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Dinheiro da Redação

Até onde vai a inflação?

Nº edição: 861 | 17.ABR.14 - 17:00

O dragão inflacionário, quem diria, voltou a amedrontar! De maneira sistemática, difusa e com prejuízos já contabilizados

por Carlos José Marques

O dragão inflacionário, quem diria, voltou a amedrontar! De maneira sistemática, difusa e com prejuízos já contabilizados. O custo da dívida pública, por exemplo, deve ser elevado em quase R$ 30 bilhões neste ano por conta da carestia já registrada. E assim o Tesouro, pelos cálculos preliminares de técnicos, deverá gastar perto de R$ 207 bilhões sob a rubrica de rolagem dos títulos atrelados ao IPCA e à Selic. Isso é quase um terço da meta de economia pretendida pelo Ministério da Fazenda. Uma conta extra com benefício zero para o País! O efeito cascata é conhecido: impacto no déficit público, nos investimentos e, por consequência, em toda a economia. 

 
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E não é só por essa faceta nefasta que o aumento da inflação vem incomodando. No bolso dos consumidores e no caixa das empresas o impacto tem sido também notado fortemente. Alimentos foram impactados, assim como os setores de vestuário, serviços e as cadeias em torno. O mês de abril corrente cravou a maior alta do IGP-10 para o período desde 2004. Na bolsa de apostas a maioria acredita que antes mesmo do final de 2014 o teto da meta seja, várias vezes, quebrado e que a soma dos doze meses alcance o índice de 6,47%, em escala de subida geométrica de 2015 em diante. Seria um alerta, sem dúvida, de descontrole com um impacto psicológico que poderia desencadear remarcações em série. 
 
Contra tal cenário, as autoridades monetárias passaram a centrar seus esforços nas ameaças conjunturais. O remédio adotado é o de sempre: juros e mais juros. Um artifício de eficácia duvidosa. Eles podem momentaneamente frear o consumo e a volúpia por crédito. Mas, a longo prazo, trazem efeitos colaterais implacáveis. O resfriamento da economia é o maior deles. O Brasil já vem andando de lado faz tempo e, a seguir nessa toada, corre o risco de parar. As expectativas sobre o crescimento do PIB não param de cair. As últimas projeções apontam para um número inferior a 1,65%. Menos da metade do que era esperado inicialmente. A herança deixada para quem vencer as eleições de outubro, ao que tudo indica, não será fácil de ser administrada.

A tempestade perfeita

Nº edição: 860 | 11.ABR.14 - 20:30 | Atualizado em 17.Apr.14 - 02:03

Água e luz, dois dos insumos fundamentais do País, estão em via de uma crise sem precedentes

por Carlos José Marques

Água e luz, dois dos insumos fundamentais do País, estão em via de uma crise sem precedentes. O racionamento do primeiro já é uma realidade inevitável no motor da economia brasileira, São Paulo, a despeito das inconsequentes negativas oficiais. O governo paulista, como a tentar tapar a luz com a peneira, demorou mais que o razoável para emitir um comunicado a respeito. O rodízio de água só foi admitido pela primeira vez na semana passada e deve desembocar por aqui como medida emergencial às vésperas da Copa do Mundo. Sem planejamento ou reserva suficiente para uma política de distribuição adequada, dá para se imaginar o tamanho da encrenca que vem pela frente, com milhões de reais em prejuízos na produção e caos de atendimento no campo social. 

 
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O esquema a ser montado corre o risco de naufragar na nascente pelo seu caráter de improviso. Os ventos também não são nada favoráveis no plano da energia. O rombo do setor já ultrapassou a casa dos R$ 20 bilhões. É buraco a ser coberto diretamente pelos consumidores. A presidenta Dilma negocia nos bastidores com distribuidoras para empurrar a conta até o próximo ano, quando as eleições estarão definidas. O fator político tem pesado bastante, como fiel da balança nesses casos. O que é lamentável! Ninguém quer assumir o ônus de medidas impopulares com a proximidade da corrida às urnas. 
 
Montaram, pela imprudência administrativa, a tempestade perfeita. E com ela uma pororoca de reajustes de tarifas e cortes de fornecimento está se armando. Os bancos, que resistiram em participar do pool para socorrer as elétricas com empréstimos, acabaram cedendo e colocando créditos de R$ 11,2 bilhões à disposição das distribuidoras. Mesmo assim, estima-se um repasse de monta para os consumidores: a conta de luz deve subir estrondosos 20% em 2015. Algo descabido depois das promessas populistas de desconto anunciadas tempos atrás. O certo é que o represamento de decisões de longo prazo está deixando um preço alto, enquanto políticos miram seus esforços no objetivo maior da permanência no poder.

