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Artigo
O Haiti é aqui
Nº edição: 642 | 27.JAN - 10:00 | Atualizado em 02.02 - 10:43
O odor podre que vem das ruas invade as casas - é difícil caminhar sem levar as mãos ao nariz ou tapá-lo com um pano
por Carlos Sambrana
O odor podre que vem das ruas invade as casas - é difícil caminhar sem levar as mãos ao nariz ou tapá-lo com um pano. Móveis e utensílios domésticos destruídos, como geladeiras e fogões, ocupam as avenidas, abandonadas ao próprio destino. As doenças proliferam exponencialmente, a leptospirose impera como se fosse um pequeno resfriado.
As pessoas gritam, clamam por socorro, choram... Perdem a esperança. Não, caro leitor, esse lugar não é o Haiti. Como diria o compositor Caetano Veloso, o Haiti é aqui. Bem aqui, na cidade de São Paulo, a décima capital mais rica do mundo, com um PIB de R$ 319,9 bilhões, o que, de acordo com a Fundação Seade, representa 12% de todo o dinheiro movimentado no Brasil. É bem aqui na cidade que milhares de pessoas estão com suas casas debaixo d'água há 40 dias. O Haiti brasileiro tem nome: Jardim Pantanal, que engloba alguns bairros da zona leste do município paulista.
Parte da região está inundada desde dezembro do ano passado, os moradores convivem diariamente com insetos de todos os tipos, têm de caminhar no meio das águas e até serpentes já deram as caras na região metropolitana.
O que espanta diante desta situação é que os bairros estão na cidade mais rica do País. E, enquanto o Brasil brinca de potência discutindo com os Estados Unidos quem comanda as operações no Haiti, as autoridades parecem esquecer que aqui nos seus quintais a situação é caótica. A capital paulista sucumbe ao menor sinal de relâmpagos. Na quinta-feira 21, a cidade amanheceu com 29 pontos de alagamento, nove mortos em função de desabamentos e desmoronamentos e um trânsito absolutamente parado.
Ao explicar para a população o que havia acontecido, o prefeito Gilberto Kassab parece ter aprendido a lição com os moradores do Jardim Pantanal, só que de uma maneira diferente: em vez de tapar o nariz para não sentir o cheiro pútrido, Kassab parece ter levado as mãos aos olhos. Pelo menos, essa foi a sensação de quem escutou a sua entrevista na qual ele diz que a população deveria "ficar tranquila", porque "não houve falhas e os investimentos feitos para evitar os alagamentos estão surtindo efeito".
Pergunte aos moradores do Jardim Pantanal se eles estão tranquilos ou faça a mesma indagação para empresas paulistanas do setor de comércio que, no último dia 8 de dezembro, quando as chuvas pararam São Paulo, perderam R$ 16 milhões. O caos originado pelas enchentes é extremamente nocivo para a economia paulistana. De acordo com um estudo do economista Marcos Cintra, professor da FGV, os cidadãos de São Paulo perdem R$ 26 bilhões por ano em congestionamentos. Em desperdício de combustíveis, é algo próximo a R$ 7 bilhões.
As enchentes só agravam esse cenário. Esse é apenas um número, frio, que mostra o efeito da catástrofe. Para os moradores do Jardim Pantanal, o drama é maior. Além de problemas psicológicos - muitos não conseguem escutar o barulho do trovão que já entram em pânico -, os habitantes das regiões alagadas contraíram doenças e perderam quase tudo o que possuíam, até mesmo a dignidade. A lama, até agora, foi a única coisa que restou. Você ficaria tranquilo?
Ele vai matar o livro
Nº edição: 640 | 13.JAN - 10:00 | Atualizado em 19.08 - 18:39
a varejista virtual norte-americana Amazon.com vendeu mais livros eletrônicos do que físicos no Natal de 2009
por Ralphe Manzoni Jr.

A varejista virtual norte-americana Amazon.com vendeu mais livros eletrônicos do que físicos no Natal de 2009. O Kindle, seu popular e-book, também foi o presente mais comprado da história da companhia. Os investidores começam a ficar irritados com a companhia de Jeff Bezos por não divulgar dados específicos sobre o desempenho comercial do produto.
At questão não é de números, mas de lógica. Assim como aconteceu com a indústria de música e a cinematográfica, o setor editorial também vai ter de se adaptar ao formato digital. Não será um tsunami, mas deixará os seus esqueletos pelo caminho.
O primeiro corpo será o livro no seu formato físico. O outro cadáver serão as editoras que acreditarem que a profecia é apenas previsão de falsos profetas apocalípticos. Há várias vantagens no livro eletrônico. Em primeiro lugar, ele é ecológico. Não é preciso derrubar árvores para produzi-lo. Ele também poupa espaço nas estantes dos leitores. O Kindle, por exemplo, pode guardar até 1,5 mil obras. Não se esqueça de que ele é portátil. Portanto, é possível levar sua biblioteca completa na pasta ou mochila. As telas dos e-books estão também cada vez mais sofisticadas e menos brilhantes. Quem já teve a experiência de ler em um Kindle diz que depois de minutos o formato eletrônico deixa de ser notado. O que resta é o prazer da leitura. É isto o que importa, independentemente de o livro ser digital ou de papel.
