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A gasolina subiu. E daí?

Nº edição: 553 | 07.MAI.08 - 10:00 | Atualizado em 09.Feb.10 - 10:36

Era para ser a notícia mais importante do dia. Aquela que nos tira o humor e nos remete aos anos do dragão, quando gastar rápido era a única forma de preservar o dinheiro dos efeitos devastadores da inflação

por Luiz Fernando Sá

Era para ser a notícia mais importante do dia. Aquela que nos tira o humor e nos remete aos anos do dragão, quando gastar rápido era a única forma de preservar o dinheiro dos efeitos devastadores da inflação. A gasolina aumentou 10%, anunciou o governo na quinta- feira 30 de abril, a mesma data fatídica em que se encerrava o prazo para o acerto de contas com o leão do Imposto de Renda, ponto negro do calendário, momento tradicional de se praguejar contra o governo. Pois é, o preço da gasolina vai subir. E daí? Não houve filas nos postos, não se ouviram gritos de protesto e, mais surpreendente, talvez nem haja um grande impacto na inflação. O Brasil, definitivamente, não é mais o mesmo.

Uma radiografia do outrora nefasto momento explica muito da falta de combustão no noticiário. Todo mundo esperava pela confirmação do aumento, mas quando o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, tratou de fazê-lo, na tarde daquela quinta, já havia fato mais importante a ser repercutido. O acaso - e que acaso! - estendeu uma mão ao governo e a surpreendente classificação do Brasil como grau de investimento pela agência de risco Standard & Poor, minutos antes, tratou de ofuscar qualquer outro fato. Coadjuvante do dia, Gabrielli foi poupado de dar as explicações, tão difíceis em outros tempos. Por que 10%? Por que tanto tempo sem reajustes? Temos outros aumentos previstos? Qual o limite para o preço do petróleo? O governo segurou o preço dos combustíveis para não deixar a inflação disparar?

Voltemos à radiografia. Enxerga-se um país preocupado com a recente aceleração dos preços e com a possibilidade de a inflação estar escapando do centro da meta imposta pelo Banco Central para este ano. Por conta desse temor, o hiperzeloso BC acabara de elevar os juros básicos da economia. Os combustíveis, com cotações em disparada no mercado global, mas estacionados nas refinarias nacionais, apareciam aqui como uma âncora, segurando os índices de preços junto ao chão. Um olhar rápido identifica a Petrobras como auxiliar do BC no papel de guardiã da política monetária. Pode se tratar de ilusão de imagem.

Checando-se com mais rigor, descobre-se que a estatal jogou o jogo do mercado. Se conseguiu, convenientemente, segurar os preços da gasolina por tanto tempo é porque tinha o respaldo da lei da oferta e da procura e o auxílio generoso das taxas de câmbio. O dólar em baixa pressiona menos suas contas. Mas, sobretudo, a diversidade da matriz energética brasileira a impede de simplesmente transferir para as bombas o aumento que vem de fora. Diferentemente dos outros países, o Brasil tem opção. Se a gasolina sobe, corremos para o álcool. Aliás, já estamos correndo, antes mesmo do aumento. Em março, pela primeira vez na história, vendeu-se, nos postos brasileiros, mais etanol que gasolina. Para uma empresa de petróleo, essa é uma boa razão para reter remarcações sem desagradar aos acionistas. Para uma estatal de petróleo, alinhada com a política econômica, um ótimo argumento para fazer o mesmo.

Mesmo ao soltar as amarras da âncora do álcool, a Petrobras pôde fazê-lo quase sem culpa. Simultaneamente ao reajuste dos combustíveis, o governo anunciou uma compensação: vai reduzir a incidência da Cide, contribuição cobrada sobre a venda dos combustíveis. Com isso, embora mais cara nas refinarias - e mais lucrativa para a estatal -, a gasolina pode ser mantida nos mesmos patamares de preços ao consumidor. Com o diesel, cuja alta foi de 15%, a contrapartida da Cide é insuficiente e o combustível que move caminhões e trens, este sim, vai impactar a economia quando o repasse do custo dos transportes chegar às prateleiras embutido em outros produtos. Bem, mas aí, graças ao grau de investimento, o dólar pode estar ainda mais barato, a ciranda positiva continuar rodando e uma nova boa notícia nos fazer esquecer que, no festivo 30 de abril, a gasolina subiu.

 



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