Aécio entusiasma

Nº edição: 859 | 04.ABR.14 - 20:30 | Atualizado em 16.Apr.14 - 15:21

Uma lufada de otimismo tomou conta do ambiente empresarial quando propostas concretas de modernização da economia entraram no horizonte

por Carlos José Marques

Uma lufada de otimismo tomou conta do ambiente empresarial quando propostas concretas de modernização da economia entraram no horizonte. Aconteceu na semana passada e o arauto da boa-nova era o presidenciável Aécio Neves. Em dois encontros com representantes do PIB – de uma parcela gorda do PIB, registre-se –, o candidato à sucessão estabeleceu uma verdadeira carta-compromisso de mudanças que, caso adotada, pode decerto recolocar o País no trilho do crescimento sustentável. Havia ali um projeto de governo substancioso. 

 
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Com tudo incluso: da simplificação tributária ao aumento de renda; do corte nos gastos públicos à redução pela metade do número de ministérios; das reformas trabalhista e política à ampliação da Lei de Responsabilidade Fiscal, que deve abranger também a União. No conjunto, as ideias causaram boa impressão, de maneira unânime, e significaram para aquele público mais que meras promessas eleitoreiras. Demonstraram que o aspirante ao Planalto Aécio estava propositivo, olhando para a frente e oferecendo saídas. Era tudo que CEOs e empresários esperavam e queriam ouvir. 
 
O entusiasmo geral ficou visível. Ao aceitar sugestões dos interlocutores e ir além da crítica pura e simples contra o atual estado de letargia, o tucano encantou a fauna de líderes e obteve uma resposta tão vigorosa que foi, por vezes, aplaudido de pé nos convescotes. É algo sintomático. A falta de canais de diálogo com o poder tem sido uma das queixas recorrentes dessa turma. Não por menos, nos últimos dias o mercado vem manifestando sua clara insatisfação com o governo em vigor. E de tal ordem é essa frustração que a bolsa de valores chega a subir a qualquer rumor de pesquisas eleitorais apontando uma queda na popularidade de Dilma. 
 
Aécio como potencial rival parece, ao contrário, estar cativando. De forma sólida e gradativa. E não se trataria de uma preferência movida por coloração partidária. O que anima os empreendedores é a perspectiva de um novo modelo de gestão. Aécio, ciente desse anseio, vem vocalizando alternativas e atendendo às demandas. Diga-se do candidato que ele, positivamente, vem se cercando de bons quadros para dar cabo a ameaças monetárias, como o repique inflacionário, e ao desequilíbrio da balança comercial. 
 
O ex-presidente do BC Armínio Fraga, que fez escola pela rigidez no controle do cofre, já está escalado como possível ministro da Fazenda de seu governo, caso eleito. A plataforma de Aécio talvez soe subversiva aos ouvidos daqueles que aparelharam o Estado, degradaram estatais e não querem perder o status quo. Mas é notável a carga simbólica da claque desse presidenciável em meio aos que sonham com um país desenvolvido, empenhado em superar suas limitações.

S&P contra os fatos

Nº edição: 858 | 28.MAR.14 - 20:30 | Atualizado em 14.Apr.14 - 11:39

Na contramão dos últimos indicadores, que mostram uma recuperação sensível da economia brasileira, acima das expectativas, a agência de risco Standard & Poor's, tal qual um censor que repreende seus comandados por erros, resolveu rebaixar a nota do País

por Carlos José Marques

Na contramão dos últimos indicadores, que mostram uma recuperação sensível da economia brasileira, acima das expectativas, a agência de risco Standard & Poor’s, tal qual um censor que repreende seus comandados por erros, resolveu rebaixar a nota do País, embora mantendo o chamado “grau de investimento” – o que, em última análise, ainda deixa o mercado na condição de seguro para investir. Essa foi uma espécie de “colher de chá”, digamos assim, para não detonar de vez com a reputação do avaliado. 

