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Artigo
A Cracolândia, o Pinheirinho e o carro 1.0
Nº edição: 748 |
03.FEV.12 - 21:00 | Atualizado em 07.Feb.12 - 11:55
A desocupação da Cracolândia, região central da cidade de São Paulo tomada por usuários do crack, e a reintegração de posse do Pinheirinho, bairro periférico de São José dos Campos, no mês passado, chamaram a atenção por dois motivos.
por Cláudio Gradilone
A desocupação da Cracolândia, região central da cidade de São Paulo tomada por usuários do crack, e a reintegração de posse do Pinheirinho, bairro periférico de São José dos Campos, no mês passado, chamaram a atenção por dois motivos. O primeiro foi a atuação desastrada do poder público, especialmente da Polícia Militar, que agiu com grande estardalhaço e com uma boa dose de truculência. O segundo foi o surpreendente apoio da população. Uma pesquisa do instituto Datafolha, divulgada no domingo 29, mostrou que 82% dos entrevistados aprovaram a atuação policial na Cracolândia. Os comentários das notícias da desocupação do Pinheirinho mostraram opinião semelhante.

A imagem da moradora expulsa do Pinheirinho mostra um Estado alinhado com os novos
desejos dos eleitores e menos tolerante com as questões sociais.
A tônica era “se invadiram, são criminosos, e devem ser punidos”. É fácil, depois do ocorrido, considerar que os policiais foram desnecessariamente agressivos e os ocupantes foram vítimas. Ambos estavam errados. Os invasores por tomar posse de áreas privadas. E a polícia por tratar a todos como criminosos. A imagem da moradora aos prantos por encontrar demolida a casa que ocupava no Pinheirinho repercutiu fortemente no País e no Exterior e mostrou um Estado muito menos tolerante com o que pode ser chamado, com razoável grau de imprecisão, de “questões sociais” que não estão incluídas nas políticas públicas estruturadas.
Esse é o ponto mais significativo do apoio à truculência nas desocupações. A redução da tolerância do poder público não ocorreu por acaso. Só os mais ingênuos acreditam que os governantes tomam qualquer decisão sem pesar como ela vai melhorar ou piorar seus índices de popularidade – ainda mais em um ano eleitoral como 2012. Assim, uma imagem mais dura, autoritária e moralizadora só existe porque os detentores de cargos públicos notaram que essa era uma demanda da maioria dos eleitores. Isso não ocorreu por acaso , mas é um reflexo do processo de ascensão social da população brasileira que vem ocorrendo ininterruptamente nos últimos anos.
A inserção de 49 milhões de brasileiros nas classes A, B e C entre 2003 e 2011 – levantada por uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas – não se limitou a transformar cidadãos em consumidores, turistas e proprietários. Ela também criou eleitores muito mais conservadores. É compreensível. Quem está apertando o cinto para pagar seu primeiro imóvel ou carro 1.0 não quer nem ouvir falar de redistribuição de renda. Ou seja, cresce o apoio a soluções eficazes, ainda que truculentas, para questões como propriedade da terra e tratamento dos dependentes químicos. “Desocupe” e “Interne-se à força” recebem mais aplausos do que “Negocie” e “Trate-se”.
Essa mudança é preocupante e não apenas em termos sociais. Além da estabilização da economia e do equilíbrio das contas públicas, o que garantiu a inserção de uma Inglaterra de brasileiros no mercado foi a mobilidade social e econômica. Uma sociedade mais fechada, autoritária e conservadora pode reproduzir, de maneira ampliada, a dinâmica da exclusão que durou várias décadas. O cidadão da recém-emergida classe C, que apoiou maciçamente a linha dura na Cracolândia, pode cerrar fileiras para estancar a ascensão da classe D e travar o acesso de mais compatriotas às benesses do desenvolvimento – se o poder público não agir com igualdade e isenção para garantir os direitos de todos.
Fundadores ou afundadores?
Nº edição: 747 |
27.JAN.12 - 21:00
Quer saber qual é a sensação de ser demitido da própria empresa? Pergunte ao mercado de tecnologia. No começo deste ano os fundadores de dois grandes ícones do setor viveram o pesadelo de abandonar a companhia que criaram.
por Clayton Melo
Quer saber qual é a sensação de ser demitido da própria empresa? Pergunte ao mercado de tecnologia. No começo deste ano os fundadores de dois grandes ícones do setor viveram o pesadelo de abandonar a companhia que criaram. Um desses casos, talvez o mais emblemático, é o de Jerry Yang, o idealizador do Yahoo!, uma das primeiras estrelas mundiais do setor de internet. Na semana passada foi a vez de Mike Lazaridis e Jim Balsillie, os inventores do Blackberry, o smartphone que um dia dominou o segmento corporativo. Eles foram obrigados pelos acionistas a deixar o comando da canadense RIM, a fabricante do aparelho. Em todos os casos, a perda constante de participação de mercado foi determinante para que recebessem o cartão vermelho.

