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Artigo
Todo o poder às mulheres
Nº edição: 534 | 19.DEZ - 10:00 | Atualizado em 25.03 - 17:52
Há exatamente um século, sufragetes inglesas saíram às ruas e se acorrentaram à porta de Downing Street 10 para exigir o direito de voto das mulheres.
por Octávio Costa
Há exatamente um século, sufragetes inglesas saíram às ruas e se acorrentaram à porta de Downing Street 10 para exigir o direito de voto das mulheres. Hoje, Angela Merkel é a primeira-ministra da poderosa Alemanha, Michelle Bachelet é presidente do Chile e Cristina Kirchner acaba de ser empossada na Presidência da Argentina. As mulheres chegaram lá. O exemplo de maior significado histórico está reservado para novembro do ano que vem, quando Hillary Clinton poderá se tornar a presidente dos Estados Unidos. E o Brasil, como fica diante da onda feminina? Chegará o dia em que uma mulher comandará os destinos da Nação? É prematuro apostar as fichas no nome de Dilma Rousseff?
O futuro a Deus pertence. Mas, a considerar a posição atual das peças do tabuleiro, a ministra da Casa Civil aparece, sem dúvida, como forte candidata à sucessão do presidente Lula em 2010. Ela tem a seu favor uma importante evolução cultural. O espaço das mulheres na cena política brasileira já foi devidamente pavimentado. Os preconceitos chauvinistas pertencem ao passado. Vai longe a eleição pioneira de Roseana Sarney para o governo do Maranhão em 1994. No ano passado, o número de governadoras multiplicou-se por três, com Ana Júlia Carepa, no Pará, Wilma de Faria, no Rio Grande do Norte, e Yeda Crusius, no tradicionalíssimo Rio Grande do Sul. Por sinal, Porto Alegre já tem três pré-candidatas à prefeitura para 2008. Só falta ao Brasil equiparar-se ao Chile e à Argentina e passar a faixa presidencial a uma herdeira legítima das lutas do século passado.
O desempenho de Hillary Clinton nos EUA certamente influenciará o eleitorado tupiniquim. Se a senadora sair vitoriosa, alimentará a chance de uma mulher ser eleita presidente do Brasil. Os partidos políticos sabem disso e o presidente Lula também. Por mais que diga que não tem preferências e admita apoiar um candidato de fora dos quadros do PT, Lula começa a dar claros sinais de simpatia pela candidatura de Dilma Rousseff. Sopra o balão com cuidado para não o inflar antes da hora. De início, a ministra negou que tivesse pretensões políticas, mas, agora, seus movimentos denunciam o projeto palaciano. Justiça seja feita: a opção Dilma não é artificial. Longe disso. A ministra vem tendo sucesso na condução das iniciativas econômicas do governo. À frente dos investimentos do PAC, surpreendeu aos que não conheciam seus dotes de executiva. Inaugurou uma nova época na precificação das obras de infra-estrutura. Com alta dose de ousadia, animou a competição e conseguiu jogar por terra o pedágio de rodovias e as tarifas das novas hidrelétricas.
Dilma tem limitações. Se foi abençoada com faro fino em economia e negócios, falta-lhe o necessário jogo de cintura político. Há, por exemplo, quem atribua à Casa Civil parcela de culpa no fiasco da CPMF. Não custa lembrar que Hillary Clinton também tem seus pontos fracos. Não se iguala ao carismático marido e acaba de perder o apoio da apresentadora Oprah Winfrey. Mas continua favorita. Afinal, nada é impossível para o marketing político. No caso de Dilma, será feito grande esforço para torná-la mais conhecida dos eleitores. Sua imagem passará por retoques. Além da competência, terá de transmitir simpatia. Hoje, ela é considerada sisuda demais para quem pretende se submeter ao escrutínio popular. Seus adversários dentro e fora do PT contam exatamente com isso e lembram que a ministra jamais passou pelo batismo das urnas. Reconhecem, contudo, que Dilma pode surfar na crista da onda feminina.
Vale lembrar, finalmente, que, apesar do apoio de Lula, Dilma Rousseff enfrentará concorrência no próprio partido. Até as pedras sabem que a ministra Marta Suplicy sonha com o Palácio do Planalto. E outro nome vai ganhando corpo, nos bastidores e sem muito alarde. Mineiramente, o ministro Patrus Ananias está colhendo os frutos do programa Bolsa Família. Nas pesquisas de opinião encomendadas pelo PT, ele surge bem à frente de Dilma. Mas não se ilude. Sabe que sua exposição é maior e que o jogo está apenas começando. Patrus tem outro bom motivo para não se afobar: tudo indica que a vez será das mulheres.
