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Artigo
A bolha chinesa
Nº edição: 412 | 03.AGO.05 - 10:00 | Atualizado em 17.Jun.11 - 20:01
Só a acachapante concentração de poder econômico nas mãos do governo explica a sobrevivência do sistema financeiro
por Joaquim Castanheira
Desde que a China anunciou a tímida desvalorização de sua moeda, o yuan, os economistas dividiram-se em dois grupos. Um deles defendia a idéia de que se tratava do início de um processo de ajuste que ajudaria a dar mais equilíbrio ao comércio mundial. Outro grupo acreditava que a iniciativa era apenas uma espécie de cortina de fumaça, destinada a aplacar a fúria com que os Estados Unidos atacava a política cambial do País. Mas diplomatas que circulam por Pequim e executivos estrangeiros que povoam os prédios de estilo arrojado de Xangai se debruçaram com mais afinco sobre um outro aspecto: a cesta de moedas que substituirá o dólar como referência para as flutuações do yuan. Tudo bem, não fosse um detalhe. O governo chinês não forneceu qualquer informação sobre quais são essas moedas e seu peso na referida cesta, tornando sua política cambial ainda mais obscura. Para os estrangeiros que vivem o dia-a-dia do mundo corporativo chinês, trata-se de mais um enigma num ambiente marcado por perguntas sem respostas e falta de transparência. Isso coloca em xeque a veracidade do estupendo (e aparentemente inesgotável) vigor econômico e lança um enorme ponto de interrogação no futuro do País. Entre esse pessoal, já se fala na “bolha” chinesa, numa referência a um eventual a um crescimento inflado e artificial que pode se esgotar a qualquer momento.
E o Brasil com isso? Bem, dê uma olhada nos planos estratégicos das grandes companhias brasileiras e, em algum momento, o nome China estará lá, em lugar de destaque. Siderúrgicas? A fome do país oriental por aço foi diretamente responsável pelos recordes de lucratividade nos últimos anos. Mineração? A Vale do Rio Doce arrancou um aumento de 70% no minério de ferro por conta da demanda chinesa. Agronegócio? Os preços internacionais dos grãos permanecem em um patamar elevado graças às compras da China. Algumas montadoras também têm por lá um mercado cada vez mais importante. Mais: todos contam com a contínua expansão chinesa para rentabilizar os investimentos feitos ontem e hoje. Se a bolha estoura ....
O que leva ao clima de desconfiança são alguns dados concretos a respeito do país comandado pelos mandarins do Partido Comunista. A fórmula de cálculo do PIB, por exemplo. Cada província calcula o seu e envia as informações para um instituto nacional ligado ao Ministério da Economia, que apenas consolida os resultados, sem qualquer auditoria. Só que o crescimento econômico vale pontos preciosos para a escalada na hierarquia do partido. Quem garante que o chefão de uma província não manipule os números para conquistar a “simpatia” dos dirigentes nacionais?
A China também parece não ter se preocupado em rimar crescimento com desenvolvimento. Os saltos no PIB, sempre superiores a 7%, nos últimos 15 anos trouxeram um quadro de desigualdade social crescente, com clara vantagem para as regiões industrializadas e abertas aos investimentos estrangeiros. Na metrópole Xangai, centro de negócios e financeiro do País, a renda per capita supera US$ 3,5 mil, enquanto na província de Guizhou, predominantemente rural, mal passa de US$ 500. Hoje, calcula-se que mais de 100 milhões de chineses vagueiam pelo País, em busca de oportunidades de trabalho nas grandes cidades. É um quadro social com alto teor de combustão, que provavelmente só não se transformou em incêndio por força do regime totalitário e policial dominante no país.
A ditadura, aliás, camufla outros problemas com potencial explosivo. Só a acachapante concentração de poder econômico nas mãos do governo explica a sobrevivência do sistema financeiro do país. Fosse numa economia mais aberta , boa parte dos bancos já teria ido à bancarrota. As estimativas são de que os créditos podres somem o equivalente a 20% do PIB, hoje na casa do US$ 1,5 trilhão. Tempos atrás, o Banco Central torrou US$ 45 bilhões para evitar a quebra de duas grandes instituições financeiras. No mundo da produção, também há sinais de descontrole. Embora a capacidade ociosa da indústria esteja crescendo (em alguns casos, supera 40%), os investimentos estrangeiros continuam desembarcando na China. Há uma corrida desenfreada dos grandes grupos multinacionais para tomar a dianteira de um mercado potencial de 1,3 bilhão de pessoas, que em sua esmagadora maioria ainda não se tornou consumidora de bens além daqueles necessários para a sobrevivência.
Diante desse quadro, os empresários brasileiros poderiam colocar um pequeno ponto de interrogação ao lado do nome China em seus planejamentos estratégicos – sem obviamente menosprezar as imensas oportunidades que se abrem para aqueles lados orientais. Desenvolver outros mercados pode ser bastante saudável, mesmo porque nós brasileiros conhecemos bem essa história de apostar numa terra sempre prestes a se tornar uma potência e o grau de frustração que isso significa.
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