ibope instantâneo, através do número de seguidores. É tudo muito tentador. Um dia você não é ninguém, em outro tem seguidores, como um líder espiritual.
Ou seria como um Forrest Gump da internet? O personagem do filme corria sem parar, puxando uma longa fila de (eis a palavra mágica!) seguidores. O primeiro não sabia por que estava correndo. Quem vinha atrás esperava que aquilo tudo tivesse um sentido, que um dia seria revelado. Um dia Forrest Gump parou, sem dar explicações. A turba se dispersou e ninguém ganhou nada com tanto esforço. Já aconteceu com a Wikipedia.
A outrora revolucionária enciclopédia livre online, que crescia com contribuições de qualquer mortal, hoje perdeu relevância e tem dificuldades para se manter. O Second Life, em que os usuários criavam personagens para viver uma nova vida no mundo virtual, tenta se reinventar para não sumir. Outros fenômenos da internet, Orkut e Facebook, ainda têm força, mas tendem a ser superados pelo modelo ligeiro e prático do Twitter.
Este, dentro de algum tempo, pode se deparar com algum sucessor, principalmente se não convencer pessoas e empresas de que é mais do que uma passarela eletrônica para desfiles de egos. Casos de uso inteligente da ferramenta estão disponíveis, mas nem sempre suficientemente reluzentes para não serem ofuscados pelo modismo. Tuitar da maneira certa não é simplesmente se expor, mas criar um canal de comunicação direta com públicos específicos, dando respostas rápidas a quem realmente lhe interessa.
Para as empresas, pode ser crucial. A companhia aérea britânica Virgin, por exemplo, descobriu que tuitar é o passatempo favorito dos passageiros desde que começou a oferecer acesso à internet em seus voos. Com programas que permitem monitorar o que escrevem a seu respeito na rede social, constatou que muitos desses clientes comentavam o próprio voo, nem sempre com elogios. E passou a usar o Twitter para interagir com eles.
Ficou notória a história da passageira que tuitava se queixando do preço das bebidas a bordo. O tuiteiro da Virgin agiu rápido. Conectou-se a outros internautas no mesmo voo e sugeriu: "Alguém estaria disposto a pagar uma bebida à colega?" A experiência foi única para todos e não custou um tostão à companhia.
Quanto valerá o Twitter dentro de alguns anos e quanto tempo ele durará depende, sobretudo, de como seus criadores conduzirão a tecnologia do terreno da novidade bacaninha para o da ferramenta realmente necessária. Por enquanto, ele está na primeira fase. E muitos usuários deveriam colar nos seus perfis aquele velho adesivo que se lia nos vidros traseiros dos carros: "Não me siga, estou perdido".
Viagem sem volta
Nº edição: 618 | 12.AGO - 10:00 | Atualizado em 02.03 - 15:24
Responda rápido: o que faz você comprar o produto de uma determinada marca?
por Carlos Sambrana

Jacqueline Ruas, de apenas 15 anos, foi para a Disney e morreu durante o voo de retorno ao Brasil. A agência de viagens Tia Augusta sobreviverá?
Responda rápido: o que faz você comprar o produto de uma determinada marca? Qualidade, preço, serviço e outros atributos são cruciais na escolha. Há, contudo, um aspecto que se destaca diante de qualquer outro quesito. Trata-se da confiança, algo que não se conquista repentinamente, da noite para o dia, mas que pode ser perdida num único ato, em um instante. A agência de viagens Tia Augusta, com 35 anos de mercado, encontra-se nesse limiar entre a credibilidade acumulada nas últimas décadas e uma tragédia que culminou na morte da jovem Jacqueline
Ruas, de apenas 15 anos, na madrugada do dia 2 de agosto. A adolescente fazia parte de um grupo que retornava de uma viagem de 12 dias a Orlando, nos Estados Unidos, e morreu em pleno voo de retorno ao Brasil. A notícia, por si só, já seria aterrorizante de qualquer modo. Mas ela veio de uma forma ainda mais dramática. Em entrevista ao jornal O Globo, Carla Soares de Faria, de 39 anos, mãe da jovem Fernanda, de 16 anos, afirmou que sua filha foi a primeira a sair da área de desembarque. "Ela veio correndo nos meus braços, desesperada, falando que a amiga tinha morrido. Todos os outros pais que estavam no local entraram em pânico", recorda. A história que se seguiu foi - e ainda é - recheada de dúvidas.
De acordo com a agência de viagens, Jacqueline já não estava bem em Orlando, onde teve sintomas de gripe e mal-estar. Lá, ela foi atendida no Hospital Celebration, dias antes do retorno ao Brasil, e fez exames diante da suspeita de ter contraído a gripe A(H1N1). O resultado teria dado negativo e os médicos liberaram a menina dizendo que era apenas uma pneumonia "leve". Acontece, entretanto, que ela não melhorou e continuou a passar mal. Colegas de quarto de Jacqueline afirmam que ela não tinha força nem para fazer as malas. Mesmo assim embarcou. O avião partiu e fez escala no Panamá. Ao desembarcar, ela disse que estava sentindo tonturas e cansaço. Nesse momento, uma cadeira de rodas foi providenciada, mas Jacqueline não foi avaliada por médico algum. A guia de turismo teria verificado que a menina não estava com febre e seguiu viagem depois que Jacqueline teria dito que estava melhor. No segundo trecho da viagem, pouco antes de pousar no Brasil, aconteceu o pior. Uma amiga que estava do lado da menina tentou acordá-la e percebeu que ela estava muito gelada, a tripulação foi chamada, e dois médicos que estavam a bordo foram acionados para prestar socorro. Em vão. No atestado de óbito, consta que ela morreu de choque séptico e broncopneumonia. Só o laudo necrológico que deve sair dentro de um mês poderá dizer se, de fato, ela estava com gripe suína.
