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Relação delicada

Nº edição: 664 | 25.JUN - 21:00 | Atualizado em 26.06 - 17:29

Por falta de informação, as mulheres lidam mal com as finanças. E o resultado: estão mais endividadas que os homens.

por Vanessa Barone

O estrago normalmente começa em casa. Durante o período em que estão crescendo e sendo educadas, as crianças aprendem que gastar dinheiro é fácil e rápido: são contas com supermercado, posto de gasolina, escola, salário de empregados, IPTU, aluguel e outras despesas fixas de qualquer residência. O dinheiro voa como vendaval, como diria a música Pecado capital, de Paulinho da Viola.

E mais: como bem lembram as jornalistas Mara Luquet e Andrea Assef, no livro Meninas normais vão ao shopping, meninas iradas vão à bolsa (Ed. Letras & Lucros), crianças aprendem com as mães que dinheiro é uma coisa suja, pois passa de mão em mão. “Para os intelectuais, o dinheiro sempre foi uma coisa menor. Para os religiosos, é pecado.” Por tudo isso, dá para entender por que é melhor se livrar dele.
 

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Durante o período escolar, as coisas não melhoram. Educação financeira não está na grade da maioria das escolas. E, desta forma, saber poupar ou investir para garantir uma vida mais confortável e um futuro mais seguro não entra na pauta do dia a dia até, muitas vezes, ser tarde demais. E essa situação é mais grave entre o público feminino.

Ainda sob o efeito de uma sociedade machista, as meninas têm menos chances de aprender cedo como montar uma carteira de investimentos ou como se cria uma poupança eficiente, em que o dinheiro tenha um rendimento polpudo.

Mulher dificilmente fala de dinheiro com as amigas. Não discute taxas de juros enquanto faz as unhas. Raramente navega nos sites especializados em busca de notícias sobre quedas nos preços das ações. Por pura falta de informação, são as maiores vítimas de gerentes de bancos que tentam empurrar produtos “micados”, como títulos de capitalização.

O irônico é que são justamente as mulheres as que mais efetuam gastos com supérfluos. São despesas com roupas, acessórios, cosméticos, esteticistas, academia e por aí vai. Não é preciso ser um grande estudioso de economia para saber que são elas as principais vítimas da sedução das vitrines.

Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, o Brasil ocupa o primeiro lugar, com 44%, em número de pessoas que declararam que se endividariam para adquirir produtos de luxo. Não é à toa que esse mercado está em plena expansão. Em 2010, ele deverá faturar cerca de US$ 6,5 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Luxo (Abrael).

Arrisco dizer que isso é um resultado direto do consumo feminino.  Para comprovar, basta ver a quantidade de grifes importadas para elas versus a quantidade de grifes para eles presentes no mercado brasileiro. O problema não está somente em gastar demais, mas em fazê-lo sem planejamento, muitas vezes apelando para o usual recurso do parcelamento. Recurso, aliás, típico do varejo brasileiro.

Outro fator que comprova a pouca intimidade feminina com o quesito finanças pessoais é a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência dos Consumidores (Peic) da Fecomercio. De acordo com ela, a proporção de mulheres endividadas é superior à de homens. Cerca de 51% das mulheres possuem algum tipo de dívida, contra 48% dos homens. O dinheiro está voando mais do bolso delas. E, se nada mudar, o vendaval promete ser devastador.

 


O estatuto da conciliação

Nº edição: 663 | 18.JUN - 21:00 | Atualizado em 18.06 - 21:23

Representantes de movimentos negros foram ao Congresso e conseguiram um avanço nas ações afirmativas.

por Denize Bacoccina

O senador Demóstenes Torres, relator do projeto do Estatuto Racial no Senado, disse que substituiu a palavra “raça” por “etnia”, “para combater a falsa ideia de que existe outra raça além da humana”. Demóstenes tem razão. Está cego quem diz que não existe preconceito racial no Brasil.

Brancos podem dizer isso, por desconhecimento, mas é só perguntar a um negro sobre a sua experiência que a resposta será diferente. Nem sempre o preconceito fere a Lei Afonso Arinos. Às vezes é sutil, não passa de um olhar, de um atravessar a rua para desviar, de segurar a bolsa mais perto do corpo. Ou pode assumir a forma de uma piadinha. Engraçada, para quem conta. Não necessariamente para quem ouve.
 

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Mas o fato de existir preconceito contra negros não significa que, em vez de ser combatido, ele deve ser estendido aos não negros. Não pode prevalecer a teoria da ex-ministra de Políticas de Promoção de Igualdade Racial Matilde Ribeiro que disse que “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco”, tentando justificar uma atitude revanchista dos negros pelo passado escravagista.