Balsillie (à esq.) e Lazaridis, criadores do Blackberry, deixam o comando da RIM
após anos de resultados ruins.
Mas o aspecto fundamental a ser observado nas histórias de Yahoo! e RIM é que os tropeços nos negócios são sintomas de um mal muito maior e que ameaça diretamente o futuro delas, especialmente por se tratar da área de tecnologia: a perda da capacidade de inovar. Tanto Yang como Lazaridis e Balsillie souberam, a seu tempo e em seu espaço, criar mercados. Tiveram ideias brilhantes e as colocaram em prática na hora certa. A RIM, por exemplo, revolucionou a telefonia celular ao lançar o Blackberry, em 1999. A principal novidade do aparelho era um sistema que permitia o recebimento de e-mails no celular automaticamente.
Em pouco tempo, o Blackberry estava nas mãos de praticamente todos os executivos. Mas o xis da questão é que a companhia dormiu em berço esplêndido até ser acordada pelo barulho provocado pelo iPhone, em 2007. Sem grandes mudanças ao longo dos anos e diante das inovações apresentadas por Steve Jobs, o smartphone da RIM ficou com cara de museu e, assim, a participação da companhia no setor caiu de 15% para 11% em 2011. A RIM poderia ter evitado esse pesadelo se tivesse aprendido a lição com o Yahoo! Fundado em 1994, o portal obteve sucesso ao oferecer uma ampla gama de serviços de web, principalmente o e-mail, e o de busca.
O tempo fechou, porém, com o crescimento do Google. Com a ambição de organizar a informação mundial e torná-la universalmente acessível e útil, a empresa desenvolvida por Larry Page e Sergei Brin, em 1998, desbancou em poucos anos o Yahoo! ao elevar a qualidade das buscas a um nível muito mais sofisticado e complexo. Em resumo, o que aconteceu nos casos de Yahoo! e RIM é que os empreendedores souberam dar o primeiro passo, mas não souberam dar o seguinte, ou seja, adequar suas companhias às novas circunstâncias do mercado. No meio digital, por exemplo, as redes sociais e a internet móvel transformaram radicalmente a internet, e o Yahoo não conseguiu responder a esses desafios.
A mobilidade também modificou o setor de celulares, obrigando as fabricantes a inserir inovações e facilidades num intervalo cada vez mais curto, movimento que a RIM não acompanhou. Ainda que os dias atuais não sejam tão felizes para Yang, Lazaridis e Balsillie, eles podem voltar a trilhar o caminho do sucesso. Há um exemplo de empreendedor brilhante que foi demitido da própria empresa e depois retornou a ela, reiniciando uma trajetória de glória: Steve Jobs. O criador do iPhone foi enxotado da Apple em 1985 e retornou uma década depois para resgatar a companhia, que estava à beira da falência. Como ele reconquistou o sucesso? Preservou seu espírito inovador e procurou antever o que estava depois da curva, mantendo a Apple como sinônimo de inovação e vanguarda tecnológica.
Colaborou: Rodrigo Caetano
A Previdência a caminho do azul
Nº edição: 746 |
20.JAN.12 - 21:00 | Atualizado em 26.Jan.12 - 16:37
A queda do desemprego, uma das consequências mais positivas do crescimento econômico que o Brasil teve nos últimos anos, está ajudando também a resolver um rombo que parecia insolúvel.
por Denize Bacoccina
A Previdência urbana, ajudada pela criação de vagas, pela formalização do trabalho já existente e pelo aumento dos salários, teve um superávit de R$ 20,8 bilhões em 2011, mais que o dobro do ano anterior. O déficit da aposentadoria rural é insolúvel pela sua própria origem. Diferentemente da aposentadoria urbana, disponível apenas para os trabalhadores que contribuíram para o sistema, a aposentadoria rural foi criada, pela Constituição de 1988, para beneficiar todos os trabalhadores do campo. Trata-se de um benefício social, que deve ser bancado pelo Tesouro, e neste caso o erro é esperar que a contribuição dos trabalhadores urbanos seja suficiente para equilibrar as contas.
O rombo só vai diminuir quando o governo mudar o regime de aposentadoria dos funcionários públicos.
Rombo, mesmo, é a aposentadoria dos funcionários públicos. Hoje eles se aposentam pelo último salário da ativa, com o teto de R$ 26.723, o equivalente ao dos ministros do Supremo Tribunal Federal, não importa quanto tempo tenham trabalhado recebendo aquele salário. Os outros, os da iniciativa privada, recebem uma média dos últimos anos, limitado ao teto de R$ 3.916 – mas o famigerado fator, um cálculo que leva em conta o tempo de contribuição e a expectativa de vida, invariavelmente reduz esse valor. O ministro da Previdência, Garibaldi Alves, diz que, para acabar com o fator, só criando uma idade mínima, mas a negociação com os sindicatos ainda vai render muito.