Artigo
Nº edição: 532 | 05.DEZ - 10:00 | Atualizado em 01.03 - 16:09
Artigo
por Leonardo Atuch
Na terça-feira 27, o catalão Vicente Trius, presidente do Wal-Mart no Brasil, reproduziu aquele roteiro clássico que executivos de multinacionais são obrigados a fazer de tempos em tempos. Foi a Brasília, visitou autoridades e anunciou grandes investimentos. À noite, recebeu parlamentares para um jantar fechado. No caso do Wal-Mart, o que está orçado para 2008 são gastos de R$ 1,2 bilhão na abertura de 36 novas lojas, que deverão gerar 7,1 mil empregos. É um número relevante – o maior da história da empresa no País – e que tem ligação direta com o bom momento da economia brasileira. Na rede varejista americana, há um estudo interno, chamado de Consumidor 2020, projetando que o Brasil crescerá, no mínimo, 50 pontos acima da média mundial a cada ano. Se o mundo avançar 4%, o Brasil rodaria a 4,5%. Além disso, os ganhos de renda ficariam concentrados nas classes mais baixas, indicando que o consumidor continuará sensível ao fator preço. Parece óbvio, mas o fato é que, melhor do que qualquer outro grupo, o Wal-Mart indica ter descoberto a fórmula para crescer de forma consistente no Brasil. Desde 2001, a taxa de expansão das vendas por loja tem sido próxima a 10% ao ano. É mais do que o dobro da média do mercado – em alguns casos, há concorrentes com vendas estagnadas ou até declinantes. Trius tem a explicação na ponta da língua: preço, preço e preço. “Ninguém pode nos acusar de não contribuir para a queda no custo de vida no Brasil”, diz ele.
Todos os dias, o executivo acompanha uma pesquisa feita com mais de três mil itens, em supermercados e hipermercados do País. Os preços, garante Trius, são pelo menos 7% mais baratos no Wal-Mart. Deve se descontar seu entusiasmo pela empresa que lhe paga o salário, mas já há estudos comprovando que a rede varejista, de fato, atua como uma força deflacionária na economia. “Nos Estados Unidos, a inflação é 10% a 15% mais baixa graças ao Wal-Mart”, disse à DINHEIRO o jornalista Charles Fishman, editor da revista Fast Company. No ano passado, Fishman publicou o livro The Wal-Mart Effect, que vendeu mais de 100 mil cópias nos Estados Unidos. “A busca obsessiva por preços baixos, efetivamente, transfere os ganhos de eficiência para os clientes”, diz Fishman. Isso significa que a rede fundada por Sam Walton, em Bentonville, torna mais fácil o trabalho do Federal Reserve, o banco central americano. Até porque, nos Estados Unidos, de cada US$ 100 gastos no varejo, US$ 10 caem nos bolsos do Wal-Mart. É o que os estudiosos chamam de share of pocket, ou seja, a fração do seu bolso que fica com determinada empresa.
No Brasil, a posição do Wal-Mart no varejo não pode ser comparada com a dos Estados Unidos. Mas, neste ano, com vendas superiores a R$ 15 bilhões, a rede se aproxima dos seus principais rivais: Carrefour e Pão de Açúcar. Além disso, cada loja inaugurada é quase um fenômeno cultural, em que o Wal-Mart vira tema de conversa de bar e de porta de escola. Dias atrás, ao abrir um hipermercado na Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, a empresa vendeu mais de 70 televisores de plasma, em menos de três horas – um recorde. “A filosofia deles é clara”, diz Fishman. “Se o Wal-Mart conseguir fazer com que cada cliente brasileiro economize R$ 500 por ano, sabe onde ele vai gastar? No próprio Wal-Mart.”
Mas há também um lado sombrio. Os mesmos estudiosos que revelam o impacto positivo de redução de preços, também apontam um efeito negativo em empregos. Segundo Fishman, se uma loja abre 500 vagas numa localidade, cinco anos depois, haverá 50 empregos a menos na região. Isso porque grande parte do comércio local terá sido aniquilada. “As pessoas não compram a mesma coisa duas vezes”, diz ele. “Ocorre que o Wal-Mart não só toma o lugar do antigo fornecedor como faz melhor, com mais eficiência e custo menor.” É por isso que a rede americana encontra dificuldades para se expandir nos países europeus, mais conservadores. O Brasil, no entanto, parece ser terreno fértil para a expansão da insaciável máquina de vendas da família Walton.
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