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Nº edição: 532 | 05.DEZ.07 - 10:00 | Atualizado em 01.Mar.10 - 16:09
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por Leonardo Atuch
Na terça-feira 27, o catalão Vicente Trius, presidente do Wal-Mart no Brasil, reproduziu aquele roteiro clássico que executivos de multinacionais são obrigados a fazer de tempos em tempos. Foi a Brasília, visitou autoridades e anunciou grandes investimentos. À noite, recebeu parlamentares para um jantar fechado. No caso do Wal-Mart, o que está orçado para 2008 são gastos de R$ 1,2 bilhão na abertura de 36 novas lojas, que deverão gerar 7,1 mil empregos. É um número relevante – o maior da história da empresa no País – e que tem ligação direta com o bom momento da economia brasileira. Na rede varejista americana, há um estudo interno, chamado de Consumidor 2020, projetando que o Brasil crescerá, no mínimo, 50 pontos acima da média mundial a cada ano. Se o mundo avançar 4%, o Brasil rodaria a 4,5%. Além disso, os ganhos de renda ficariam concentrados nas classes mais baixas, indicando que o consumidor continuará sensível ao fator preço. Parece óbvio, mas o fato é que, melhor do que qualquer outro grupo, o Wal-Mart indica ter descoberto a fórmula para crescer de forma consistente no Brasil. Desde 2001, a taxa de expansão das vendas por loja tem sido próxima a 10% ao ano. É mais do que o dobro da média do mercado – em alguns casos, há concorrentes com vendas estagnadas ou até declinantes. Trius tem a explicação na ponta da língua: preço, preço e preço. “Ninguém pode nos acusar de não contribuir para a queda no custo de vida no Brasil”, diz ele.
Todos os dias, o executivo acompanha uma pesquisa feita com mais de três mil itens, em supermercados e hipermercados do País. Os preços, garante Trius, são pelo menos 7% mais baratos no Wal-Mart. Deve se descontar seu entusiasmo pela empresa que lhe paga o salário, mas já há estudos comprovando que a rede varejista, de fato, atua como uma força deflacionária na economia. “Nos Estados Unidos, a inflação é 10% a 15% mais baixa graças ao Wal-Mart”, disse à DINHEIRO o jornalista Charles Fishman, editor da revista Fast Company. No ano passado, Fishman publicou o livro The Wal-Mart Effect, que vendeu mais de 100 mil cópias nos Estados Unidos. “A busca obsessiva por preços baixos, efetivamente, transfere os ganhos de eficiência para os clientes”, diz Fishman. Isso significa que a rede fundada por Sam Walton, em Bentonville, torna mais fácil o trabalho do Federal Reserve, o banco central americano. Até porque, nos Estados Unidos, de cada US$ 100 gastos no varejo, US$ 10 caem nos bolsos do Wal-Mart. É o que os estudiosos chamam de share of pocket, ou seja, a fração do seu bolso que fica com determinada empresa.
No Brasil, a posição do Wal-Mart no varejo não pode ser comparada com a dos Estados Unidos. Mas, neste ano, com vendas superiores a R$ 15 bilhões, a rede se aproxima dos seus principais rivais: Carrefour e Pão de Açúcar. Além disso, cada loja inaugurada é quase um fenômeno cultural, em que o Wal-Mart vira tema de conversa de bar e de porta de escola. Dias atrás, ao abrir um hipermercado na Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, a empresa vendeu mais de 70 televisores de plasma, em menos de três horas – um recorde. “A filosofia deles é clara”, diz Fishman. “Se o Wal-Mart conseguir fazer com que cada cliente brasileiro economize R$ 500 por ano, sabe onde ele vai gastar? No próprio Wal-Mart.”
Mas há também um lado sombrio. Os mesmos estudiosos que revelam o impacto positivo de redução de preços, também apontam um efeito negativo em empregos. Segundo Fishman, se uma loja abre 500 vagas numa localidade, cinco anos depois, haverá 50 empregos a menos na região. Isso porque grande parte do comércio local terá sido aniquilada. “As pessoas não compram a mesma coisa duas vezes”, diz ele. “Ocorre que o Wal-Mart não só toma o lugar do antigo fornecedor como faz melhor, com mais eficiência e custo menor.” É por isso que a rede americana encontra dificuldades para se expandir nos países europeus, mais conservadores. O Brasil, no entanto, parece ser terreno fértil para a expansão da insaciável máquina de vendas da família Walton.
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