Por mais desagradável que seja a ideia de passar mais tempo trabalhando e contribuindo, Garibaldi tem razão: o aumento da idade é necessário num país cuja expectativa de vida vem aumentando. No ano passado, o déficit dos servidores públicos foi de R$ 56 bilhões. O governo estima que este ano o rombo suba para R$ 61,6 bilhões. E tende a aumentar nos próximos anos, quando um grande número de funcionários públicos se aposentar. O buraco só vai diminuir quando o governo mudar o regime, e incluir os servidores nos mesmos limites dos demais trabalhadores – em vez de fazer o conjunto dos contribuintes pagar pelo privilégio de alguns poucos.
Para se ter uma ideia, o rombo de R$ 56 bilhões do setor público é destinado a menos de um milhão de beneficiários. E é isso o que o governo se dispôs a fazer, até agora com surpreendente sucesso. Nos últimos meses o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, negociou no Congresso a criação do Fundo de Previdência Complementar do Servidor Público da União (Funpresp), que vai estabelecer um teto para a contribuição do governo, semelhante à contribuição do funcionário, que passará a ter o mesmo limite dos funcionários das empresas privadas. Quem quiser receber mais, contribui para o fundo, como se fosse um fundo de previdência privado.
Igualzinho aos demais trabalhadores brasileiros. A estimativa é que a contribuição do governo deve passar dos atuais 22% para algo entre 7,5% (proposta do governo) e 8,5% (reivindicação dos sindicatos). O projeto deve ser votado este ano, e é importante que ele seja criado antes dos concursos para a renovação do quadro de pessoal, já que só vale para os novos funcionários. Os atuais servidores, que vão se aposentar nos próximos anos pelo salário integral, ainda ajudarão a elevar o rombo da Previdência por algum tempo. Mas, pelo menos, o governo já começou a construir o fim dessa injustiça.
Por que não exportamos mais manufaturados?
Nº edição: 745 |
13.JAN.12 - 21:00 | Atualizado em 15.Jan.12 - 20:41
O Brasil é bom ou ruim na hora de exportar? Eis um tema polêmico. Sim, o País brilhou ao aumentar as exportações de 2011 em 26,8% ante as de 2010, alcançando inéditos US$ 256 bilhões em receita.
por Carla Jimenez
O Brasil é bom ou ruim na hora de exportar? Eis um tema polêmico. Sim, o País brilhou ao aumentar as exportações de 2011 em 26,8% ante as de 2010, alcançando inéditos US$ 256 bilhões em receita. São números alentadores para um ano sui generis como foi 2011. No entanto, sempre resta a incômoda sensação de que poderíamos ter sido muito melhores se a participação dos manufaturados na pauta de exportações superasse os 38%, medidos pela régua da Organização Mundial do Comércio (OMC). A discussão é sinuosa. Não é demérito ampliar as exportações de bens básicos, ainda mais quando os grandes compradores elevam a altura de seus muros de protecionismo.

Não há demérito em ampliar a exportação de bens básicos, ainda mais quando avançar é
romper muralhas protecionistas, como a dos EUA à carne suína brasileira.
Tivemos dois exemplos na semana passada. Na terça-feira 10, os americanos aceitaram comprar carne suína in natura brasileira. A abertura veio na esteira do acordo sobre o contencioso do algodão que os dois países travaram até 2010. O Brasil questionava os subsídios do governo americano aos seus produtores de algodão, e venceu a pendenga na OMC. Brasil e EUA concordaram que as barreiras sanitárias contra a carne brasileira seriam revistas. Coincidência ou não, na quarta-feira 11, os mesmos americanos questionaram o uso de um pesticida na produção de laranja, o que poderia interromper o fluxo de exportações brasileiras de suco.
Prova que o comércio exterior é um campeonato muito difícil de ser disputado, mas cujas regras o Brasil já domina. Agora, quando a pauta de manufaturados entra em campo, o País perde de goleada. Tomamos bolas nas costas uma dezena de vezes nos principais ciclos econômicos globais. Nos anos 1980 as nações ricas corriam para se posicionar como fornecedores de tecnologia e investiam em inovação. Mas o Brasil vivia da mão para a boca, se esforçando para iniciar a redemocratização, salvar-se da inflação e da dívida externa. A colheita do que cada país semeou no passado é muito clara hoje.
