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O Google, o menino e o carteiro

Nº edição: 647 | 26.FEV - 12:35 | Atualizado em 26.02 - 16:48

Decisão da Justiça italiana que prendeu três executivos do Google por violação de privacidade ameaça toda indústria de internet.

por Ralphe Manzoni Jr.

O pai do garoto e a ViviDown, uma entidade que auxilia pessoas com síndrome de Down, foram à Justiça. A sentença até agora dá uma vitória provisória a eles. O Google, que vai recorrer, definiu a decisão como “um ataque assombroso à liberdade de expressão” e alega que retirou o vídeo do ar assim que foi notificado. O governo norte-americano também reagiu e, por meio de sua embaixada em Roma, alertou que “a internet livre é um direito humano inalienável”. Esqueceu de criticar as empresas norte-americanas que ajudam a China a desenvolver sua muralha digital e assim censurar a web naquele país.
 

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Decisão da Justiça italiana que prendeu três executivos do Google por
violação de privacidade ameaça toda a indústria de internet

O veredicto da Justiça da Itália, no entanto, é um sinal alarmante para toda a indústria de negócios digitais. Ele sugere que o Google não é apenas uma ferramenta para que seus usuários publiquem vídeos ou informações, mas também é responsável por todo o conteúdo hospedado em seus sites. Dessa forma, pode ser classificado como uma empresa de mídia, assim como jornais ou tevês, que são regulados. Numa analogia usada por um ativista de internet italiano, os juízes deveriam prender também os carteiros que transportam um produto ilegal.

Para cumprir o que diz a sentença, os funcionários do Google teriam de assistir a todos os vídeos que são publicados em sua plataforma antes de ir ao ar. Só para ter uma ideia, a cada minuto 20 horas de vídeos “sobem” no YouTube. Isso é muito mais do que a programação diária de uma rede de tevê tradicional. Seria necessário um exército de pessoas para fazer esse controle. E não é só o Google que está ameaçado com esta decisão, mas sim todos os negócios cujo modelo é baseado no que ficou conhecido como “conteúdo gerado pelo usuário”. Facebook, Twitter e MySpace, entre tantos outros, teriam suas operações inviabilizadas.

Não se pode, no entanto, eximir essas empresas da responsabilidade de controlar os seus ambientes virtuais. Cabe a elas zelar para que os usuários respeitem as leis dos países em que estão fazendo negócios e evitem divulgar toda e qualquer prática preconceituosa. E isso tem sido feito a partir de ferramentas tecnológicas e pelas denúncias dos próprios consumidores que frequentam estes sites, e avisam quando há algum problema. O caso brasileiro da comunidade online Orkut é exemplar.

Pressionado pelo Ministério Público e pela Justiça brasileira para prestar informações dos usuários que usavam a rede para publicar imagens de pedofilia, o Google demorou a entender que não estava violando o direito de privacidade de seus usuários. Na verdade, ao fornecer tais informações, ajudava a prender criminosos que usavam sua plataforma de relacionamento de forma ilegal. A internet é considerada uma terra sem lei para alguns. Lugar onde tudo é permitido e todos são absolvidos. A Justiça e os governos em todas as partes do mundo tentam regulá-la, sem muito sucesso até agora. E quando o fazem demonstram que têm muito a entender sobre a natureza da web.

 


O fim da crise ou o início da próxima?

Nº edição: 646 | 19.FEV - 13:31 | Atualizado em 06.09 - 04:30

Anote esta data: 18 de fevereiro de 2010. Ela pode sinalizar o início do fim da crise global detonada em 15 de setembro de 2008, quando o banco de investimentos Lehman Brothers quebrou nos Estados Unidos.

por Milton Gamez

Se você for pessimista, pode dizer que é o começo da próxima. Não importa: para o bem ou para o mal, nada será como antes.

Na quinta-feira 18, o Fed, banco central americano, anunciou o primeiro aumento de juros em dois anos. A taxa de redesconto, cobrada nos empréstimos de emergência para os bancos, subiu 0,25 ponto percentual, para 0,75% ao ano. Se precisarem de recursos, os bancos que procurem no mercado privado, em melhores condições, avisou o Fed. A janela do redesconto, como é conhecida, deve ser vista a partir de agora apenas como uma linha de backup.