 
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A agência desconsiderou abertamente números que mostram o contrário e, não satisfeita, ainda arrolou no rebaixamento alguns dos mais importantes ícones nacionais, bancos e empresas que vêm dando show de resultados no azul, com gordos lucros e crescimento inegável. É de se questionar o intuito de instituições como essa que ganham naturalmente os holofotes e muito marketing destacando suas análises, mesmo que boa parte delas tenha historicamente se transformado em erros crassos de perspectiva. A S&P sempre teve a pretensão de atuar como uma espécie de farol para o capital internacional. 
 
Muitas vezes nessa condição empurrou seus seguidores para os rochedos e fez virar pó bilhões de dólares em apostas equivocadas. Foi por exemplo o que aconteceu quando posicionou o Banco Lehman Brothers como “saudável” às vésperas de sua sonora quebra que desencadeou a crise global dos subprimes. A S&P não colhe prejuízos de imagem por derrapagens dessa natureza e acredita estar atendendo aos interesses de seus “clientes” – e, por tabela, da banca que fatura alto com especulações do tipo –, não importando a inconsistência dos argumentos. 
 
O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, em entrevista ao Estadão, colocou o dedo na ferida ao apontar que a decisão da S&P não tem nenhuma credibilidade. “Que significado tem? Isso é coisa de estelionatários! Eles, na verdade, participaram de um estelionato na crise de 2008.” Na ponta do lápis, o que a S&P deixou de considerar foram indicadores básicos de renda, emprego, produção industrial e mesmo vendas do varejo que mostram o Brasil vivendo atualmente uma recuperação gradual e sustentável. 
 
O PIB de 2013 já foi acima das expectativas e, pelo andar do primeiro trimestre deste ano, deve apresentar números novamente superiores aos previstos e bem acima da média do G-20. Pelo já apurado, a criação de empregos formais avançou 77%; a indústria espera cravar em fevereiro mais uma alta após ter subido 2,9% em janeiro sobre dezembro, enquanto a renda segue avançando. Entregue seus recursos à S&P, à própria sorte e risco, quem preferir confiar em suas conclusões e não em notórios comprovantes de saúde do País como esses.

Apagões a caminho?

Nº edição: 857 | 21.MAR.14 - 20:30 | Atualizado em 17.Apr.14 - 16:01

Um temor recorrente cresce por esses dias no meio empresarial por conta dos últimos acontecimentos: estará mesmo o Brasil à mercê do racionamento em larga escala de luz e água?

por Carlos José Marques

Um temor recorrente cresce por esses dias no meio empresarial por conta dos últimos acontecimentos: estará mesmo o Brasil à mercê do racionamento em larga escala de luz e água? E qual o custo que a eventual escassez desses insumos básicos trará para a produção e a economia como um todo? Governantes, de várias colorações partidárias, movidos por interesses políticos óbvios – como o da proximidade da corrida às urnas –, tratam de negar veementemente o risco. Mas, aqui e ali, sinais de que essa ameaça é mais real do que se imagina vêm aparecendo. 

 
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A Fiesp apontou que muitas empresas já estão vivendo sob racionamento. No motor econômico paulista, diversas regiões apresentam corte de fornecimento de água. O governador Geraldo Alckmin, para evitar o prejuízo de imagem, movimenta-se recorrendo a artifícios que garantam o abastecimento ao menos até às vésperas das eleições. Tenta a transferência de estoque de outros reservatórios. Pede ajuda federal. Mas nada parece capaz de conter o dique de problemas. O Sistema Cantareira chegou ao mais baixo nível de sua história e o fim da temporada de chuvas só agrava a situação. 
 
As autoridades erraram feio ao desconsiderarem a regra básica de que, também nesse caso, seria melhor e mais barato prevenir que remediar. A Sabesp, responsável pela operação, já sabia e havia alertado desde o ano passado sobre as chances de um quadro de penúria do estoque. Por que então medidas reparadoras, como um plano de contenção, não foram tomadas? A aposta de que as chuvas de verão resolveriam acabou prevalecendo. Não vingou e a crise se estabeleceu. 
 
Da mesma maneira, no plano federal, a imprudência na política tarifária de energia – com o governo distribuindo descontos a torto e a direito – trouxe consequências pesadas. Uma conta adicional de cerca de R$ 15 bilhões, em virtude de indenizações devidas às empresas transmissoras, fragilizou ainda mais o sistema. E assim a cobrança do gasto extra virá diretamente para os consumidores. Na forma de aumento de impostos. A tungada ficará, é claro, para depois do fechamento das urnas, truque antigo com o intuito de evitar a fuga de votos. No tocante à garantia de água e luz, prevaleceu novamente o casuísmo político. Para prejuízo de todos.