Nos Estados Unidos, berço da Apple, Intel e Microsoft, 73% das exportações são de manufaturados: tablets, chips, etc. Já o Brasil, continua firme em commodities. Quando exporta bens de maior valor agregado, são carros, sapatos e maquinários, mercados onde há muito mais competidores. Mudar esse quadro leva tempo. Embora o País tenha aprendido a pensar diversas questões no longo prazo, permanecemos no padrão da mão para a boca nas exportações de manufaturados. O programa de política industrial Brasil Maior, lançado no ano passado, por exemplo, dedica uma parte aos exportadores, mas com iniciativas tímidas, como a devolução de créditos fiscais para empresas que exportam.
Os Estados Unidos não só têm incentivos para a venda como para o investimento das empresas exportadoras, assim como um forte banco de fomento, o Eximbank, para financiar o comércio. O foco no assunto é estratégico, a ponto de o governo americano lançar, neste mês, o estudo A Competitividade e a Capacidade Inovadora dos Estados Unidos, que mapeia forças e deficiências do país e deve pautar políticas de longo prazo para reforçar o papel dos americanos no comércio mundial. O Brasil até chegou a ensaiar um Eximbank brasileiro, mas faltou bala na agulha para bancar o projeto. O País trabalha, agora, para substituir importações, buscando atrair cadeias de fornecedores estrangeiras de diversos segmentos, como equipamentos para área de saúde e eletroeletrônicos, mas ainda sem um norte de longo alcance.
O ocaso da Apple
Nº edição: 744 |
06.JAN.12 - 20:43 | Atualizado em 11.Jan.12 - 15:54
A morte do fundador da Apple, Steve Jobs, em outubro de 2011, levantou uma série de questionamentos sobre o futuro da empresa de tecnologia que ele fundou na garagem de sua casa e que hoje é comandada por Tim Cook (foto).
por Ralphe Manzoni Jr.

Clique e ouça um resumo da reportagem
A morte do fundador da Apple, Steve Jobs, em outubro de 2011, levantou uma série de questionamentos sobre o futuro da empresa de tecnologia que ele fundou na garagem de sua casa, na Califórnia, em 1976, com o amigo Steve Wozniak. Considerado um gênio da inovação, Jobs revolucionou diversas indústrias com seus produtos: computação, música, entretenimento, telefonia celular e mídia. Sem ele no comando, segundo alguns críticos, a Apple perderá a chama da inovação e estará fadada ao fracasso. Para outros analistas, ao contrário, Jobs foi capaz de criar uma cultura que se disseminou para seus principais executivos, como Tim Cook, o atual CEO, e Jonathan Ive, o responsável pelo design das engenhocas tecnológicas.

Tim Cook tem a missão de manter a empresa de Jobs no topo. Mas seu desafio é provar que será
possível criar novos mercados e deixar acesa a chama da inovação.
Dessa forma, o DNA da Apple estaria preservado e, por consequência, seria possível antever um futuro brilhante para a companhia sem Jobs. Se analisada em uma perspectiva histórica, com ou sem Jobs, a Apple está fadada a um lento ocaso, assim como a IBM e a Microsoft. A explicação para isso é o seu modelo de negócios. Jobs, desde o início, sempre controlou todo o processo, do hardware ao software. A história do Macintosh é ilustrativa. Lançado por Jobs em 1984, o Macintosh foi um computador que marcou uma era. O problema é que era facilmente copiado. Tanto que a concorrente Microsoft, um ano depois, lançou o Windows. Ele não era tão bom quanto o produto da Apple. Também não foi em sua primeira versão que os PCs equipados com o software da empresa de Bill Gates se transformaram em um rival à altura para o Macintosh.
Mas em 1990, com o Windows 3.0, a Microsoft criou uma alternativa barata, confiável e que poderia ser usada por todos os fabricantes. O declínio da Apple, nos anos seguintes, foi visível. Em 1997, quando Jobs retornou à companhia, ela estava à beira da falência. As recentes inovações da Apple, como o iPhone e o iPad, seguem o mesmo roteiro do Macintosh. Ambos foram revolucionários e criaram um novo patamar para o mercado. Desde então, os concorrentes correram para fazer algo parecido. E já conseguiram. O Windows para celulares e tablets tem nome: chama-se Android. Não é, então, de se estranhar o que Jobs disse a seu biógrafo, o jornalista americano Walter Isaacson, sobre o sistema do Google: “Vou destruir o Android porque ele é um produto roubado. Vou mover uma guerra termonuclear.”