Por isso, a aprovação do estatuto sem as cotas, em vez de um retrocesso, como lamentaram militantes do movimento negro, pode ser vista como uma evolução. O texto aprovado pelo Senado na semana passada pode não atender todas as reivindicações do movimento negro, mas tem o mérito de não aprofundar a divisão social.  Neste sentido, promove a conciliação e a afirmação da identidade brasileira, não de negros ou brancos separadamente.

As cotas para negros nas universidades, escolas federais e a adoção de incentivos para as empresas que contratarem negros também não passaram na versão final. As cotas nas universidades, além de instituir outro critério de seleção que não o mérito e criar uma injustiça, ainda teriam o efeito deletério de colocar um véu sobre o grave problema da má qualidade da educação básica.

Se crianças negras e brancas tiverem a mesma formação em seus primeiros anos de escolaridade, elas terão mais condições de competir em igualdade quando mais velhas. É claro que sempre restará o diferencial do esforço dos pais, mas pelo menos em sala de aula todas as crianças deveriam receber os mesmos ensinamentos. Já no caso do incentivo à contratação de negros, o prejudicado pode ser um branco pobre. Se é errado que um negro não seja contratado pelo simples fato de ser negro, por que seria correto contratá-lo apenas com base neste fato?

Mesmo sem cotas, o estatuto abre a possibilidade de ações afirmativas na educação, no trabalho, na cultura, saúde e em outras áreas e permite que o governo regulamente o assunto com decretos, que podem entrar em vigor com uma assinatura do presidente. O mais importante é que o estatuto não estimula a competição entre brancos e negros.

Não aprofunda uma divisão que já existe na sociedade brasileira entre ricos e pobres. Como mostra o exemplo americano, estimular o racismo dos dois lados não é a solução para a discriminação que ainda vitima os negros do Brasil. Quem sabe não teremos um dia uma situação em que todos sejam respeitados como seres humanos, cidadãos brasileiros, independentemente da cor da pele ou de qual continente vieram seus antepassados?

 


Crescimento não é tudo

Nº edição: 662 | 11.JUN - 21:00

Alan García voltou ao poder em 2006 e levou o país a uma expansão de 10%. Esqueceu de um detalhe: os programas sociais

por Hugo Cilo

Quem caminha pelas agitadas ruas de Lima, no Peru, logo percebe que a atmosfera econômica do país vizinho contrasta com a realidade de diversas cidades da América Latina. Em San Isidro, coração financeiro da capital peruana, dezenas de guindastes erguem prédios modernos.

Carros de luxo, que no Brasil custam mais de R$ 150 mil, já não chamam a atenção – BMW, Mercedes-Benz e Porsche são marcas comuns por lá. Nas estradas e avenidas não há buracos no asfalto. Os shoppings estão sempre lotados. A poucos minutos do centro, o Porto de Callao, um dos mais dinâmicos e movimentados do continente, está em constante ampliação.
 

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Logo ao lado, o Aeroporto Jorge Chávez deixa para trás qualquer terminal aéreo brasileiro, tanto em estrutura quanto em organização. Surpreen-dente, de certa forma. O cenário presenciado nas ruas está visivelmente estampado nos indicadores econômicos. Entre 2001 e 2008, o Peru cresceu a um ritmo de 8,7% ao ano, o melhor desempenho das Américas. No ano passado, mesmo abalado pela crise, o PIB cresceu 1,12%, depois de ter avançado 9,89% em 2008. Para 2010, já se projeta expansão entre 6,2% e 6,9%, não muito distante do que se prevê para o Brasil.

Dito isso, seria natural imaginar que o país que mais cresce no continente tivesse um presidente benquisto pela população, a exemplo dos 78% de aprovação de Luiz Inácio Lula da Silva entre os brasileiros. Mas o peruano Alan García, no poder desde julho de 2006, não tem. O índice de aprovação de seu governo está em queda livre.

Hoje, apenas 26% dos eleitores votariam nele em uma eventual tentativa de reeleição. No mês passado, a fatia era de 32% e, em abril, 34%. Onde ele errou? Na área social. Ao contrário de Lula, o presidente García não lançou nenhum tipo de Bolsa Família, Luz Para Todos, Bolsa Escola, Fome Zero, nem turbinou pensões e aposentadorias.

