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Crescimento não é tudo

Nº edição: 662 | 11.JUN.10 - 21:00 | Atualizado em 18.Jun.11 - 07:28

Alan García voltou ao poder em 2006 e levou o país a uma expansão de 10%. Esqueceu de um detalhe: os programas sociais

por Hugo Cilo

Quem caminha pelas agitadas ruas de Lima, no Peru, logo percebe que a atmosfera econômica do país vizinho contrasta com a realidade de diversas cidades da América Latina. Em San Isidro, coração financeiro da capital peruana, dezenas de guindastes erguem prédios modernos.

Carros de luxo, que no Brasil custam mais de R$ 150 mil, já não chamam a atenção – BMW, Mercedes-Benz e Porsche são marcas comuns por lá. Nas estradas e avenidas não há buracos no asfalto. Os shoppings estão sempre lotados. A poucos minutos do centro, o Porto de Callao, um dos mais dinâmicos e movimentados do continente, está em constante ampliação.
 

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Logo ao lado, o Aeroporto Jorge Chávez deixa para trás qualquer terminal aéreo brasileiro, tanto em estrutura quanto em organização. Surpreen-dente, de certa forma. O cenário presenciado nas ruas está visivelmente estampado nos indicadores econômicos. Entre 2001 e 2008, o Peru cresceu a um ritmo de 8,7% ao ano, o melhor desempenho das Américas. No ano passado, mesmo abalado pela crise, o PIB cresceu 1,12%, depois de ter avançado 9,89% em 2008. Para 2010, já se projeta expansão entre 6,2% e 6,9%, não muito distante do que se prevê para o Brasil.

Dito isso, seria natural imaginar que o país que mais cresce no continente tivesse um presidente benquisto pela população, a exemplo dos 78% de aprovação de Luiz Inácio Lula da Silva entre os brasileiros. Mas o peruano Alan García, no poder desde julho de 2006, não tem. O índice de aprovação de seu governo está em queda livre.

Hoje, apenas 26% dos eleitores votariam nele em uma eventual tentativa de reeleição. No mês passado, a fatia era de 32% e, em abril, 34%. Onde ele errou? Na área social. Ao contrário de Lula, o presidente García não lançou nenhum tipo de Bolsa Família, Luz Para Todos, Bolsa Escola, Fome Zero, nem turbinou pensões e aposentadorias.

Prova da repercussão positiva dessas iniciativas é a atual aprovação do presidente Lula. O nível de satisfação é mais alto entre os mais pobres e os moradores da região Nordeste, onde o percentual atinge 92%. No Peru, a disparada dos investimentos estrangeiros em extração de minérios tem aumentado o atrito entre comunidades indígenas e grande companhias – o que, evidentemente, sem o jogo de cintura de García, prejudica a imagem do governo.

Com esse índice de aprovação, é improvável que ele tenha alguma influência na indicação de um novo nome dentro do Partido Aprista Peruano (Apra). Se não conseguir virar o jogo, a sucessão presidencial de 2011 deverá eleger o prefeito de Lima, Luis Castañeda, que desponta como favorito, seguido por Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori. Existe ainda o risco de o chavismo dominar a política do país. O candidato Ollanta Humala, apoiado por Caracas, tem crescido rapidamente nas pesquisas de opinião. 

Alan García vive um novo paradoxo. Seu primeiro mandato, entre 1985 e 1990, levou o Peru à hiperinflação e ao caos econômico. Ao ter uma segunda chance, aprendeu a lição do crescimento econômico, mas cometeu um deslize ao negligenciar a área social. O episódio deixa uma nova lição: a de que o crescimento econômico, por si só, não é tudo.

 

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