Os números demonstram que, pelo menos em celulares, a Apple já está perdendo a batalha. No primeiro trimestre de 2011, o iOS, que equipa o iPhone, detinha uma participação de mercado de 16,8%, segundo a consultoria americana Gartner. No terceiro trimestre deste ano, essa fatia havia caído para 15%. O Android, por sua vez, havia crescido de 36% para 52,5% no mesmo período. A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, escreveu o filósofo alemão Karl Marx, em sua obra O 18 Brumário de Luis Bonaparte. Caberá aos executivos da Apple, em especial a Tim Cook, provar que será possível criar novos mercados. Especula-se muito sobre a entrada da companhia na área de tevês, um projeto que Jobs teria deixado pronto antes de morrer. Será preciso cativar os milhões de fãs ao redor do mundo para manter acesa a aura de inovação da companhia. Do contrário, muitos irão abandoná-la por alternativas tão boas e mais baratas.
O Brasil em busca do padrão europeu
Nº edição: 743 |
28.DEZ.11 - 19:47 | Atualizado em 06.Jan.12 - 16:35
O Reino Unido, desbancado no ranking das maiores economias do mundo, tem renda per capita três vezes maior que a brasileira, e metade da taxa de analfabetismo.
por Denize Bacoccina
A segunda-feira 26 trouxe um presente de Natal atrasado para os brasileiros: o País ultrapassou o Reino Unido no ranking das maiores economias do mundo e passou a ocupar a sexta posição. Motivo para comemoração, claro, mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu o necessário tom de realidade. Disse que o crescimento obtido pela economia num cenário internacional tão adverso era positivo, mas lembrou que os brasileiros só terão um padrão de vida semelhante ao europeu dentro de dez ou 20 anos. Isso se o Brasil trabalhar duro para continuar crescendo no ritmo atual ou até mais acelerado. Crédito para o ministro por não se contaminar pela euforia.
Muito já foi feito e o Brasil tem o que celebrar com a melhoria de vida dos mais pobres. Mas o caminho ainda é longo. A renda per capita brasileira, de US$ 12,9 mil por ano, é maior do que a de alguns emergentes. Ganha da Índia (US$ 1,5 mil) e da China (US$ 5,1 mil), mas perde para a Rússia – US$ 13,2 mil. A Europa ambicionada pelo ministro está bem longe. O Reino Unido, desbancado pelo Brasil, tem renda per capita três vezes maior – e uma população de 62 milhões de pessoas, menos de um terço da população brasileira. A taxa de analfabetismo dos britânicos também é a metade da nossa. E, em termos de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o Reino Unido ocupa um privilegiado 28º lugar no ranking global, enquanto o Brasil está em 87º.

Temos muita sola de sapato para queimar... Para ocupar um lugar entre os primeiros no ranking que realmente interessa, o de qualidade de vida, é preciso investir no futuro. Já temos um razoável mercado consumidor, mas o País ainda carece de infraestrutura. Não só de estradas, pontes e portos, mas de uma boa infraestrutura social, de recursos humanos. O Brasil vai continuar recebendo uma enxurrada de investimentos para novas fábricas e serviços mais sofisticados. E o setor produtivo vai precisar de profissionais cada vez mais qualificados. Toda empresa sabe que tem que treinar seus funcionários para desempenhar tarefas específicas na área em que atua. Mas as deficiências brasileiras vão além.
A Confederação Nacional da Indústria calcula que o País forma a cada ano metade dos 60 mil engenheiros de que precisa. Enquanto isso, as faculdades particulares de direito se proliferam, com alunos bolsistas dos programas do governo federal, e mensalidades que custam pouco mais do que um curso de inglês. É uma verdadeira distorção. Hoje já são 1,1 mil cursos em todo o Brasil, muitos carecendo de qualidade. A prova é a baixa aprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Até o ano passado, o índice de aprovação era de apenas um aluno a cada dez inscritos. E o Brasil continua precisando de mais engenheiros do que de advogados.
Uma mudança para valer nas condições de vida da população e um salto para uma economia mais sofisticada, com melhores empregos e renda, só são conseguidos com investimentos maciços em educação. Não apenas pequenas melhorias, como as que vêm ocorrendo, mas com mudanças estruturais. A queda no índice de desemprego – mesmo com a crise lá fora – é um exemplo de que a economia continua dinâmica. O Brasil precisa responder a esse dinamismo oferecendo à sua população a chance de melhorar de vida de verdade, e não apenas na comparação com quem foi mais duramente atingido pela crise, no caso, os britânicos.
