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O funeral do Banco Central Europeu

Nº edição: 659 | 21.MAI.10 - 21:00 | Atualizado em 11.Apr.11 - 17:09

Obituário publicado pelo jornal alemão Die Welt critica Trichet e a perda de independência do guardião da moeda única europeia.

por Milton Gamez

Imagine a cena. O francês Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu (BCE), abre o jornal de manhã para ver a repercussão do pacote de 750 bilhões de euros, anunciado na véspera pela União Europeia para garantir o pagamento das dívidas soberanas dos países em crise. Como está de mau humor, ouve ao fundo a marcha fúnebre, na célebre versão de Chopin.
 

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Antes de encarar o noticiário econômico, pula para a página dos obituários – depois de uma certa idade, sempre é bom checar se os amigos e os inimigos passaram desta para a melhor. E quem está lá? Se o jornal for o Die Welt, o morto ilustre do dia é o Banco Central Europeu. Na prática, o próprio Trichet.

O obituário do BCE foi realmente publicado pelo Die Welt, no sinal mais eloquente de que os detalhes do pacote de socorro da União Europeia enfureceram os analistas mais conservadores e deram munição para os chamados eurocéticos. Sob a lápide, o título dava o tom da reação negativa: “O BCE enterrou os seus princípios.” Tudo porque a instituição, criada para ser a guardiã do euro, aceitou uma mudança radical na sua forma de atuar. Para estancar a crise na região, o BCE concordou em comprar diretamente os papéis dos Estados em dificuldades. Dias antes, Trichet, ao ser perguntado sobre essa possibilidade, dissera que nem sequer havia sido cogitada. Mentiu? Foi derrotado? Não importa mais.

A decisão foi vista como o primeiro prego no caixão da independência do BCE, pois abre a porta para o financiamento de governos gastadores e sem crédito na praça. Até Axel Weber, presidente do Bundesbank, o banco central alemão, criticou a guinada publicamente – coisa rara – e minou suas chances de suceder Trichet no BCE em 2011.

Não basta aos bancos centrais terem poder de fogo para intervir nos mercados monetários e cambiais. Para proteger a moeda, é preciso ter credibilidade. A de Trichet está arranhada. A do BCE, também. O euro, que nunca chegou a ser visto seriamente como sucessor do dólar americano como a principal moeda forte do mundo, perdeu em poucas horas a confiança de muitos investidores, empresas e especuladores.

A queda diante do dólar supera 13% no ano. Desde julho de 2008, antes do estouro da da bolha imobiliária nos Estados Unidos, a moeda única de 16 países da União Europeia caiu 24%. Se a modelo brasileira Gisele Bündchen só aceitava receber em euros, como se disse num passado não muito distante, deve estar arrependida.

Enquanto Trichet agoniza, o brasileiro Henrique Meirelles tem motivos para comemorar. A crise na Europa, importante parceiro comercial, não interessa ao Brasil. Porém, ajuda a diminuir as expectativas de alta de preços deste lado do Atlântico, já que a demanda menor ajuda a segurar um pouco o ritmo de crescimento da economia brasileira.

É consenso que o Banco Central irá apertar o torniquete dos juros até o final do ano para segurar a inflação. A novidade é que as agruras europeias podem diminuir a necessidade de aperto. Em ano de eleição, essa é uma boa notícia para o governo Lula e sua candidata, Dilma Roussef. Mas, se a crise na Europa desembocar numa onda de calotes, todos sairão perdendo.

 

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    em 11/04/2011 17:09:55

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