Saraus de queixas

Nº edição: 856 | 14.MAR.14 - 20:30 | Atualizado em 13.Apr.14 - 23:47

Dois encontros e uma mesma discussão: as queixas à condução da economia brasileira

por Carlos José Marques

Dois encontros e uma mesma discussão: as queixas à condução da economia brasileira. Enquanto em Brasília empresários pesos-pesados foram convidados para um convescote com o ministro Guido Mantega, no qual puderam finalmente expor suas críticas, economistas tucanos do time que fortaleceu a moeda, alinhavou as regras de responsabilidade fiscal e deu tratos à bola da inflação, segurando seus pulos, não pouparam análises negativas sobre a perda de rumo. A conversa dos “Cavaleiros do Real” se deu no Instituto FHC, em São Paulo, por ocasião do aniversário de 20 anos do plano que mudou o País. 

 
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E serviu para repisar o diagnóstico de falhas da “nova matriz econômica” em vigor. A cruzada dos representantes do PIB, que reclamam principalmente do estilo distante de governar e da instabilidade de regras, foi por sua vez mais proveitosa. Esses ganharam promessas de revisão de tributos sobre seus lucros no exterior. Apenas promessas, é bem verdade, mas que soaram como gesto de boa vontade oficial após anos enfrentando medidas que eram adotadas sem consultas prévias aos maiores interessados. Os pais da estabilização – e assim gostam de ser chamados – centraram fogo no tripé de desarranjos monetários: câmbio, carestia e contas públicas. 
 
Estavam, é bem verdade, inevitavelmente imbuídos por um sutil pendor partidário e pelo engajamento na ideia de que seu projeto foi inapelavelmente desfigurado. Sob a liderança do cacique Fernando Henrique Cardoso, que não dourou a pílula e tachou o governo de “autoritário”, economistas de grosso calibre como Armínio Fraga, Pedro Malan, Edmar Bacha, Pérsio Arida e André Lara Resende miraram a munição, principalmente, nas barbeiragens financeiras. Dois ex-presidentes do Banco Central foram direto ao ponto. 
 
Gustavo Loyola, por exemplo: “Perdemos a transparência, reduzimos artificialmente juros, relativizamos o conceito de meta para a inflação e ocorreu intervencionismo exagerado no câmbio”. Armínio Fraga, por sua vez, classificou de “esquizofrênica” a gestão monetária, falando de “grande frustração e grave perigo”. É, guardadas as interpretações políticas, uma análise muito próxima daquela encontrada no campo da produção. Em ambos os polos de frustrados, a mesma conclusão: o País vem perdendo competitividade aceleradamente e algo precisa ser feito com urgência para mudar o ciclo perverso em andamento. As reclamações estão longe de cessar.

A versão oficial e a do mercado

Nº edição: 855 | 07.MAR.14 - 20:30 | Atualizado em 29.Mar.14 - 17:30

Fica, a cada dia, mais clara a distância que separa as expectativas do mercado e as projeções oficiais sobre o desenrolar da economia brasileira

por Carlos José Marques

Fica, a cada dia, mais clara a distância que separa as expectativas do mercado e as projeções oficiais sobre o desenrolar da economia brasileira. Há desconfianças em vários quesitos – do comportamento da inflação ao tamanho do crescimento do PIB, da evolução nas contas externas ao efetivo resultado da política de juros praticada pelo BC, cuja taxa já voltou ao mesmo patamar do início do mandato de Dilma. Na prática, o que se teme é que o governo esteja andando como barata tonta nesse campo das finanças. Ora ele anuncia descontos cavalares na tarifa elétrica para, a seguir, praticar reajustes, temendo a falta de energia e o rombo do setor. Ora ele saúda o menor nível de juros da década e, ato contínuo, inicia uma escalada de aumentos da taxa, que ainda não parou. 

 
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O desafio fiscal se mostra cada vez maior e longe de uma solução estável. Na semana passada, os números divulgados não foram nada animadores. O superávit primário cravado pela União foi o mais baixo já registrado desde 2009. Ficou em R$ 12,95 bilhões, cerca de 50% menor que os R$ 26,28 bilhões acumulados em janeiro de 2013. O superávit oscilou assim de 1,9% do PIB (percentual registrado em dezembro último) para 1,67% do PIB. A deterioração das contas externas é outro calcanhar de aquiles que vem expondo ao mundo as fraquezas brasileiras. Em fevereiro, a balança comercial teve déficit recorde, com as importações superando as exportações em mais de US$ 2,1 bilhões. 
 