Confiança dos brasileiros é o capital de Dilma
Nº edição: 742 |
22.DEZ.11 - 19:14 | Atualizado em 27.Dec.11 - 17:15
A atriz Lílian Cabral faz reverência à presidenta. No mundo dos negócios, Dilma também tem colhido sinais de aprovação importantes para encarar 2012 de frente.
por Carla Jimenez
Foi uma reverência espontânea. Antes de receber o prêmio Personalidade do Ano, das mãos da presidenta Dilma Rousseff, na festa da Editora Três, na primeira semana de dezembro, a atriz Lilia Cabral curvou-se numa saudação, abrindo os braços diante dela, num sinal de estima e respeito. Durante o encontro, outra atriz premiada, Deborah Secco, não resistiu e, ao cumprimentar a presidenta, beijou suas mãos. A identificação feminina parece explicar os gestos carinhosos da dupla de artistas. É bom ser mulher e ver outra mulher no mais alto cargo de um país. Antes de Dilma, somente a princesa Isabel exercera o papel de mandatária do Brasil, em períodos muito curtos, quando o pai, o imperador dom Pedro II, se ausentava. Depois de um ano de mandato, não é só no universo feminino que Dilma tem colhido sinais de aprovação. No mundo dos negócios, a presidenta também vem recebendo manifestações de apoio, importantes num momento em que a sintonia fina entre governo e setor privado torna-se mais do que desejável para enfrentar as densas nuvens que se aproximam da Europa.

Nesse caso específico, vale utilizar uma cara lição das artes marciais: podemos ser, nós mesmos, nossos maiores inimigos. Com tantas variáveis positivas da economia brasileira – reservas em alta, desemprego baixo, menor dependência das exportações e crescimento da renda da população –, ceder ao pessimismo global pode tirar o País do seu prumo. Não se trata de fingir que o Brasil está acima do bem e do mal. Mas de debater à exaustão quais são as alternativas práticas e viáveis para superar as ameaças, administrando as vantagens de um jogo em que os brasileiros vêm marcando pontos. Pessoalmente ou por meio de emissários, Dilma tem procurado os empresários. Não é novidade, para eles, serem ouvidos pelo governante de plantão. Mas em relação a Dilma parece haver um sentimento diferente: a presidenta ouve mais do que Lula, seu antecessor, ouvia. E busca traduzir em atos o que ficou acertado com seus interlocutores.
“Há mais ressonância e ela se preocupa em agir segundo nossas sugestões”, avalia Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Elétrica e Eletrônica. Quem já trabalhou com a presidenta, ainda nos tempos de ministra de Minas e Energia, lembra que ela entende de gestão pública: tem iniciativas e “acabativas”, cobrando a sequência dos assuntos para que não haja dispersão do que já foi combinado. “Decisões não têm perninhas, precisam ser cobradas”, diz um interlocutor de Dilma. A presidenta fechou, ainda, o ano com aprovação popular recorde. E é com esse rico capital político que Dilma começará o ano de 2012. Tão ou mais valioso que os US$ 352 bilhões das reservas no Banco Central, o voto de confiança da sociedade implica também obrigação de corresponder à expectativa. Trabalhar a favor do desenvolvimento exigirá foco e a coragem de dar um passo além.
É certo que, para o empresariado, encarar um ano difícil, usando o potencial criativo, não chega a ser novidade. Muitas vezes os empresários foram convocados a pensar fora da caixa para driblar dificuldades. A boa-nova será ver a presidenta usando esse potencial a favor da economia, ao mesmo tempo em que trabalha por uma gestão mais eficaz dos recursos públicos. Se operar de forma correta nessas duas frentes, poderá elevar ainda mais os níveis de aceitação de seu governo, principalmente se continuar a travar um combate sem trégua contra a corrupção, uma chaga que envergonha a todos os brasileiros. Que venha, então, 2012, com corações e mentes escancarados ao diálogo.
"Poblema" operacional em Cumbica
Nº edição: 741 |
16.DEZ.11 - 21:00
Paciência é indispensável aos usuários do Aeroporto Internacional de São Paulo, que devem chegar a 31,5 milhões até o fim de 2011.
por Cláudio Gradilone
A cena era corriqueira no desembarque internacional no aeroporto de Cumbica, em São Paulo, naquela manhã de novembro. Filas na Polícia Federal, uma confusão nas esteiras transportadoras de bagagens e rostos que exibiam o cansaço das longas horas de voo noturno. O Brasil é um destino longínquo para quem vem da Europa, da Ásia ou dos Estados Unidos, e mesmo cidades razoavelmente próximas, como Nova York ou Miami, estão a oito ou dez horas de viagem. Nesse momento, o sistema de som dos alto-falantes se fez ouvir. “Informamos aos passageiros procedentes de Londres que, por um poblema (sic) operacional, suas bagagens devem ser retiradas pela esteira de número cinco em vez da esteira de número sete.” O aviso se repetiu por três vezes, mantendo a agressão ao vernáculo. Não foi possível, porém, detectar um erro que fosse no comunicado em inglês – pois não existiu. Presume-se que, em um voo internacional operado por uma companhia aérea britânica procedente de Londres, haja pelo menos um passageiro que não seja fluente em português.