Não se trata de uma reversão radical da política monetária, mas indica uma nova tendência na maior economia do mundo. Os juros dos federal funds (espécie de Selic americana, que balizam o custo do crédito) continuam no chão, entre 0% e 0,25% ao ano. Lá deverão ficar até o último trimestre deste ano, pelo menos.
 

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Após dois anos de estímulos, Ben Bernanke começa a subir os juros nos Estados Unidos. Prepare-se para fortes emoções

 
 

As taxas dos empréstimos para empresas e pessoas físicas tendem a se manter onde estão por um bom tempo. Quem diz isto é o próprio banco central, em comunicado divulgado na quinta-feira. Mas a alta do redesconto indica que o governo de Barack Obama e o presidente do Fed, Ben Bernanke, enxergam sinais de recuperação e começam a tirar o tubo de oxigênio que manteve a economia respirando artificialmente nos últimos dois anos.

Sem ele, o país teria perdido muito mais do que os oito milhões de empregos que desapareceram após o melancólico final da farra dos bancos com o crédito imobiliário de alto risco. Os bancos já devolveram parte da ajuda oficial, mas ainda falta muito para que voltem a irrigar a economia como faziam antes da crise. Por essas e outras, o aperto monetário propriamente dito ficou para mais tarde. A economia saiu da UTI, mas não do hospital.

O desafio para Bernanke e seus colegas no Fed é permitir ao paciente voltar a andar com as próprias pernas no tempo certo, sem que se anime demais (o que gera inflação) nem desanime ao longo do caminho (o que pode precipitar uma nova recessão). É uma processo delicado, que causa reflexos monetários e cambiais em vários países do mundo, Brasil inclusive.

Quando os juros sobem nos Estados Unidos, o fluxo global de investimentos se volta para lá, o que abala bolsas e mercados de renda fixa nos outros países. O melhor a fazer é se preparar para fortes emoções nos próximos meses. Um novo período de turbulências pode estar começando, caso os pais da crise de 2008/2009 exagerem na dose, como fizeram anteriormente.

Em 1979, Paul Volcker, presidente do Fed, salvou os Estados Unidos da inflação, mas o remédio ultraortodoxo (os juros passaram de 20% ao ano) afundou os demais países e jogou a América Latina na longa crise da dívida externa. Volcker é hoje o maior conselheiro econômico de Obama. Os tempos mudaram, mas é melhor botar as barbas de molho.

 


A conta da licença-maternidade

Nº edição: 645 | 12.FEV - 16:29 | Atualizado em 12.02 - 16:35

Um dos mais importantes pensadores do século XX, o alemão Albert Hirschman desenvolveu uma teoria para explicar os fenômenos sociais.

por Amauri Segalla

Chamada de “efeito perverso”, ela defende a ideia de que, antes de ser implementada, qualquer política pública deve avaliar os impactos negativos que a medida pode causar. Segundo Hirschman, boas intenções muitas vezes desencadeiam resultados desastrosos – é o tal do efeito perverso. Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou a ampliação da licença-maternidade de 120 para 180 dias. Segundo o texto da proposta, têm direito ao benefício as mães biológicas e as adotivas.
 

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Numa análise superficial, de caráter emotivo, a iniciativa parece uma dádiva. Não há mãe que não queira passar mais tempo com os filhos e, claro, receber por isso. Eis aqui o problema que surge numa avaliação mais atenta. Alguém precisa pagar a conta. De imediato, a fatura recai sobre as finanças públicas. Segundo a Receita, a licença-maternidade custará R$ 414 milhões para o governo, número que corresponde ao valor que os empregadores poderão abater da declaração do Imposto de Renda. Até aí, tudo bem. É papel do Estado oferecer a seus cidadãos – e pagar por isso – programas sociais que melhorem a qualidade de vida das pessoas.