Isso depois de já ter cravado outro número recorde, de US$ 4 bilhões em janeiro. Ao lado desse recuo no colchão de liquidez comercial, a saída de dólares do País seguiu firme em fevereiro, superando o volume de entrada em quase US$ 1,9 bilhão. Diante do quadro, não é de estranhar que a Pesquisa Focus, realizada com instituições financeiras e consultorias, tenha apresentado em seu último resultado projeções pessimistas sobre o futuro dos mais variados indicadores. De um modo geral, analistas e economistas privados resistem em acreditar nas análises e apostas sempre mais positivas da ala de autoridades monetárias que pregam, por exemplo, que a inflação tende a fluir para o centro da meta e que a alta de preços deve arrefecer. Quem deve se sair melhor nesse cabo de guerra?

As reinações de Tombini

Nº edição: 854 | 28.FEV.14 - 13:00 | Atualizado em 13.Apr.14 - 23:47

Fazendo uso de uma lógica míope, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, classificou de "parte da solução" e "não do problema" a sistemática desvalorização que o real sofreu diante do dólar nos últimos meses

por Carlos José Marques

Fazendo uso de uma lógica míope, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, classificou de “parte da solução” e “não do problema” a sistemática desvalorização que o real sofreu diante do dólar nos últimos meses. Encontrava-se com capitalistas e autoridades em Sydney, na semana passada, quando lançou essa pérola, provocando ainda mais perplexidade entre os interlocutores. Segundo ele, o ajuste contribuiu para que nossas mercadorias ficassem mais baratas no Exterior e, em contrapartida, encarecessem as importações, inibindo seu fluxo para cá. Tombini confundiu consequência com causa. 

 
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Esqueceu-se de verificar, ou deixou deliberadamente de destacar, que essa solução perversa da desvalorização significou em primeiro lugar uma queda acentuada da credibilidade do País e das apostas de investidores no mercado nacional. A moeda fraca e em queda é o primeiro, se não o mais importante, sintoma do desembarque do capital estrangeiro em uma economia. Atrelada a essa desvalorização deverá vir, em seguida, uma piora da avaliação da saúde do País pelas agências de classificação de risco e, em efeito cascata, o enxugamento das linhas de crédito com reflexos negativos para a produção. 
 
Isso já é esperado e tem sido contabilizado como mais um dos reveses da política monetária. Mas Tombini prefere enxergar o cenário por um ângulo mais azul do que ele se mostra de fato. Em Sydney chegou até a definir como positiva a gradual redução de estímulos financeiros dos EUA, que vinham segurando a cotação do dólar. Em suas reinações, o presidente do BC brasileiro acredita que os dólares estão voltando; que o País está no rumo certo e que não há reparos a fazer na política de ajustes adotada pelo governo. 
 
Tombini, por carreira e opção, é aquele clássico burocrata do BC que evita contato com a realidade e com os empresários e financistas que o cercam e dependem de suas deliberações. Caso fizesse o contrário, e desse ouvido ao mercado, iria facilmente verificar que ninguém concorda com ele na crença de que tudo anda de bem a melhor. Como autoridade monetária que foi pregar em Sydney as vantagens da desvalorização da moeda, mais uma vez Tombini errou feio e mostrou cartas fracas para um jogo de apostas que cada vez mais desconfia da saúde econômica do Brasil.

A classe C é G20

Nº edição: 853 | 21.FEV.14 - 20:30 | Atualizado em 17.Apr.14 - 14:20

Saiu finalmente a conta da contribuição da nova classe média brasileira - aquela que, na última década, ascendeu ao mercado de consumo, como uma avalanche de quase 110 milhões de cidadãos

por Carlos José Marques

Saiu finalmente a conta da contribuição da nova classe média brasileira – aquela que, na última década, ascendeu ao mercado de consumo, como uma avalanche de quase 110 milhões de cidadãos. Uma pesquisa do Serasa Experian mostrou que o pelotão formado por essa turma, que se convencionou chamar de classe “C”, estaria no grupo das 20 maiores nações no consumo mundial, caso fosse classificado como um país. Somente esse recorte “C” dos compradores nacionais – assim classificados aqueles que ganham entre R$ 320 e R$ 1.120 por mês – ocupou a significativa 18ª posição no ranking. Juntos, os milhares de neocompradores movimentam quase R$ 1,2 trilhão ao ano. 

