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Dinheiro da Redação
Vivendo de crises
Nº edição: 656 | 30.ABR.10 - 10:00 | Atualizado em 02.Apr.12 - 20:24
Mercados têm predileção por crises. Vivem delas, alimentam sua fúria e, claro, ganham bem com suas consequências
por Carlos José Marques
Na hecatombe do subprime americano as bolsas de todo o mundo, como templo de birutas alucinadas, levaram os papéis às profundezas do abismo para depois retomarem as cotações, em patamares nunca antes vistos. No Brasil viveu-se então a chamada crise de expectativas e, mesmo com a economia seguindo a todo vapor, imaginou-se o pior. Sem fundamento, sem lastro na realidade, a mensagem vendida ali era a de que um tenebroso inverno produtivo se aproximava. Ele não veio. Mas o rebanho de seguidores do Deus Mercado caiu direitinho no discurso do juízo final. E fez parar na marra as máquinas, na quase profecia autorrealizável, para depois voltar atrás. Incautos – senhores nos seus ramos de negócios, mas aprendizes na seara dos pregões –, descobriram que não era nada daquilo e tardiamente perceberam que perderam pela crença incondicional.

Agora parece ser a vez de uma nova onda a atemorizá-los, que pode ser batizada como “crise de contágio”. Tal e qual uma nuvem que logo se forma e mais adiante se dissipa, essa fechou o tempo no início da semana passada. Teve origem na longínqua e esquálida Grécia, onde se vive o caos das contas públicas impagáveis, do nó cego na receita privada, do desemprego lancinante. Do lado de cá do mapa: consumo em níveis recorde, indústria a plena carga, crédito farto, moeda forte. Mas, apesar dos contrastes, martela-se o mantra do contágio. E o que faz a bolsa brasileira? Desaba. Em um único dia, mais de 3,40%. Seus tubarões controladores do jogo realizam uma retirada estratégica de investimentos para, nas sessões seguintes, ainda na mesma semana – na “hora da xepa” –, operarem a compra de ações na baixa. Vale qualquer pretexto para acionar a gangorra de emoções do perde e ganha. Uma nota negativa de agência de risco aqui, uma demora na liberação do socorro acolá, uma declaração mal colocada. O que importa é sacudir as apostas da manada. E surge assim a “crise de expectativa”, a “crise de contágio”. Logo, logo entra em cartaz a “crise da Copa”, a “crise da eleição”, a “crise da falta de crise”. É para entreter e esquecer a realidade. Cuidado é com o final do filme.
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