Fatalidades, obviamente, acontecem. A questão por trás da morte de Jacqueline é se a Tia Augusta agiu corretamente. Ela deveria ter embarcado? O atendimento médico foi suficiente? O hospital foi irresponsável? A guia deveria ter procurado um médico no Panamá? A agência de viagens convocou uma coletiva de imprensa e disse que havia tomado todas as medidas possíveis. A família de Jacqueline diz o contrário. A tia da garota, Magda da Paz Santos, afirmou que ninguém foi avisado sobre a situação da menina. "Se soubéssemos disso teríamos entrado em contato com um médico aqui no Brasil para saber como proceder", disse a tia em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo. "Ela até poderia ter morrido, mas teríamos acompanhado todo o processo." Em nota oficial, a Tia Augusta afirmou que, "a agência jamais omitiu quaisquer informações à família sobre a saúde da jovem." O fato é que criou-se uma desconfiança geral sobre os procedimentos adotados pela agência. "Isso é fatal, principalmente para uma empresa que atua na área de serviços", diz Francisco Barone, professor da Fundação Getúlio Vargas. Responda rápido: você deixaria a sua filha nas mãos da Tia Augusta?
A farra do bônus e a meritocracia
Nº edição: 617 | 05.AGO - 10:00 | Atualizado em 30.01 - 19:02
Quem pensava que a farra do dinheiro fácil havia acabado em Wall Street estava enganado.
por Milton Gamez

"Se o banco teve prejuízo, onde conseguiu dinheiro para pagar o bônus?", reclama o procurador Andrew Cuomo
Apesar da crise do sistema bancário, que exigiu a injeção de vários bilhões de dólares em dinheiro público para evitar a quebra sistêmica de instituições, os grandes bancos continuaram a pagar bônus milionários aos seus executivos em 2008.
Os números, apresentados pelo procurador-geral de Nova York, Andrew Cuomo, chocaram os americanos na quinta-feira 30 e tendem a causar muita controvérsia nos Estados Unidos nos próximos meses. Um conjunto de nove bancos que receberam socorro do governo pagou US$ 32,6 bilhões em bônus, apesar de registrarem prejuízo de US$ 81 bilhões em suas atividades. Cerca de cinco mil operadores e executivos dessas instituições receberam mais de US$ 1 milhão de remuneração adicional ao salário.
No Citigroup, que saiu da crise tendo o governo como maior acionista individual - a fatia no capital chega a US$ 60 bilhões -, os pagamentos extras chegaram a US$ 5,3 bilhões. No Goldman Sachs, 953 felizardos receberam bônus milionários. No Morgan Stanley foram 428 premiados pelo desempenho. Como classificou o presidente Barack Obama em janeiro, quando saíram as primeiras notícias sobre os pagamentos generosos nos bancos quebrados e mantidos em pé com o dinheiro do contribuinte, essa prática é uma "vergonha".
"Se o banco teve prejuízo, onde conseguiu dinheiro para pagar o bônus?", indagou Cuomo, conhecido por combater os excessos das corporações americanas e pelo pulso firme com que combateu a evasão fiscal promovida pelos bancos suíços em seu país. Se Armínio Fraga fosse americano, poderia responder a Cuomo que o dinheiro saiu "do meu, do seu, do nosso bolso". Será? O Congresso americano certamente vai pressionar as autoridades envolvidas nessa questão, pois tem de dar respostas à opinião pública, já que aprovou o pacote de socorro ao sistema bancário. Já são favas contadas o fato de que o sistema financeiro americano será mais vigiado e regulado após a crise.
O escândalo dos bônus levanta uma outra dúvida: até que ponto haverá ingerência na política salarial dos bancos e das empresas? Para alguns críticos, os escândalos corporativos do final do século XX (Enron & cia.) e a recente crise do subprime mostram que a política de remuneração variável de acordo com o desempenho individual é danosa ao sistema como um todo, pois incentiva comportamentos irresponsáveis. Para garantir o bônus no final do ano, os funcionários dos bancos se tornam imprudentes e abrem a guarda para o risco, oferecendo crédito a tomadores duvidosos (os clientes subprime) e criando operações mirabolantes para seduzir os investidores que financiam as bolhas financeiras.
Cada um empurra o problema para a frente em benefício próprio e, quando tudo dá errado, o prejuízo é coletivo. Essa prática é descrita em detalhes por Lawrence G. McDonald, exvice- presidente do banco Lehman Brothers, o pivô da crise mundial, no livro "A Colossal Failure of Common Sense" ("O fracasso colossal do bom senso", em tradução livre), recém-lançado. Em visita a corretores na Califórnia, ele ouviu a seguinte frase: "Nosso trabalho é vender contratos de financiamento habitacional.
Depois, o problema é dos outros." Apesar dos sinais da enorme bolha do subprime, o chefão do Lehman, Dick Fuld, ignorou as advertências que recebeu de seus próprios funcionários. Seu bônus devia ser mais importante. O outro lado dessa moeda tem a ver com a essência do capitalismo americano nas últimas décadas. Os banqueiros argumentam que a política de meritocracia é a mola propulsora dos negócios, a forma correta de pagar bem a quem merece e reter os melhores talentos.
Mudar isso seria um atentado à competitividade não só dos bancos como das empresas. Essa política agressiva foi adotada no Brasil com muito sucesso nos bancos Garantia e Pactual. Não foi por acaso que os ex-donos do Garantia, liderados por Jorge Paulo Lemann, foram tão longe e o banqueiro André Esteves ficou bilionário aos 37 anos no Pactual. O desafio é encontrar o equilíbrio entre o salário justo e a recompensa pelo melhor desempenho.
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