 
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Isso é mais do que consome a população inteira de uma Holanda ou uma Suíça, para ficar em exemplos do Primeiro Mundo. Não por menos, tal massa de compradores se converteu na locomotiva da economia brasileira e em alvo preferido das empresas. Com mais crédito e programas sociais, em especial o Bolsa Família, os emergentes daqui saíram às lojas e estão gradativamente se tornando mais e mais criteriosos em suas aquisições. Já priorizam marca e não apenas preço. Buscam avanços tecnológicos dos produtos, além de durabilidade. Estão interessados em experimentar o que há de novo. Tamanha revolução social trouxe, por consequência, uma readaptação da produção e dos serviços para atender aos anseios desse público do qual se conhecia pouco ou quase nada. 
 
Hoje, na prática, o equivalente a 26% do Produto Interno Bruto (PIB) foi injetado no mercado pela classe média emergente. Ela é ainda responsável por 58% da movimentação de crédito financeiro e tem um perfil predominantemente jovem. Os números de suas compras, apurados pelo instituto da Serasa Experian, são surpreendentes: pelas projeções, deverão comprar cerca de 6,7 milhões de televisores, outros 4,5 milhões de tablets, mais de 4,8 milhões de geladeiras, 3 milhões de carros e realizar perto de 8,5 milhões de viagens nacionais e 3,2 milhões de internacionais ao longo do ano. Por isso tudo a classe C está sendo encarada como a banda boa da economia brasileira. Aquela onde a palavra crise ainda não chegou. 

A desconfiança na economia

Nº edição: 852 | 14.FEV.14 - 20:30 | Atualizado em 15.Apr.14 - 22:32

É perceptível o crescente clima de insatisfação do empresariado com os rumos da economia

por Carlos José Marques

É perceptível o crescente clima de insatisfação do empresariado com os rumos da economia. Os números de produção são pífios, especialmente na indústria, e a falta de diálogo com o governo aumentou o mau humor geral. O ponto de fervura atingiu seu auge na semana passada, quando o presidente do Iedi, Pedro Passos, em entrevista ao Estadão, provocou a ira no Planalto. Disse Passos: “É preciso reconhecer que o modelo se esgotou.” Para logo depois completar: “A confiança dos empresários no governo acabou.” A reação veio rápida e abaixo da cintura. O até então ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, alegou que a crítica do Iedi era política, já que Passos é sócio-fundador da Natura, grupo que apoia Marina Silva e, por tabela, o presidenciável Eduardo Campos, opositor de Dilma nas próximas eleições. 

 
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“Passos se tornou um militante de um projeto de oposição”, alegou Pimentel. Logo vieram réplicas. O presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, que foi convidado justamente para o cargo de Pimentel, saiu em defesa de Passos. Falou de sua seriedade e apontou que a queixa é compartilhada por muitos. O ministro Pimentel, que deixa o posto para fazer campanha política, errou ao desqualificar as críticas. Elas são procedentes e deveriam servir de trilha para uma agenda de propostas e a abertura do diálogo com os empreendedores. Outro aliado de Pimentel e colega de ministério, Alexandre Padilha, que concorre ao governo paulista, ouviu o mesmo tipo de reclamação dos empresários logo no lançamento de sua candidatura dias atrás, quando foram feitos ataques à gestão Dilma. 
 
A insatisfação visível é com a falta de diálogo. Esse distanciamento já gerou situações constrangedoras para a presidenta, como a recusa aberta de dois grandes empresários para ocupar o Ministério do Desenvolvimento. Além de Josué, Abilio Diniz, hoje à frente da BRF, disse não. Sem opções, Dilma teve que promover à vaga, interinamente, o então braço direito de Pimentel, Mauro Borges. Não há no horizonte claros sinais de que esse pessimismo da produção vá mudar em breve. Serão necessários para isso gestos concretos de aproximação da presidenta. Algo que deveria ser a coisa mais natural do mundo, principalmente em se tratando de ano de campanha eleitoral. Seus adversários, ao contrário dela, já iniciaram firmes movimentos de conversa com o PIB em jantares, almoços e encontros reservados. Dilma, por enquanto, limita-se a tratar com o empresariado e a passar recados em encontros oficiais. Está perdendo tempo e um precioso universo de apoio.
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