As editoras parecem já ter percebido que o livro no formato físico é um "animal" a caminho da extinção. Uma pesquisa realizada na Feira de Frankfurt com mais de mil representantes do mercado editorial de todos os continentes indicou que eles acreditam que em 2018 os livros eletrônicos superarão em volume de negócios os de papel. No Brasil, a Zahar começou a disponibilizar parte do seu acervo por meio da Gato Sabido, a primeira loja puro-sangue de e-books do País.
Os escritores Paulo Coelho e Rubem Fonseca já vendem seus livros em formato digital. E a recifense Mix Tecnologia promete lançar o primeiro aparelho brasileiro para ler livros eletrônicos. O Mix Leitor D chegará ao mercado no primeiro semestre de 2010. Ele se somará aos fabricados pela Samsung, Fujitsu, Sony e Amazon. Há outro incentivo que promete impulsionar ainda mais o livro eletrônico no Brasil. A Justiça decidiu que os leitores de e-books contem com a mesma imunidade tributária de livros e revistas importados. Até agora, eles vinham sendo tratados como eletrônicos, cuja taxa é de 60%.
Desde que a primeira Bíblia foi impressa por Gutenberg, em 1455, nunca houve uma tecnologia que tivesse durado por mais de 500 anos. O livro, neste período, pouco mudou do seu formato original. Se Gutenberg ainda estivesse vivo, provavelmente reconheceria um exemplar nos dias de hoje. O fundador da Amazon.com, Jeff Bezos, revolucionou o varejo quando fundou a empresa em 1994. Agora, ele está mudando a forma como lemos. Eu não sentirei saudade das traças.
A força da marca Schumacher
Nº edição: 639 | 06.JAN - 10:00 | Atualizado em 22.02 - 17:05
Os amantes do automobilismo não vão sentir saudade de 2009
por Amauri Segalla
Os amantes do automobilismo não vão sentir saudade de 2009. O ano teve quase de tudo. Equipes como Ferrari ameaçando sair da competição, denúncias de marmelada (Nelsinho Piquet e sua batida proposital) e até um campeão, o inglês Jenson Button, sem carisma. Resultado: audiência em queda na Europa e nos Estados Unidos, diminuição das receitas com patrocínio e redução do público nos autódromos. O que fizeram os organizadores do circo para conter a onda negativa? Trouxeram de volta o alemão Michael Schumacher, o maior ídolo da história do esporte, que tem nas costas sete títulos mundiais e uma coleção invejável de recordes.
Por mais que a decisão de Schumacher, que vai correr pela escuderia Mercedes, tenha a ver com um desejo irrefreável de pilotar os bólidos da Fórmula 1, a volta de uma marca como a sua carrega a responsabilidade de recuperar o esporte perante a opinião pública mundial e, por consequência, fazer o dinheiro jorrar novamente nos cofres das equipes e dos organizadores.
Algumas marcas são tão valiosas que sua simples existência é capaz de determinar o sucesso – ou o fracasso – de um empreendimento. No mundo corporativo, Steve Jobs é a prova concreta dessa teoria. Em 1997, a Apple estava à beira da falência e Jobs, que estava fora da empresa, foi chamado às pressas para tirá-la do buraco. Mais recentemente, seu afastamento da Apple, por razões médicas, fez com que a empresa tivesse suas maiores perdas financeiras em anos. Obviamente, isso se deve a uma série de fatores, mas a saída de cena do inventor do iPod pesou na performance da Apple. Assim que Jobs voltou, as ações da companhia imediatamente subiram. O que Jobs fez? Na prática, nada. Apenas a força de sua imagem foi suficiente para inspirar seus admiradores.
No mundo do esporte, retornos de grandes estrelas foram motivados, na maioria das vezes, por razões financeiras, embora os protagonistas neguem isso até o fim. Michael Jordan, o maior jogador de basquete da história, ficou dois anos longe das quadras. O resultado foi catastrófico para a NBA. A audiência televisa dos jogos despencou e, à época, sua ausência gerou perdas de US$ 400 milhões à liga americana, segundo cálculos de uma agência local especializada em esportes. Em 1995, Jordan voltou às quadras – e foi justamente nesse ano que a NBA atingiu seu recorde histórico de audiência. Audiência, lembre-se, pode ser traduzida em alguns milhões de dólares.
Até que ponto Schumacher vai ser capaz de turbinar o desempenho econômico da Fórmula 1? Se ele é o Jordan – ou o Pelé – do automobilismo, não é exagero dizer que o alemão trará um caminhão de dinheiro para a categoria. E isso é resultado apenas da força de sua imagem.
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