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A global'Índia'ção

Nº edição: 521 | 19.SET.07 - 10:00 | Atualizado em 16.Dec.10 - 21:18

Dentro de um mês, Brasil, Índia e África do Sul se encontram na Cidade do Cabo para uma reunião de cúpula do chamado bloco Sul-Sul, iniciativa do presidente Lula de reunir as maiores democracias de cada um dos três continentes.

por Joaquim Castanheira

Dentro de um mês, Brasil, Índia e África do Sul se encontram na Cidade do Cabo para uma reunião de cúpula do chamado bloco Sul-Sul, iniciativa do presidente Lula de reunir as maiores democracias de cada um dos três continentes. Tirando o fato de que, com a invenção desse grupo, o Brasil isola o México, e a Índia marca posição em relação à China, a questão que se coloca é sobre o tipo de integração possível. Afinal, a globalização é um movimento único, ou ela pode ser fragmentada geográfica e economicamente? Existirá uma globalização de países em desenvolvimento que venha a ser diferente da que se conhece até agora?

Se no Brasil o discurso antiglobalização ainda encontra aceitação (em grande parte por causa da oposição que o PT sempre fez ao tema), o que se vê na Índia é outra receptividade. “A globalização representou aumento de renda para os hindus”, diz Mrinal Pande, editora-chefe do Hindustan, um jornal publicado em híndi, com tiragem de 4,5 milhões de exemplares.

Com 18 idiomas oficiais e dezenas de dialetos, a língua é uma questão central no caminho da Índia para uma economia de mercado. A herança da colonização inglesa, que se vende nos relatórios dos bancos de investimento como grande benefício competitivo do país, atinge apenas 10% da população. E ainda assim com aquele sotaque que faz a alegria dos cursinhos de pronúncia que pipocam nas grandes cidades da Índia. Um emprego de menos de US$ 300 mensais num callcenter transforma o contratado num privilegiado dentro de sua família, mas para isso ele precisa falar o inglês ocidental.

“Temos uma sociedade agrária e pobre”, diz o deputado Chandan Mitra. Com mais dinheiro no bolso, o que essa massa de indianos fez foi se voltar para os próprios valores – e não copiar o padrão global de comportamento. Embora os velhos defensores da política de não-alinhamento digam, numa quase crítica, que as aspirações indianas são ocidentais, as mulheres não trocaram os coloridos sáris por calça jeans e camiseta. Os homens continuam a usar alpargatas e camisas estampadas de botão.

“O inglês está sendo cercado, mas não ameaçado”, diz o jornalista Rahul Dev. “O híndi é falado ou ao menos entendido por 99% da população”, diz Pande. No caso do seu Hindustan, a globalização representou, dentro do grupo de comunicação ao qual pertence, o fim da dependência econômica dos jornais de língua inglesa. Até então, era a publicidade deles que subsidiava o diário em híndi. No ano passado, houve um acréscimo de 40% na publicidade em híndi e a dose será repetida este ano. Parte substancial dessa verba vem da explosão de classificados, notadamente as 18 páginas de anúncios para casamentos (quase todos a serem arranjados, como manda a tradição).

A elevação da autoestima hindu provocou dois movimentos: um econômico e outro político. “Toda companhia precisa ter uma estrutura grande para as línguas híndi”, diz Pande. Pelo lado político, o aumento da penetração dos jornais em híndi levou pequenos povoados a mudar o tipo de representação no Congresso (antes também dominado pelo anglocentrismo).

Em grandes linhas, o caso indiano parece o avesso do Brasil. Se por um lado a globalização chegou lá sob os mesmos preceitos macroeconômicos de controle dos gastos públicos, redução da dívida oficial e abertura comercial, na prática o que se vê é que seus benefícios parecem valorizar a tradição e a segmentação cultural, econômica e política do país – e não integrá-lo a uma espécie de grand monde ocidental. Até agora, isso é o que eles acreditam ser o melhor para eles.



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