Prova da repercussão positiva dessas iniciativas é a atual aprovação do presidente Lula. O nível de satisfação é mais alto entre os mais pobres e os moradores da região Nordeste, onde o percentual atinge 92%. No Peru, a disparada dos investimentos estrangeiros em extração de minérios tem aumentado o atrito entre comunidades indígenas e grande companhias – o que, evidentemente, sem o jogo de cintura de García, prejudica a imagem do governo.

Com esse índice de aprovação, é improvável que ele tenha alguma influência na indicação de um novo nome dentro do Partido Aprista Peruano (Apra). Se não conseguir virar o jogo, a sucessão presidencial de 2011 deverá eleger o prefeito de Lima, Luis Castañeda, que desponta como favorito, seguido por Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori. Existe ainda o risco de o chavismo dominar a política do país. O candidato Ollanta Humala, apoiado por Caracas, tem crescido rapidamente nas pesquisas de opinião. 

Alan García vive um novo paradoxo. Seu primeiro mandato, entre 1985 e 1990, levou o Peru à hiperinflação e ao caos econômico. Ao ter uma segunda chance, aprendeu a lição do crescimento econômico, mas cometeu um deslize ao negligenciar a área social. O episódio deixa uma nova lição: a de que o crescimento econômico, por si só, não é tudo.

 

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A ética nossa de cada dia

Nº edição: 661 | 03.JUN - 21:00

Agir de boa-fé não basta. Roberto Setubal (à esq.) e Pedro Moreira Salles infringiram a legislação e foram punidos pela CVM

por Milton Gamez

Não basta ser honesto. Tem de parecer honesto. Em tempos de valorização da governança corporativa, o que valia para a mulher de César tem de ser a regra para os empresários e executivos que comandam empresas de capital aberto. Quando detêm informações privilegiadas sobre os negócios que comandam, presidentes e diretores não podem, nem devem, negociar ações das próprias companhias.

Nem mesmo pequenos valores. É o que prevê a legislação e o código de ética e conduta de muitas organizações. Não foi surpresa, portanto, mais uma punição da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em um caso envolvendo os banqueiros Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles, do Itaú Unibanco.
 

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Os dois anunciaram a criação do maior banco privado do País no dia 3 de novembro de 2008. A CVM passou um pente-fino nas negociações dos papéis dos dois grupos e descobriu que o presidente do Itaú investira R$ 213 mil na compra de 40 mil ações preferenciais da Itaúsa nos dias 23 e 24 de outubro. Para o xerife do mercado, o banqueiro infringiu a Instrução CVM nº 358/02.

Como durante 15 meses foi o interlocutor de Moreira Salles nas negociações com o Unibanco, Setubal detinha informações que outros investidores não possuíam. As ações da Itaúsa subiram 21,8% em dois dias, após o anúncio. O lucro da operação, tomando-se por base a cotação média do dia 4 de novembro, seria de R$ 143,8 mil. A CVM dobrou esse valor e chegou-se à penalidade de R$ 287,6 mil, aceita por Setubal para encerrar o assunto no termo de compromisso firmado em 24 de março passado.

Em sua defesa, o banqueiro argumentou que comprou as ações em razão da queda forte dos preços naqueles dias, em que as bolsas tremiam diante da crise bancária precipitada pela  quebra do Lehman Brothers, em setembro. Como as negociações com Moreira Salles só vingaram na noite do dia 28 de outubro, depois que o Unibanco sofreu uma forte corrida especulativa, ele entende que não fez uso de informações confidenciais, pois nas datas de compra não havia nada de concreto sobre a fusão.

Como não vendeu os tais papéis até hoje, não estava especulando. Faz sentido? Faz, mas não ameniza o delito, na visão da CVM. É de se imaginar que um banqueiro sério, com sólida reputação local e internacional, não iria se queimar por tão pouco. Se fosse para especular, melhor teria sido comprar papéis do Unibanco, que derreteram naquele mês fatídico e subiram 54% entre o piso das cotações e o dia seguinte à fusão.

Do lado do Unibanco, Moreira Salles e dois executivos aceitaram pagar R$ 150 mil cada um no mesmo termo de compromisso firmado com a CVM. O pecado foi a decisão de dobrar o limite de recompra de ações da própria instituição dias antes do acordo com o Itaú. A medida foi necessária para dar um sinal de confiança ao mercado por parte da administração do banco, em um momento de pânico.

Também é plausível. Mas, se os três sabiam das tratativas com o Itaú, não deveriam ter autorizado a operação, na ótica do xerife. Os quatro punidos são homens de bem, e tudo indica que não agiram de má-fé. Mas fica a lição: não basta falar de ética nos negócios, é preciso praticá-la no dia a dia das organizações.

 

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