Esse eventual turista ou homem de negócios teria de contar com o tradicional acolhimento e cortesia brasileiros para indicar-lhe a esteira onde retirar sua bagagem. Vencida essa etapa, ele teria outros “poblemas” para enfrentar. O “poblema” das longas filas na Polícia Federal para que ele pudesse ser autorizado a entrar no Brasil. O “poblema” de ter de recorrer ao monopólio da única empresa autorizada a operar uma loja no aeroporto internacional, se quisesse eventualmente comprar um presente para alguém por aqui. Ou o “poblema” de ter de pagar as tarifas salgadas da empresa de táxi que opera o monopólio do transporte de passageiros entre o Aeroporto Internacional e os municípios da Grande São Paulo. A gravidade desses “poblemas”, porém, empalidece diante de questões mais sérias. Em julho, a Infraero contratou a construção do terceiro terminal de Cumbica em regime de urgência, de modo a evitar o caos aéreo no fim de 2011. O terminal será desconectado da estrutura do aeroporto e ganhou o simpático apelido de “puxadinho”, sendo construído a jato.
No entanto, com a pressa, a casa – literalmente – caiu. A estrutura em construção desabou no início de dezembro e a inauguração ficou para janeiro. “Aconteceu um incidente. O que podemos fazer? Paciência”, disse Gustavo Vale, presidente da Infraero. É uma recomendação sábia. Paciência é um requisito indispensável aos usuários de Cumbica, que devem chegar a 31,5 milhões até o fim de 2011, um crescimento de mais de 20% em relação ao fluxo de 2010. A urgência em resolver essas dificuldades torna-se mais e mais premente à medida que se aproximam as datas de abertura da Copa do Mundo e da Olimpíada de 2016. Apenas na quinta-feira 15 as autoridades divulgaram as regras para a concessão de Cumbica, Viracopos e do aeroporto de Brasília à iniciativa privada, e o leilão está previsto para o dia 6 de fevereiro. O preço subiu para R$ 3,4 bilhões, e acrescentou-se a exigência de que os consórcios participantes tenham um sócio estrangeiro com experiência de cinco anos na administração de aeroportos. Uma garantia adicional contra “poblemas” operacionais e de gestão.
Por que o filme de Wall Street queimou
Nº edição: 740 |
09.DEZ.11 - 21:00 | Atualizado em 15.Dec.11 - 10:44
Apenas cinco anos nos separam do lançamento do filme Em busca da felicidade. De lá para cá, os mocinhos do mercado financeiro viraram vilões da crise.
por Clayton Netz
O filme Em busca da felicidade, de 2006, conta a história de Chris Gardner, um jovem pai de família sem emprego e sem dinheiro, abandonado pela mulher, que para tornar ainda mais miserável sua existência deixa o único filho sob sua guarda. Depois de muitas peripécias, sempre com o garoto a tiracolo, Gardner, protagonizado pelo ator Will Smith, consegue um emprego numa corretora de Wall Street. Baseado em fatos reais, o drama é uma elegia à determinação e força de vontade do cidadão comum, do tipo que é negro, pobre e mora longe, e apresenta a conquista de um lugar na indústria financeira como uma bênção dos céus. Campeão de bilheteria, Em busca da felicidade, que valeu a Smith uma indicação ao Oscar, dificilmente seria filmado com seu enredo original nos dias de hoje. Apenas cinco anos nos separam do seu lançamento, mas quanta coisa mudou desde então. Não é que nos Estados Unidos e pelo mundo afora não sobrem exemplos de gente desesperada em busca de uma vida melhor ou de um simples prato de comida.

A diferença é que os tempos de bonança econômica e de euforia do início da segunda metade da década passada não existem mais. Muito possivelmente, a corretora que oferecia uma vaga de estágio para 20 candidatos que não hesitariam em matar a própria mãe para conquistá-la tenha fechado suas portas, arrastada pelo tsunami financeiro que se seguiu à quebra do Lehman Brothers, em 2008. Em outras palavras, a Wall Street que aparecia como uma espécie de Himalaia para Chris Gardner no filme ficou para trás. Calcula-se que nada menos do que 110 mil funcionários tenham sido demitidos nos últimos três anos pelos bancos de investimentos e firmas de corretagem instaladas ali. Evidentemente, demissões em massa, períodos de declínio e frustrações ocorreram no passado.
Como lembra o jornalista Kevin Roose, do The New York Times, a débâcle do mercado de ações, na chamada Sexta-Feira Negra, como ficou conhecido o dia 19 de outubro de 1987, ou o colapso das empresas pontocom, no ano 2000, confirmam a vulnerabilidade do mercado e a alternância dos ciclos de alta e de baixa.A diferença, frisa Roose, é que os problemas de hoje vieram para ficar, afetando particularmente os jovens financistas, as principais vítimas dos cortes. Mas o pior, mesmo, é a mudança de status do setor financeiro junto às mentes e aos corações do respeitável público. “Houve época em que ser jovem em Wall Street significa ter tudo: estilo, astúcia e dinheiro demais para gastar com sabedoria”, escreveu Roose. Não por acaso, a disputa por postos de trabalho numa corretora ou num banco em Wall Street arrefeceu, não entusiasmando os jovens MBAs.