O problema é outro. A fatura, na verdade, será apresentada às empresas. Graças à mão pesada do Estado, os custos inerentes ao trabalho são muito altos no Brasil. Eles estão entre os maiores do mundo e superam de longe o que é praticado em países emergentes. Não é novidade para ninguém que o Brasil tem uma legislação protecionista em relação ao trabalhador, observação que a licença-maternidade estendida ajuda a legitimar. Comparações com outras nações comprovam isso. Nos Estados Unidos, a licença-maternidade é de três meses, mas com uma enorme diferença: as trabalhadoras não são remuneradas durante o período. Na Austrália, país reconhecido pelos altos índices de desenvolvimento humano, o tempo é de 13 meses. Também sem pagamento.

Empresas, como se sabe, vivem para ganhar dinheiro. Se há o risco de as companhias terem algum prejuízo ao proporcionar o benefício às mulheres, é fácil de se imaginar o que as corporações podem fazer: elas simplesmente deixam de contratá-las. É aqui que o efeito perverso confirma toda a sabedoria de Hirschman. Nascida com a mais autêntica das boas intenções, a lei-maternidade pode se voltar contra as pessoas que ela pretende proteger. Na hora de decidir a contratação, considerando dois indivíduos com os mesmos atributos, a empresa vai escolher um homem ou uma mulher que ainda pode ter filhos? Os ingênuos dirão que nenhum gestor realmente comprometido com o bem-estar da sociedade vai levar isso em consideração. Os mais pragmáticos entenderão que elas vão, sim, ser discriminadas (como, aliás, já são em muitas corporações. Basta dar uma espiada no número de chefes do sexo feminino que estão à sua volta). Hirschman, que de perverso não tinha nada, estava certo.


Pede perdão, Paulson

Nº edição: 644 | 10.FEV - 18:50 | Atualizado em 10.02 - 19:08

Não foi a primeira e nem será a última vez que um ex-comandante da economia escreve um livro para justificar suas ações, depois de ter caído em desgraça.

por Denize Bacoccina

No Brasil, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco fez o seu quando quis defender uma política cambial que fez o Brasil queimar reservas e não impediu a maxidesvalorização do real. Desta vez, o ex-secretário do Tesouro americano Henry Paulson escreveu On the brink (No Precipício) para explicar a atuação do governo dos EUA na crise que, em setembro de 2008, provocou um furacão no sistema financeiro mundial e jogou a economia global num buraco de proporções ainda desconhecidas.
 

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Henry Paulson faz um mea-culpa de sua atuação na crise –
mas muito mais tímido do que a tragédia que ajudou a provocar

 

Ex-presidente do Goldman Sachs, Paulson deveria conhecer o sistema financeiro e suas vulnerabilidades – portanto, deveria saber o que fazer. Mas não soube. Fica evidente nas revelações do livro a cegueira de Paulson e de outros membros da equipe, que pareciam perdidos enquanto o sistema financeiro derretia.
 

Num dos trechos, Paulson elogia a coragem do então presidente George W. Bush ao apoiar o socorro aos bancos, medida que contrariava as convicções pessoais do chefe da Casa Branca. De fato, foi mesmo uma medida corajosa num país zeloso de seu Estado mínimo, do bom uso do dinheiro público e do respeito à propriedade privada.


Mas veio tarde, quando o Lehman Brothers já havia quebrado. O próprio Paulson confessa que falhou ao não perceber a gravidade do problema nos financiamentos imobiliários, descritos por ele, à época do governo, como algo sob controle.
 

No livro, Paulson não chega a fazer exatamente um mea-culpa. Ele avalia que foi bem-sucedido porque, apesar da crise financeira, conseguiu impedir uma repetição da Grande Depressão e foi capaz de evitar que o desemprego subisse para 25%.
 

É verdade que o índice não chegou aos 25% citados por Paulson. Mas é também verdade que ele não deixou a economia em boa forma. Quando saiu do governo, em janeiro do ano passado, o desemprego estava em 7,7%. Desde então, só piorou. Em dezembro, a falta de trabalho atingiu 10% dos americanos – a taxa ficou em dois dígitos pelo terceiro mês consecutivo.
 

É o dobro de dois anos atrás. E as previsões são de que o número só recue levemente no ano que vem, apesar do crescimento superior a 2,5% na economia. Para um país acostumado ao pleno emprego, à recompensa do esforço individual e à conquista do “sonho americano”, a adaptação aos novos tempos tem sido difícil.
 

