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Artigo
País em coma induzido
Nº edição: 416 | 31.AGO.05 - 10:00 | Atualizado em 12.Dec.10 - 15:59
Não há muito o que proteger nesta crise. A economia brasileira está blindada por sua própria letargia
por Joaquim Castanheira
À medida em que a crise política avança Esplanada dos Ministérios adentro e ameaça subir a rampa do Palácio do Planalto, o discurso em torno da blindagem da economia torna-se recorrente. É, sem dúvida, louvável que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Antônio Palocci procurem proteger a economia contra uma possível contaminação política. Mas também parece uma iniciativa inócua. Não há muito o que proteger. A economia brasileira está blindada por sua própria letargia. Não há possibilidade de paralisia em uma conjuntura já estagnada. Não há crescimento a ser interrompido.
Não há renda a ser corroída. As equipes econômicas dos últimos dez anos cuidaram de jogar a economia em uma espécie de coma induzido – aquele estado anestésico ao qual o paciente é levado propositadamente pelos médicos, depois de enfrentar algum tipo de trauma, com o objetivo de preservar as funções vitais. Assim, evita-se que qualquer movimento ou emoção prejudiquem essas funções vitais. Enfim, o sujeito está lá, vivo mas sem viver, preso permanentemente a uma cama. Em geral, os médicos induzem um doente ao coma à espera de que os medicamentos façam efeito ou que o organismo supere o trauma a que foi submetido. Em casos mais graves, embora não confessem, ficam à espera de um milagre, já que a ciência esgotou todas suas alternativas.
No caso da economia brasileira, o último caso parece o mais provável. Desde o Plano Real, o País foi lançado a esse estado para estancar o mal que destruía violentamente o valor da moeda, a inflação. Mas não encontrou remédios que o curasse de vez. Sem conseguir encontrar saídas, acabou criando no paciente uma dependência em relação ao medicamento, que deveria ser ministrado topicamente, mas se tornou de uso contínuo. Pior: além de não resolver definitivamente o problema da economia, o receituário aplicado criou efeitos colaterais de gravidade semelhante à da própria doença. O mais visível deles é a anemia nas taxas de crescimento. Nesta semana, a revista inglesa The Economist divulgou um ranking no qual o Brasil aparece na última posição entre os países emergentes, no quesito “crescimento da economia”. A estimativa é de um índice de apenas 3%. A China atingirá 9%, seguida pela Índia (6,8%) e Argentina (6,6%). Em 2006, o Brasil deixa a lanterna, mas nada muito auspicioso. A taxa, segundo The Economist, ficará em 3,6%, levemente à frente de México (3,3%) e Colômbia (3,5%).
Para o governo, a maior prova da blindagem não se encontra nesses números, mas sim na taxa de câmbio. O real continua se valorizando como nunca, e isso revela que a instabilidade política não provocou desconfiança dos investidores, na visão de Brasília. Bobagem. O que há é uma inundação de dólares no Brasil e no mundo, mantendo a cotação da moeda americana por aqui próxima do chão. Nos últimos dois anos, dólares não param de entrar no Brasil. A balança comercial ruma em direção a novo recorde, na casa dos US$ 37 bilhões. Os investidores correm para cá na ânsia de aproveitar as maiores taxas de juros do planeta e, segundo analistas, há bilhões de dólares se deliciando com aquilo que Henrique Meirelles e sua equipe do Banco Central vêem como remédio para os males da economia.
Alguém mais otimista poderia alegar que se a balança comercial bate recordes simultâneos, isso é mérito da gestão do País. Meia verdade. Os preços das commodities atingiram níveis inéditos nesses últimos anos. O minério de ferro, um dos principais itens de exportação brasileiros, teve aumento de 70% neste ano. O que há de mal em ganhar dinheiro com produtos básicos? Não há nada de mal. Mas o empresário Josué Gomes da Silva tem uma pergunta interessante a respeito desse assunto. O Brasil quer ser a Austrália ou o Chile, países cuja economia vive dependente de produtos agrícolas e minerais? Pode ser bom para eles, com populações bem menores do que a brasileira e sem as mesmas carências sociais visíveis em cada esquina das cidades daqui. Mas, segundo cálculos do Ipea, o PIB do País só cresce mais de 4%, quando a indústria (e não o agronegócio) apresenta índices de expansão superiores a 6%. E para que as fábricas produzam nesse ritmo é necessário tirar a economia do coma induzido.
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