Em vez de Goldman Sachs, JPMorgan Chase e Morgan Stanley, eles preferem concorrer a empregos na Apple, no Google ou no Facebook. Mas porque o setor financeiro saiu inapelavelmente marcado da crise de 2008. Desde então, virou quase uma unanimidade criticar os banqueiros pelo uso irresponsável e ganancioso das possibilidades abertas pelo avanço tecnológico, que levou o setor financeiro a colocar-se acima dos países e dos governos, e pela desregulamentação que tudo permitiu, dando vazão à criatividade deletéria dos gênios residentes. Some-se a isso o vigor de movimentos como o “Ocupe Wall Street” e se terá uma ideia de como ficou difícil a vida desse pessoal. Envergonhados, muitos deles procuram esconder que trabalham ali. Que diferença da época de Gardner! Os mocinhos do mercado financeiro viraram vilões da crise do capitalismo.
A nova disputa pelo controle da Usiminas
Nº edição: 739 |
02.DEZ.11 - 21:00
A disputa pelo prêmio de controle da Usiminas é muito menos visível que o chute no engravatado, mas igualmente danosa para o capitalismo brasileiro.
por Cláudio Gradilone
A melhor imagem da privatização da Usiminas, concluída com choro e ranger de dentes no dia 24 de outubro de 1991, é a foto abaixo: um manifestante contrário à venda chutando um anônimo engravatado. Ambos – agressor e agredido – personificavam a disputa visceral que se desenrolava então sobre os rumos do desenvolvimento brasileiro. De um lado, os defensores de uma economia cartorial, estatizada e ineficiente. De outro, os autoproclamados paladinos da modernidade, representada pelo então presidente Fernando Collor, que tentava atualizar o capitalismo brasileiro com uma boa dose de truculência. Uma das promessas era a possibilidade de que os brasileiros pudessem comprar ações da empresa privatizada. Isso permitiria que os ganhos fossem repartidos entre muitos. Não há dúvida de que a privatização fez bem à siderúrgica.
A Usiminas de 1991 faturou US$ 1,03 bilhão e lucrou US$ 60 milhões. A de 2010 faturou US$ 6,8 bilhões e lucrou US$ 943 milhões. A receita foi multiplicada por sete e o lucro por 15. No entanto, a participação dos pequenos investidores nesse processo ainda é apenas uma promessa. Duas décadas depois de deixar de ser estatal, a Usiminas também deixou de ser brasileira. Seus controladores agora são os argentinos da Ternium, controlada pelo grupo italiano Techint, e os japoneses da Nippon Steel. Ao contrário de 1991, o processo foi isento de paixões políticas e de manifestações ruidosas. Mesmo assim, a nova venda da Usiminas mostra que o capitalismo brasileiro ainda tem um longo caminho a percorrer. Pela Lei das Sociedades Anônimas, que foi aprovada dez anos após a privatização, os investidores que tivessem ações ordinárias teriam direito a 80% do prêmio de controle no caso de a empresa mudar de mãos.

A Usiminas afirma que seu controle não mudou. Os minoritários – entre eles a Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil – discordam, e prometem pleitear sua fatia do prêmio de controle. Não se discutem, aqui, filigranas legais. O fato é que a Usiminas tem novos donos. Mesmo assim, apesar de a lei das Sociedades Anônimas proteger os minoritários, é pouco provável que eles consigam participar dos frutos da transação sem mobilizar um exército de advogados e enfrentar uma longa batalha legal. Essa disputa é muito menos visível do que o chute no engravatado há duas décadas, mas é igualmente danosa para o capitalismo brasileiro. A dolorosa abertura da economia exigiu que empresários e trabalhadores encetassem uma marcha forçada em direção à modernidade. O mercado de capitais não ficou ao largo desse processo.
Além da lei das S.A. e da instalação do Novo Mercado, ambos de 2001, várias empresas vêm discutindo com seriedade formas de aperfeiçoar sua governança corporativa. No entanto, casos como o da Usiminas (e vários outros, menos recentes) mostram que muitas companhias abertas de grande porte ainda não enxergam seus “pequenos” acionistas como sócios, ou seja, parceiros nos períodos de vacas magras e nas épocas de dinheiro farto. E nunca é demais lembrar: apesar de todos os seus defeitos, distorções e injustiças, o eficiente mercado de capitais americano é o instrumento mais eficaz para gerar – e distribuir – riqueza em grande escala.