Os americanos já mudaram seu modo de vida. Já poupam mais e tomam menos crédito. Comportamento oposto daquele que alimentou o período de forte expansão econômica anterior à crise. O que significa que o mundo espera pela retomada do mercado mundial sem contar com o principal mercado de consumo.
 

Outro aspecto comentado pela imprensa americana foi a revelação de que Paulson seria um homem de fé. No livro, ele aponta seu lado religioso e vulnerável, de um homem que telefona à mulher para pedir que ela reze por ele. Mas o ex-secretário não fala de Deus. Como banqueiro, acostumado às mais baixas jogadas do mercado, menciona apenas aquela “força superior”. Bom, mas se Paulson de fato acredita nela, seria a hora de vir a público não para se justificar, mas apenas para pedir perdão.



 


Criatividade 10 x 0 Lucro

Nº edição: 643 | 04.FEV - 15:52 | Atualizado em 04.02 - 15:54

O que há em comum entre Santos Dumont (1873-1932) e um desconhecido padre chamado Landell de Moura (1861-1928)?

por Tom Cardoso

O que há em comum entre Santos Dumont (1873-1932) e um desconhecido padre chamado Landell de Moura (1861-1928)? Não, não é desgosto pela vida – ao contrário de Dumont, que, abalado por uma depressão, se suicidou aos 59 anos, Landell só deixou de viver aos 67 anos, vitimado por uma tuberculose. O que aproxima os dois personagens

É a importância de suas criações e, principalmente, a absoluta falta de traquejo para transformar suas invenções em grandes negócios, uma característica que parece acompanhar uma parte dos inventores brasileiros. Apesar de ter entrado para a história brasileira como o “O Pai da Aviação”, Dumont nunca teve sua paternidade reconhecida no Exterior (creditada aos irmãos Wright) e, é bom que se diga, nunca lutou por ela.  O caso de Landell é ainda mais curioso. Ele foi o primeiro cientista a conseguir a façanha de transmitir o som por meio de ondas eletromagnéticas. Traduzindo para uma linguagem menos acadêmica: Landell inventou o rádio, em 1893, fato completamente ignorado pelos livros de história, inclusive os do Brasil. Por aqui, todos associam o invento ao cientista italiano Guglielmo Marconi.

 Padre e cientista dedicado, Landell sempre teve dificuldade em conciliar as duas atividades – foi tachado de louco por setores mais conservadores da igreja. Alguns fiéis chegaram a destruir seus aparelhos por acreditar que ele usava seus inventos “para se comunicar com o diabo”. Se nascesse nos Estados Unidos e não dedicasse metade de seu tempo à religião, Landell faria fortuna. Muitos inventores de seu gabarito entraram para a história como grandes empreendedores. O caso mais emblemático talvez seja o de Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica, do gramofone e de mais 1.300 patentes, um dos primeiros cientistas a aplicar os princípios da produção em série ao processo de invenção. Edison fundou, em 1888, a Edison General Electric, que se tornaria um dos maiores conglomerados industriais do planeta, conhecida hoje apenas como GE.

Por que, enfim, casos como o de Edison não se repetiram no Brasil? Seriam três os motivos. Primeiro, a falta de apoio oficial. Landell, em busca de reconhecimento, foi solenemente ignorado pelo então presidente Rodrigues Alves – e essa postura das autoridades ainda se mantém viva. Segundo, a pouca importância geopolítica do Brasil, na época um país de pouco prestígio econômico – hoje essa situação pouco se alterou. E, finalmente, a falta de empenho dos próprios inventores brasileiros, cuja criatividade, em geral, não é acompanhada de procedimentos básicos, como, por exemplo, o patenteamento de suas criações.  Pena que Landell não viveu para assistir a outro inventor, Andréas Pavel, alemão criado no Brasil, ganhar recentemente um processo contra a Sony Music e ser reconhecido como o criador do walkman. Pavel irá receber da multinacional uma indenização de US$ 10 millhões. Essa dinheirama o deixará milionário, mas é pouco perto do que poderia ter faturado se patenteasse sua invenção – e aí reside o problema do inventor brasileiro.